23 de setembro de 2005

corpos frios

Sabias que a morte transpira madrugadas como quando tens pesadelos? O suor frio das convulsões. A dolorosa contenção dos espasmos.

Tudo tem o toque da pedra depois de parida e abandonada na sua agreste natureza. Tudo primeiro é um pó, que vai ardendo aos poucos enquanto os relógios do cosmos compõem o seu mecanismo. Vem depois fervilhando como o sangue, como a paixão que te coloca uma cruz nos ombros. Ao nascer, vindo do mito da ressurreição, solidifica com os beijos do vento e as crinas das chuvadas. Nasce para morrer, é cristo fidedigno. E duro que só a água mole.

De modo que… Se o que pretendes é conhecer-me o hábito e trocar prazeres menos mundanos, prefiro que me não toques, pele com pele, carne com carne. Lê-me, antes. Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios.

14 de setembro de 2005

estender a mão

Estendi a mão apenas para saber o que poderia acontecer. Não esperava grandes manifestações afectuosas e alegrias inusitadas. Era apenas um estender da mão, como outra coisa qualquer que se estendesse ao ar, e perante os olhares.

Um ambiente apreensivo. E a resvalar para a incompreensão. O que queres de mão estendida, perguntaram-me, na margem entre o medo e a repulsa.

Nada, foi a minha resposta.

Da fúria, as pedras então atiradas fizeram com que recolhesse novamente a mão à algibeira, e a noite deslocou-se dentro de mim.

6 de setembro de 2005

peste

A questão não era ter que levantar-se. Era, isso sim, levantar-se para o mundo, de olhos cegos pela fadiga e lábios ressequidos pela febre.

Para quê então ter que despedir-se do leito que lhe embalava a raiva do sangue?

Mas tanto insistiram que se levantou. Levantou-se e caiu, porque o mundo segregava prurido pelas entranhas e fedia como animal morto sob o sol.

Parece-lhe que, afinal, o inferno sempre morou aqui ao lado...

25 de agosto de 2005

o inferno nas têmporas



Thank you, O Lord
For the white blind light
A city rises from the sea
I had a splitting headache
from which the future is made.


James Douglas Morrison


Tenho tanto por ler e o país arde num crepúsculo seguido de romas repetidas. Dói-me a cabeça para entender o que me dizem os livros e os meus olhos embaciam com tanto fumo. Erguem-se os esqueletos das árvores, das casas, e lateja-me nas têmporas a aflição de quem sente sem o apelo da morte o inferno a dominar-lhes para todo o sempre a memória em vida. A televisão vomita-se agoniada entre o futebol e o mundo explodindo aqui e ali. A velha senhora lembra o tom profético de quando ouvia dizer em nova que um dia se veriam coisas que nunca se imaginaria chegar a ver-se, e quando olho para trás sinto sobre mim o indicador apontado no ar, severamente, do velho das botas caído da cadeira. Tudo isto é um pesadelo, penso, só tenho sono. A tarde já morreu para os lados do rio onde as crianças vão passear os patins, os triciclos e as bicicletas. Há um jardim perto, colorido de flores e relva proibida de pisar. Se o fogo consome o paraíso dos que guardam entre as mãos a fé e as palpitações do medo e do desespero, aqui o rio é uma ironia onde os sorrisos parecem surreais, como se não estivessem todos no mesmo país, no mesmo planeta, como se a realidade fosse a milhares de anos-luz. Só assim se compreenderá tantos sorrisos à beira água de um rio que não arde como o mar de chamas sobre as serras, sobre as aldeias, na minha dor de cabeça…Talvez seja um cobarde, por virar agora as costas e querer dormir, querer que o latejar das têmporas simplesmente desapareça, sem ouvir e ver a mais nada. É ambição minha juntar um sorriso meu aos restantes. Sou um reles humano entre os demais.

17 de agosto de 2005

mostra-me




mostra-me
a arte da tua pose
como pássaro que poisa delicadamente
nos ramos das árvores

para ver-te saltitando entre os meus dedos
e vires beber a sede no meu rosto
num gesto de impoluta respiração
criando asas no céu estéril do meu quarto

isto enquanto não entardece
prolongando-me a manhã da vida
com a suavidade de pluma dos teus ombros
e o gorjeio do teu carinho nos meus ouvidos

mostra-me que ser pássaro
é posar o teu sorriso sem necessidade de espelhos
e que o amor dorido e sofrido
é apenas querer e poder deixar-te voar

livremente.

3 de agosto de 2005

quantas janelas?



quantas janelas há para uma rua?
aqui sossegam os peitos roliços dos pombos
e nascem alvoradas no parapeito
sempre que inspiro e expiro as madrugadas lentas

a fruta desmancha-se em sangue nos meus dedos
e agora também os pardais sentem
que aqui, nesta janela com vista para tudo,

o mundo pode acontecer
como se eu fosse Colombo e as minhas naus
a saliva espreitando, ancorada, em cada esquina.

diz-me: quantas janelas pode haver para uma rua?

25 de julho de 2005

a intenção de um fruto




permito que as tuas lágrimas
tingidas de uma felicidade sofrida
sejam estes matinais orvalhos
com que a manhã sacia o sol da sua sede
de luz

permito que me acaricies como
a folha pequenina nascida no tronco nu

isto porque permitido é o amor
na alvorada da primavera


protegido o amor
aquecido nas searas ainda verdes
onde estendes os teus cabelos como brisas que apaziguam
a crueldade dos homens

nada sou sem ti
como um tronco seco da seiva
que desliza nos teus lábios
cintilando

e encontrando na abertura da minha boca
a intenção de ressurreição
a intenção de um fruto
que resistiu a todas as intempéries


não sou da noite
que me escondia na sua concha de sombras e fantasmas
não sou da solidão que avassala como um frio
e cobre o corpo de negras
mutações

sou do novo fruto
que desponta nos teus mamilos
e agora renascido ou ressuscitado

vou beber da cristalina água
que apanhas na palma das tuas mãos
e segredar ao azul dos céus

que te amo, com carícias
de pluma

de uma ave pequena.

20 de julho de 2005

sorrisos de tão verdes anos



a Carlos Paredes


Viajo com a pauta dos sonhos
Encontrados na poesia que, dispersa,
Recorda as mãos
De um dia de mar, de um dia de areia
E brisas
Soprando a escala entre os fios dos meus cabelos.

Anseio a tua arte, traçada em mestria
No soalho dos pensamentos mais nobres
Os dedos que em festa rasgam
Sorrisos de tão verdes anos.

Cavalga o tempo nas rugas
Arreando jamais na memória dos homens;
Realejos antigos e postais amarelecidos
Lembranças do nome que jaz
Onde paraísos feitos de claves, de
Sol,

Para ver nascer os dias
Abertos de luz e som
Redentores;
E amando cada grão de areia poisado no tempo; e,
Depois do amanhã,
Entregando a saudade e as guitarras com
Sorrisos de tão verdes anos.

1 de julho de 2005

sem dúvida um dia bonito



É sem dúvida um dia bonito. Como qualquer verão que se perdeu na memória da infância em que tudo (e tudo era mesmo tudo) parecia mais simples. Ou - melhor que isso - parecia simplesmente simples. Do pequeno quintalzito, onde, aos olhos de uma criança, era um mundo repleto de aventuras, povoado pelos animais, árvores de fruto e recantos de sombra para viagens inter-galácticas ou mais mundanamente ao volante de um bólide antigo que a imaginação comprava sem o desgaste do dinheiro ou a ansiedade de um crédito aprovado. Na paisagem da janela erguia-se, bem nos confins do horizonte, um morro onde nascia uma ponte de ferro carregando carruagens vagarosas. E o rio, mais abaixo, que subia nos sonhos mais abstractos, para delicadamente nos lamber os pés mesmo à porta de casa. O verão que não cheirava aos óleos das praias, mas a terra remexida. O verão que não rebentava nas ondas espumando-se com raiva nos corpos entediados, mas erguido verde, viçoso, no milho que ia amadurecendo as tardes entre o chilrear da passarada.

Não é, era. Era, sem dúvida, um dia bonito.

30 de junho de 2005

cristo falando à humanidade

Apanha-me as migalhas, por favor. São pedaços que deixei de mim nas tuas mãos, julgando-te com uma dessas fomes danadas, de queixo aguçado e olhos saltando das órbitas. Não tens dedos delicados e humildes para numa paciência de puzzle confortares o estômago com tão miseráveis pedaços do pão que te dei. Tinha como te alimentar e te fortalecer os músculos para uma luta mais justa, agora que é tão intensa e não podes fugir dela. Tinha todas as fontes onde pudesses saciar as tuas sedes. Preferiste espalhar-me ao largo, voltar costas, com um aceno breve por cima dos ombros arrogantes. Agora não sei. Nunca soube se esse aceno era de repúdio ou se querias ainda que te pusesse a mão por baixo, como se faz aos passarinhos que aprendem os primeiros passos do voo. Nada mais a dizer. Recolhe-me por favor as migalhas, e devolve-me o corpo, traçado a dores que não quiseste compreender.

29 de junho de 2005

céptico

Não sei suportar a normalidade e a simpática hipocrisia deste mundo. Se falasse em suicídio, viriam todos correndo com as mais belas palavras como que tiradas a varinha de condão de uma cartola. Sei que não estou só, mas sei que ainda estou longe.

Resta saber se realmente vale mesmo a pena.

26 de junho de 2005

do colo da memória


por Manuel Antão em 1000 imagens

Cada momento de dor é um prenúncio de morte, assim como o lento gotejar de uma nuvem anuncia a monção. As pombas partiram daquela praça, isolando-me numa solidão de ruídos, em que cada aresta da calçada segue o rasto do meu passado. Todas as expectativas logradas, ao virar da esquina do tempo. Os sítios envelhecem para ceder lugar a novas gruas. Entardece, e no meu rosto vai nascendo uma sombra presa a uma fotografia que a memória, despertada por lágrimas, capta e imprime do espelho.

E num pensamento cai a noite. Todos os sons se calam respeitando o silêncio pardo e húmido da solidão. Tenho as mãos em sobressalto. Lentamente afago o meu corpo para a terra que equilibra os sentidos desentendidos. E a tua mão é um pássaro noctívago, que voa lacrimejando orvalhos sobre o colo da minha memória.

23 de junho de 2005

interioridade

O relógio mastiga as horas com a mesma paciência vagarosa com que as gruas se movem no horizonte. As pessoas acontecem, são fenómenos na paisagem, munidas de um silêncio que tende a magoar os meus ouvidos. Cá dentro as máquinas vibram, e sem as pessoas que aqui habitam as oito horas laborais, tudo parece sossegado. O sossego daqui é uma realidade que se sobrepõem ao fenómeno do exterior. Enquanto nada acontece ou enquanto o tudo não se manifesta, este instante individual, egoísta, solitário, é a verdade. Sou eu e o resto paisagem. Só quando o primeiro telefone toca o meu umbigo diminui, e nos meus gestos do quotidiano deixo de ser quem sou, para ser parte de um todo, em que somos entre muitos.