8 de outubro de 2005

fungos

Na parede nascem os fungos com a súbita progressão da música abalando a sapiente leveza do cotão varrido no soalho e o farelo da cal que desce do tecto. Veio uma nesga de sol acender o brilho das unhas que repousam a manhã abreviada. Ergues-te num pulo de ave marítima, e tocas-me com o bico da tua boca desfeita na cinza do primeiro cigarro.

Na parede crescem os fungos e já te custa respirar o sal que a brisa pulveriza sobre o corpo encontrado na janela.

29 de setembro de 2005

verdade


autor desconhcido


Se pudesses estar agora aqui comigo, esquecendo as consequências, devolveria o espaço e o tempo à abreviatura das gotas da chuva e da respiração suave da tarde cinzenta. Queria apenas tocar-te, maculado pelas improbabilidades e impossibilidades que a vida me impõe. Correria esse risco para ter um afecto teu. Velando as tuas mãos como único tesouro do mundo.

Perceberia a cor dos teus lábios sangrando desejos proibidos. Esta coisa do outono rompe-me o espírito, desarma-me aflito e menino, como se órfão de ternura. Imagino a tua voz quebrada na terra, de musgo e folhas cadentes que afugentam os resquícios do verão. Uma tristeza bela, quase divina.

E procuraria pelo teu hálito frutado, de ameixa seca ou uvas novas. Engoliria a maciez da tua língua, saciando-me na tua saliva, seiva última do milho envelhecido, esperando mãos virgens para a desfolhada.

- Diz-me que me amas.
- Não sei dizer-te isso.
- Porquê?
- Tenho medo.

As lágrimas contra a janela, a madeira humedecendo.

- Dá-me as tuas mãos.
- Perdoa-me se te magoo.
- As tuas mãos não me magoam.

Não sei exactamente o que isto quer dizer. Não quero dividir-me, não quero partir nem ficar. Ficam-me embargadas as palavras num sufoco de ternura, os pátios espelham pocinhas onde o olhar se estende no mesmo sonho, eu para aqui parvo a dizer-te coisas como estas, sem conseguir manter a voz, sem saber afugentar os soluços. E tudo o que digo, porém, tem tanto de verdade que pesa de tal maneira que parece tudo ferver derramando irreversivelmente sentimentos que eu não sei dizer, catalogar, explicar.

- Diz-me que me amas.
- Tenho medo!
- Não temas, abre-me a porta.
- Qual porta?
- Aqui.

E os dedos, e a língua, e o corpo dentro. O toque, um afecto, o beijo aproximando tempestivos arrependimentos, afugentando em debanda chilreios de pardais que vieram molhados à procura do mais escasso alimento.

Se pudesses estar agora aqui comigo, esta canção talvez fizesse sentido para ambos, sem que isso signifique realmente alguma coisa. A cadência a estontear-nos, a perdemos a cabeça, bulharmos, não quero, não quero, não quero, condenados pelos beijos sôfregos, pelos movimentos bruscos da roupa, o frenesim histérico dos corpos pecando. E a canção avançando, repetindo a fórmula, magoando-nos ambos com a verdade. A voz trocando o nosso silêncio e chorando o que não entendemos e não queremos acreditar.

Não te queria longe, a sério que não. Diz-me que me amas.

28 de setembro de 2005

omega... alfa

Prefiro começar pelo ómega, e ir derretendo a história à velocidade estóica da luz. Circundar a existência, ir buscar o último ponto ao princípio de tudo, regredir para me encontrar, dar uma cambalhota cósmica e saber do útero onde deus ouviu o pulsar do primeiro coração. No cabo do ponto alfa avistar-se-à a finisterra, e todo o mar entretanto – amniótico para a gestação de deus – terá a fértil verdade de tudo nas feições do simétrico anjo que conclui o bem e o mal.

27 de setembro de 2005

ciclo


A Despedida, por Lucemar de Souza


Nunca assumi a despedida, nas minhas partidas. Nunca esbocei o adeus, tão pouco o até breve. Na verdade, nunca gostei de partir e que partissem de mim. Estico as veias até se diluírem na distância. Por isso sofro cada saudade: é um ciclo de paixão que se inicia, em que os lugares doem, as pessoas doem, o medo de esquecer rói na voz tremida ao chamar o nome, os nomes, que partem de mim. Escrevo na ansiedade de abolir o significado de um embarque e a distância de uma carta. Partir para mim será um eterno retorno, e por isso um ciclo aberto. Nem perante a morte sei dizer adeus. A memória é a verdadeira viagem, o porto de embarque e desembarque para as despedidas que a vida não dispensa. E assim vou encurtando a lonjura do que parte e regressa, cá dentro de mim.

23 de setembro de 2005

corpos frios

Sabias que a morte transpira madrugadas como quando tens pesadelos? O suor frio das convulsões. A dolorosa contenção dos espasmos.

Tudo tem o toque da pedra depois de parida e abandonada na sua agreste natureza. Tudo primeiro é um pó, que vai ardendo aos poucos enquanto os relógios do cosmos compõem o seu mecanismo. Vem depois fervilhando como o sangue, como a paixão que te coloca uma cruz nos ombros. Ao nascer, vindo do mito da ressurreição, solidifica com os beijos do vento e as crinas das chuvadas. Nasce para morrer, é cristo fidedigno. E duro que só a água mole.

De modo que… Se o que pretendes é conhecer-me o hábito e trocar prazeres menos mundanos, prefiro que me não toques, pele com pele, carne com carne. Lê-me, antes. Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios.

14 de setembro de 2005

estender a mão

Estendi a mão apenas para saber o que poderia acontecer. Não esperava grandes manifestações afectuosas e alegrias inusitadas. Era apenas um estender da mão, como outra coisa qualquer que se estendesse ao ar, e perante os olhares.

Um ambiente apreensivo. E a resvalar para a incompreensão. O que queres de mão estendida, perguntaram-me, na margem entre o medo e a repulsa.

Nada, foi a minha resposta.

Da fúria, as pedras então atiradas fizeram com que recolhesse novamente a mão à algibeira, e a noite deslocou-se dentro de mim.

6 de setembro de 2005

peste

A questão não era ter que levantar-se. Era, isso sim, levantar-se para o mundo, de olhos cegos pela fadiga e lábios ressequidos pela febre.

Para quê então ter que despedir-se do leito que lhe embalava a raiva do sangue?

Mas tanto insistiram que se levantou. Levantou-se e caiu, porque o mundo segregava prurido pelas entranhas e fedia como animal morto sob o sol.

Parece-lhe que, afinal, o inferno sempre morou aqui ao lado...

25 de agosto de 2005

o inferno nas têmporas



Thank you, O Lord
For the white blind light
A city rises from the sea
I had a splitting headache
from which the future is made.


James Douglas Morrison


Tenho tanto por ler e o país arde num crepúsculo seguido de romas repetidas. Dói-me a cabeça para entender o que me dizem os livros e os meus olhos embaciam com tanto fumo. Erguem-se os esqueletos das árvores, das casas, e lateja-me nas têmporas a aflição de quem sente sem o apelo da morte o inferno a dominar-lhes para todo o sempre a memória em vida. A televisão vomita-se agoniada entre o futebol e o mundo explodindo aqui e ali. A velha senhora lembra o tom profético de quando ouvia dizer em nova que um dia se veriam coisas que nunca se imaginaria chegar a ver-se, e quando olho para trás sinto sobre mim o indicador apontado no ar, severamente, do velho das botas caído da cadeira. Tudo isto é um pesadelo, penso, só tenho sono. A tarde já morreu para os lados do rio onde as crianças vão passear os patins, os triciclos e as bicicletas. Há um jardim perto, colorido de flores e relva proibida de pisar. Se o fogo consome o paraíso dos que guardam entre as mãos a fé e as palpitações do medo e do desespero, aqui o rio é uma ironia onde os sorrisos parecem surreais, como se não estivessem todos no mesmo país, no mesmo planeta, como se a realidade fosse a milhares de anos-luz. Só assim se compreenderá tantos sorrisos à beira água de um rio que não arde como o mar de chamas sobre as serras, sobre as aldeias, na minha dor de cabeça…Talvez seja um cobarde, por virar agora as costas e querer dormir, querer que o latejar das têmporas simplesmente desapareça, sem ouvir e ver a mais nada. É ambição minha juntar um sorriso meu aos restantes. Sou um reles humano entre os demais.

17 de agosto de 2005

mostra-me




mostra-me
a arte da tua pose
como pássaro que poisa delicadamente
nos ramos das árvores

para ver-te saltitando entre os meus dedos
e vires beber a sede no meu rosto
num gesto de impoluta respiração
criando asas no céu estéril do meu quarto

isto enquanto não entardece
prolongando-me a manhã da vida
com a suavidade de pluma dos teus ombros
e o gorjeio do teu carinho nos meus ouvidos

mostra-me que ser pássaro
é posar o teu sorriso sem necessidade de espelhos
e que o amor dorido e sofrido
é apenas querer e poder deixar-te voar

livremente.

3 de agosto de 2005

quantas janelas?



quantas janelas há para uma rua?
aqui sossegam os peitos roliços dos pombos
e nascem alvoradas no parapeito
sempre que inspiro e expiro as madrugadas lentas

a fruta desmancha-se em sangue nos meus dedos
e agora também os pardais sentem
que aqui, nesta janela com vista para tudo,

o mundo pode acontecer
como se eu fosse Colombo e as minhas naus
a saliva espreitando, ancorada, em cada esquina.

diz-me: quantas janelas pode haver para uma rua?

25 de julho de 2005

a intenção de um fruto




permito que as tuas lágrimas
tingidas de uma felicidade sofrida
sejam estes matinais orvalhos
com que a manhã sacia o sol da sua sede
de luz

permito que me acaricies como
a folha pequenina nascida no tronco nu

isto porque permitido é o amor
na alvorada da primavera


protegido o amor
aquecido nas searas ainda verdes
onde estendes os teus cabelos como brisas que apaziguam
a crueldade dos homens

nada sou sem ti
como um tronco seco da seiva
que desliza nos teus lábios
cintilando

e encontrando na abertura da minha boca
a intenção de ressurreição
a intenção de um fruto
que resistiu a todas as intempéries


não sou da noite
que me escondia na sua concha de sombras e fantasmas
não sou da solidão que avassala como um frio
e cobre o corpo de negras
mutações

sou do novo fruto
que desponta nos teus mamilos
e agora renascido ou ressuscitado

vou beber da cristalina água
que apanhas na palma das tuas mãos
e segredar ao azul dos céus

que te amo, com carícias
de pluma

de uma ave pequena.

20 de julho de 2005

sorrisos de tão verdes anos



a Carlos Paredes


Viajo com a pauta dos sonhos
Encontrados na poesia que, dispersa,
Recorda as mãos
De um dia de mar, de um dia de areia
E brisas
Soprando a escala entre os fios dos meus cabelos.

Anseio a tua arte, traçada em mestria
No soalho dos pensamentos mais nobres
Os dedos que em festa rasgam
Sorrisos de tão verdes anos.

Cavalga o tempo nas rugas
Arreando jamais na memória dos homens;
Realejos antigos e postais amarelecidos
Lembranças do nome que jaz
Onde paraísos feitos de claves, de
Sol,

Para ver nascer os dias
Abertos de luz e som
Redentores;
E amando cada grão de areia poisado no tempo; e,
Depois do amanhã,
Entregando a saudade e as guitarras com
Sorrisos de tão verdes anos.

1 de julho de 2005

sem dúvida um dia bonito



É sem dúvida um dia bonito. Como qualquer verão que se perdeu na memória da infância em que tudo (e tudo era mesmo tudo) parecia mais simples. Ou - melhor que isso - parecia simplesmente simples. Do pequeno quintalzito, onde, aos olhos de uma criança, era um mundo repleto de aventuras, povoado pelos animais, árvores de fruto e recantos de sombra para viagens inter-galácticas ou mais mundanamente ao volante de um bólide antigo que a imaginação comprava sem o desgaste do dinheiro ou a ansiedade de um crédito aprovado. Na paisagem da janela erguia-se, bem nos confins do horizonte, um morro onde nascia uma ponte de ferro carregando carruagens vagarosas. E o rio, mais abaixo, que subia nos sonhos mais abstractos, para delicadamente nos lamber os pés mesmo à porta de casa. O verão que não cheirava aos óleos das praias, mas a terra remexida. O verão que não rebentava nas ondas espumando-se com raiva nos corpos entediados, mas erguido verde, viçoso, no milho que ia amadurecendo as tardes entre o chilrear da passarada.

Não é, era. Era, sem dúvida, um dia bonito.