A liberdade não se deitou com um homem. Fez-lhe o filho um mundo inteiro que, de decrépito, já não se erguerá do abismo para ensinar a sua descendência.
21 de janeiro de 2006
descendência
A liberdade não se deitou com um homem. Fez-lhe o filho um mundo inteiro que, de decrépito, já não se erguerá do abismo para ensinar a sua descendência.
6 de janeiro de 2006
só assim
5 de janeiro de 2006
últimas palavras

(daqui)
Estendo as mãos e nelas vejo o vazio das tuas. Estendo o olhar para parte alguma e nenhum lugar é onde já foi. Estendo o meu corpo na latitude onde já não te encontras. Toda a terra se abate, com a aflição das águas. E a chuva cai porque tudo em mim para ti caiu.
E nós sem argumentos tristes, sem a vocação das lágrimas. Mas a chuva cai nessa condição porque outras águas não o fariam melhor para ilustrar a partida de ambos.
As últimas palavras, dirão.
2 de janeiro de 2006
asas
31 de dezembro de 2005
partida

por Luís Ventura em 1000 imagens
Vai cair a chuva sobre mim e não vou ceder um milímetro que seja do meu espaço. Caia a água vagarosa inundando a ferrugem dos carris, que eu fico aqui, nesta espera contínua. É o vento que lavra a terra batida e fustiga a erva dura, escura. O ar entristece-se com a partida, é um bocejo frio que se enrola num cigarro. Há-de chegar o comboio, e eu sei esperar. Quando o relógio for mais velho no mundo, ou um vagido reclamar a recontagem do tempo, estarei por aí. Ao abrir das garrafas. Na explosão das cores e dos céus.
A chuva já cai, escorrem pequenos ribeiros da minha cabeça para dentro do meu corpo, como se as veias se virassem do avesso, bombeadas pelo acaso, e o sangue vítreo da cor do nada. Da cor da partida.
E assim parece-me que o fim tem na sua cauda a semente de um princípio de tudo, para lá de tudo, para lá de mim agora aqui encharcado, sem ceder um milímetro do meu espaço. Se cedesse, deixaria que o pavor tomasse conta de mim, arrumando-me a um canto de pardas solidões. Talvez para sempre. Mas deixo-me estar firme como a pedra, que nem é dura sob a água que nem é mole. Não perderei a minha carruagem, e levo na bagagem alguns segredos.
Guarda-te para mim. Se ouvires as badaladas, não te enganes: serão os meus passos de sempre, antecedendo a envergadura da sombra do meu capote inundado.
30 de dezembro de 2005
telegrama

foto de Marco Ricca em 1000 imagens
27 de dezembro de 2005
milímetro

O Canto dos Anjos, por Armando Dias em 1000 imagens
30 de novembro de 2005
nem sempre são as palavras

Julie, de Filipe Oliveira em 1000 imagens
- Que dizem o quê?
- Tudo. Nem sempre são as palavras.
- Queres dizer também o olhar?
- E o rosto, principalmente o rosto.
Lágrima
O Rosto é Lágrima.
Frio Orvalho.
Sentimento, Criação.
Espírito.
Tarde
O Rosto é a Tarde
Desejo que Arde.
É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto o fogo ateado no meu peito que vem consumindo as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. É um bocejo, um quadro sobre a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida, a questão de saber o que queremos. Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já, tanto quanto eu, que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos...
26 de novembro de 2005
pela humidade dos lábios

Fumo sobre um copo de whisky que tem a humidade dos meus lábios. Tinha a quase certeza que aceitarias o meu convite, mas a cidade era um aglomerado deserto de gente sem a tua presença. Não sei se pelo sol tímido, se pelas nuvens plúmbeas que ameaçavam o encanto breve da praça, se pelo frio que obrigava os passos das pessoas naquele ritmo ligeiro sem olhar o rosto dos outros – era uma cidade sem carne, sem sangue. As tuas mãos não estavam lá, para me proteger, para me encaminhar.
E desencaminhado retrocedi toda a marcha da tarde, acabando neste cubículo onde enfim me incenso. O whisky convidou-me numa solenidade aristocrática para que, de resto, não apagasse a luz da tarde só. O tampo da mesa teria poesia para te recitar, talvez dois ou três versos me saíssem das mãos a agradecer-te a presença. E o meu rosto teria uma ternura de criança, emocionada com o tom da tua voz, como se essa criança quisesse o embalo do teu colo.
Não estiveste, não vieste. Voaram os pássaros, recolhidos numa pluma de sono quando a tarde caiu. Fiquei com a memória vaga de ti, e numa atitude digna
(porque o whisky quis que me rendesse à sua condição aristocrática)
acendi o cigarro sem convulsões, sem qualquer lágrima, apenas a postura lamechas de ir fumando sobre o copo que tem a humidade dos meus lábios. Sem os teus, sem os teus... Uma humidade salgada, pois que talvez os lábios também chorem. Quando te encontrar, nada te direi – estarei enrolado numa pluma de pássaro para que sejas tu a tomar a iniciativa de entrar no meu sono. Se vieres então
(sem whiskies, sem cigarros, sem poesia – e sem qualquer inclinação lamechas)
tomarei o teu corpo debaixo do meu para respirar brisas de uma primavera ainda longe dos calendários.
21 de novembro de 2005
diferente sempre

(autor desconhecido)
É diferente sempre o que pensas de mim. Arrumo-te a um canto da boca a soletrar patetices como quem desfolha o malmequer na esperança que a conta lhe abra portas esotéricas para um amor de todo impossível. A música rompe num lamurio de lágrimas contidas, como se a raiva fosse possível neste espaço. Olha que não é… Rasgas o papel numa incontinência de frustrações e nada te devolve o sossego. E assim se conhece um pateta: o olhar esbugalha-se perante o que não conheces, o que pensavas não ser possível. Estás na exacta posição de rato de cobaia, serves-me na experiência de que o ser humano é um bicho amedrontado pela solidão. E a solidão nada mais é que uma simples sombra. E debitadas a frustrações, não te lembras que onde há uma sombra há uma luz por onde poderias sempre fugir. Porém nunca saberias como fugir de ti mesmo, não é verdade? Como seria? Um grito? Uma carta de suicídio? Penso que talvez a cobardia, como qualquer ser humano…
15 de novembro de 2005
de pé
Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.
Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca.
2 de novembro de 2005
passarão os dias

foto de Jorge Marçoa em 1000 imagens
E passarão os dias e a voz quieta. O sono será talvez mais profundo, e a memória não quererá guardar o resquício dos sonhos desbaratinados. Virão outros dias, e de braços mais vigorosos, com a voz limpa e cristalina a debitar os mesmos delírios que me ouvias ontem divagar prostrada na tua paciência inclinada para a efemeridade.
Como se dissesses Cala-te!, e o meu ar amedrontado te desse a força que precisas para impor a tua presença neste meu mundo que te ignora constantemente.
Passarão os dias e verás que o que fizeres será em vão. Este é apenas um estado de crisálida que inventei, uma série de nuvens negras que deixo abater-se sobre o meu corpo, e que por sua vez procura o abrigo do teu – tão calmo, tão tenro, materno até.
Quando acordar não será necessário que me faças calar, a minha voz tomará as asas a que um dia lhe tiraste o vigor do voo, e nessa altura, estarei pois de voz limpa e cristalina para calar definitivamente, dentro de ti, os fantasmas e as sombras com que me sacodes diariamente.
24 de outubro de 2005
presente

Hassan Farahani
- Nas mãos que as tens para nada?
- Fosse esse o caso, não to trazia.
- Fossem mãos.
- Fosse nada.
- Diz lá então, o que é?
- Já não sei.
- Amuaste.
- Trazia-te o que esperavas.
- E já não espero?
- Não.
- Porquê?
- Tens o coração para nada.
Saí para a rua de cigarro aceso nos lábios. Chuva, automóveis, pessoas. Penso. Abstraído, não dei conta que o cigarro se apagara. Cuspi-o. Trazia enfim os lábios para nada.
Vida amarga, se lhe perdemos o sentido: temos o nada para coisa alguma.