15 de novembro de 2005

de pé

Aguenta-te como as árvores. Dizem que morrem de pé, escancarando a boca dos ramos num esgar de perene agonia. E sem mudar de figura secam até ao esqueleto, depois de levadas a enterrar no húmus do tempo. Se as esquecem, serão ingratos. Por isso deves aguentar-te firme, assim como uma árvore. Ignorando intempéries, catástrofes de maior calibre. Cada dedo teu o ramo que deixará, ano após ano, de ver nascer as folhas dos teus gestos. Secarás até ao esqueleto, e se o tempo também te recolherá, terás ainda o perfume da terra que te plantará na língua toda a eternidade.

Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.

Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca.

2 de novembro de 2005

passarão os dias


foto de Jorge Marçoa em 1000 imagens


E passarão os dias e a voz quieta. O sono será talvez mais profundo, e a memória não quererá guardar o resquício dos sonhos desbaratinados. Virão outros dias, e de braços mais vigorosos, com a voz limpa e cristalina a debitar os mesmos delírios que me ouvias ontem divagar prostrada na tua paciência inclinada para a efemeridade.

Como se dissesses Cala-te!, e o meu ar amedrontado te desse a força que precisas para impor a tua presença neste meu mundo que te ignora constantemente.

Passarão os dias e verás que o que fizeres será em vão. Este é apenas um estado de crisálida que inventei, uma série de nuvens negras que deixo abater-se sobre o meu corpo, e que por sua vez procura o abrigo do teu – tão calmo, tão tenro, materno até.

Quando acordar não será necessário que me faças calar, a minha voz tomará as asas a que um dia lhe tiraste o vigor do voo, e nessa altura, estarei pois de voz limpa e cristalina para calar definitivamente, dentro de ti, os fantasmas e as sombras com que me sacodes diariamente.

24 de outubro de 2005

presente


Hassan Farahani


- Sabes o que te trago?
- Nas mãos que as tens para nada?
- Fosse esse o caso, não to trazia.
- Fossem mãos.
- Fosse nada.
- Diz lá então, o que é?
- Já não sei.
- Amuaste.
- Trazia-te o que esperavas.
- E já não espero?
- Não.
- Porquê?
- Tens o coração para nada.

Saí para a rua de cigarro aceso nos lábios. Chuva, automóveis, pessoas. Penso. Abstraído, não dei conta que o cigarro se apagara. Cuspi-o. Trazia enfim os lábios para nada.

Vida amarga, se lhe perdemos o sentido: temos o nada para coisa alguma.

19 de outubro de 2005

pudor




Fui buscar aos teus lábios a chuva que se firmava, numa consciência pudica, na ombreira do teu sorriso. Eu vi como as folhas do Outono se portavam, e quis também agarrá-las para te oferecer em ramalhete os encantos da nova estação. Subia morna a temperatura entre as gotas que caíam sobre a tua face, aconchegando-se pudicamente, como disse, no regaço do teu sorriso. A água traz consigo uma pureza incontestável, e por isso talvez seja elemento constante do beijo. E então, confuso e enternecido, não soube distinguir a água que escorria do teu olhar. Podia ser tudo: afinal, algures dito num poema que me dediquei, o mundo precipita-se da condensação dessa nuvem gigante que são os sentimentos.

O beijo era uma estratégia benigna para afectar as nossas vidas desde aí. E quando colhi dos teus lábios a chuva que se firmava, num pudor consciente, sobre a carne do teu sorriso, percebi que, mesmo que num toque de pedra, a sede tange os dedos e por isso toda a inteireza das minhas mãos inundaram-te o corpo, em vão preocupado com a frieza da água caída.

16 de outubro de 2005

é tempo de haver tempo para o tempo

O tempo

(não apaga os teus episódios da história, esconde-os manhoso, esquece-os indefinidamente. E na sua maquinal brandura de relógio, o tempo ergue do nada muros e fecha portas - não se abrem quaisquer janelas -, e impõe a sua lei lavrada com dentes cerrados e o sobrolho carregado. É o dono do mundo, rei universal, pai de luz e som, guardião divino)

será o ócio de deus?

12 de outubro de 2005

vocação


fotografia de Hugo Félix em 1000 imagens


Ouves, sentes? É a chuva, que veio agradecer-te o beijo. Cada gota de água que se esmaga na terra tem o som dos lábios que se esmagam no silêncio. Havia tanto para dizer sobre a chuva, mas apenas beijos é o que me sopra aos ouvidos da bátega caindo. Estava um céu plúmbeo como quando morremos aos bocadinhos na tristeza. Um céu de nuvens prontas a explodir, a fazer barulho, contestando

brruuummmm

zangadas por não lerem um sorriso no teu rosto. Pensam as nuvens que não valem a pena os prantos cá na terra quando elas choram por todos. Patetice… como se as nuvens tivessem a vocação de deus.

Mas então sorriste e não se ouviu

brruuummmm

antes

- chlop, splash, xuack

como um beijo, de lábios que se esmagam serenamente e depois com toda a força da água e da paixão, como as gotas que se esmagam sobre a terra.

Sentes? Ouves? São como os meus dedos, enfim, que te percorrem agora o rosto enxugando não o sal das lágrimas que retiveste, mas o alívio de um céu negro na nascente do inverno. Afinal, penso que as nuvens terão alguma razão, com ou sem a vocação de deus…

8 de outubro de 2005

fungos

Na parede nascem os fungos com a súbita progressão da música abalando a sapiente leveza do cotão varrido no soalho e o farelo da cal que desce do tecto. Veio uma nesga de sol acender o brilho das unhas que repousam a manhã abreviada. Ergues-te num pulo de ave marítima, e tocas-me com o bico da tua boca desfeita na cinza do primeiro cigarro.

Na parede crescem os fungos e já te custa respirar o sal que a brisa pulveriza sobre o corpo encontrado na janela.

29 de setembro de 2005

verdade


autor desconhcido


Se pudesses estar agora aqui comigo, esquecendo as consequências, devolveria o espaço e o tempo à abreviatura das gotas da chuva e da respiração suave da tarde cinzenta. Queria apenas tocar-te, maculado pelas improbabilidades e impossibilidades que a vida me impõe. Correria esse risco para ter um afecto teu. Velando as tuas mãos como único tesouro do mundo.

Perceberia a cor dos teus lábios sangrando desejos proibidos. Esta coisa do outono rompe-me o espírito, desarma-me aflito e menino, como se órfão de ternura. Imagino a tua voz quebrada na terra, de musgo e folhas cadentes que afugentam os resquícios do verão. Uma tristeza bela, quase divina.

E procuraria pelo teu hálito frutado, de ameixa seca ou uvas novas. Engoliria a maciez da tua língua, saciando-me na tua saliva, seiva última do milho envelhecido, esperando mãos virgens para a desfolhada.

- Diz-me que me amas.
- Não sei dizer-te isso.
- Porquê?
- Tenho medo.

As lágrimas contra a janela, a madeira humedecendo.

- Dá-me as tuas mãos.
- Perdoa-me se te magoo.
- As tuas mãos não me magoam.

Não sei exactamente o que isto quer dizer. Não quero dividir-me, não quero partir nem ficar. Ficam-me embargadas as palavras num sufoco de ternura, os pátios espelham pocinhas onde o olhar se estende no mesmo sonho, eu para aqui parvo a dizer-te coisas como estas, sem conseguir manter a voz, sem saber afugentar os soluços. E tudo o que digo, porém, tem tanto de verdade que pesa de tal maneira que parece tudo ferver derramando irreversivelmente sentimentos que eu não sei dizer, catalogar, explicar.

- Diz-me que me amas.
- Tenho medo!
- Não temas, abre-me a porta.
- Qual porta?
- Aqui.

E os dedos, e a língua, e o corpo dentro. O toque, um afecto, o beijo aproximando tempestivos arrependimentos, afugentando em debanda chilreios de pardais que vieram molhados à procura do mais escasso alimento.

Se pudesses estar agora aqui comigo, esta canção talvez fizesse sentido para ambos, sem que isso signifique realmente alguma coisa. A cadência a estontear-nos, a perdemos a cabeça, bulharmos, não quero, não quero, não quero, condenados pelos beijos sôfregos, pelos movimentos bruscos da roupa, o frenesim histérico dos corpos pecando. E a canção avançando, repetindo a fórmula, magoando-nos ambos com a verdade. A voz trocando o nosso silêncio e chorando o que não entendemos e não queremos acreditar.

Não te queria longe, a sério que não. Diz-me que me amas.

28 de setembro de 2005

omega... alfa

Prefiro começar pelo ómega, e ir derretendo a história à velocidade estóica da luz. Circundar a existência, ir buscar o último ponto ao princípio de tudo, regredir para me encontrar, dar uma cambalhota cósmica e saber do útero onde deus ouviu o pulsar do primeiro coração. No cabo do ponto alfa avistar-se-à a finisterra, e todo o mar entretanto – amniótico para a gestação de deus – terá a fértil verdade de tudo nas feições do simétrico anjo que conclui o bem e o mal.

27 de setembro de 2005

ciclo


A Despedida, por Lucemar de Souza


Nunca assumi a despedida, nas minhas partidas. Nunca esbocei o adeus, tão pouco o até breve. Na verdade, nunca gostei de partir e que partissem de mim. Estico as veias até se diluírem na distância. Por isso sofro cada saudade: é um ciclo de paixão que se inicia, em que os lugares doem, as pessoas doem, o medo de esquecer rói na voz tremida ao chamar o nome, os nomes, que partem de mim. Escrevo na ansiedade de abolir o significado de um embarque e a distância de uma carta. Partir para mim será um eterno retorno, e por isso um ciclo aberto. Nem perante a morte sei dizer adeus. A memória é a verdadeira viagem, o porto de embarque e desembarque para as despedidas que a vida não dispensa. E assim vou encurtando a lonjura do que parte e regressa, cá dentro de mim.

23 de setembro de 2005

corpos frios

Sabias que a morte transpira madrugadas como quando tens pesadelos? O suor frio das convulsões. A dolorosa contenção dos espasmos.

Tudo tem o toque da pedra depois de parida e abandonada na sua agreste natureza. Tudo primeiro é um pó, que vai ardendo aos poucos enquanto os relógios do cosmos compõem o seu mecanismo. Vem depois fervilhando como o sangue, como a paixão que te coloca uma cruz nos ombros. Ao nascer, vindo do mito da ressurreição, solidifica com os beijos do vento e as crinas das chuvadas. Nasce para morrer, é cristo fidedigno. E duro que só a água mole.

De modo que… Se o que pretendes é conhecer-me o hábito e trocar prazeres menos mundanos, prefiro que me não toques, pele com pele, carne com carne. Lê-me, antes. Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios.

14 de setembro de 2005

estender a mão

Estendi a mão apenas para saber o que poderia acontecer. Não esperava grandes manifestações afectuosas e alegrias inusitadas. Era apenas um estender da mão, como outra coisa qualquer que se estendesse ao ar, e perante os olhares.

Um ambiente apreensivo. E a resvalar para a incompreensão. O que queres de mão estendida, perguntaram-me, na margem entre o medo e a repulsa.

Nada, foi a minha resposta.

Da fúria, as pedras então atiradas fizeram com que recolhesse novamente a mão à algibeira, e a noite deslocou-se dentro de mim.

6 de setembro de 2005

peste

A questão não era ter que levantar-se. Era, isso sim, levantar-se para o mundo, de olhos cegos pela fadiga e lábios ressequidos pela febre.

Para quê então ter que despedir-se do leito que lhe embalava a raiva do sangue?

Mas tanto insistiram que se levantou. Levantou-se e caiu, porque o mundo segregava prurido pelas entranhas e fedia como animal morto sob o sol.

Parece-lhe que, afinal, o inferno sempre morou aqui ao lado...