25 de julho de 2005

a intenção de um fruto




permito que as tuas lágrimas
tingidas de uma felicidade sofrida
sejam estes matinais orvalhos
com que a manhã sacia o sol da sua sede
de luz

permito que me acaricies como
a folha pequenina nascida no tronco nu

isto porque permitido é o amor
na alvorada da primavera


protegido o amor
aquecido nas searas ainda verdes
onde estendes os teus cabelos como brisas que apaziguam
a crueldade dos homens

nada sou sem ti
como um tronco seco da seiva
que desliza nos teus lábios
cintilando

e encontrando na abertura da minha boca
a intenção de ressurreição
a intenção de um fruto
que resistiu a todas as intempéries


não sou da noite
que me escondia na sua concha de sombras e fantasmas
não sou da solidão que avassala como um frio
e cobre o corpo de negras
mutações

sou do novo fruto
que desponta nos teus mamilos
e agora renascido ou ressuscitado

vou beber da cristalina água
que apanhas na palma das tuas mãos
e segredar ao azul dos céus

que te amo, com carícias
de pluma

de uma ave pequena.

20 de julho de 2005

sorrisos de tão verdes anos



a Carlos Paredes


Viajo com a pauta dos sonhos
Encontrados na poesia que, dispersa,
Recorda as mãos
De um dia de mar, de um dia de areia
E brisas
Soprando a escala entre os fios dos meus cabelos.

Anseio a tua arte, traçada em mestria
No soalho dos pensamentos mais nobres
Os dedos que em festa rasgam
Sorrisos de tão verdes anos.

Cavalga o tempo nas rugas
Arreando jamais na memória dos homens;
Realejos antigos e postais amarelecidos
Lembranças do nome que jaz
Onde paraísos feitos de claves, de
Sol,

Para ver nascer os dias
Abertos de luz e som
Redentores;
E amando cada grão de areia poisado no tempo; e,
Depois do amanhã,
Entregando a saudade e as guitarras com
Sorrisos de tão verdes anos.

1 de julho de 2005

sem dúvida um dia bonito



É sem dúvida um dia bonito. Como qualquer verão que se perdeu na memória da infância em que tudo (e tudo era mesmo tudo) parecia mais simples. Ou - melhor que isso - parecia simplesmente simples. Do pequeno quintalzito, onde, aos olhos de uma criança, era um mundo repleto de aventuras, povoado pelos animais, árvores de fruto e recantos de sombra para viagens inter-galácticas ou mais mundanamente ao volante de um bólide antigo que a imaginação comprava sem o desgaste do dinheiro ou a ansiedade de um crédito aprovado. Na paisagem da janela erguia-se, bem nos confins do horizonte, um morro onde nascia uma ponte de ferro carregando carruagens vagarosas. E o rio, mais abaixo, que subia nos sonhos mais abstractos, para delicadamente nos lamber os pés mesmo à porta de casa. O verão que não cheirava aos óleos das praias, mas a terra remexida. O verão que não rebentava nas ondas espumando-se com raiva nos corpos entediados, mas erguido verde, viçoso, no milho que ia amadurecendo as tardes entre o chilrear da passarada.

Não é, era. Era, sem dúvida, um dia bonito.

30 de junho de 2005

cristo falando à humanidade

Apanha-me as migalhas, por favor. São pedaços que deixei de mim nas tuas mãos, julgando-te com uma dessas fomes danadas, de queixo aguçado e olhos saltando das órbitas. Não tens dedos delicados e humildes para numa paciência de puzzle confortares o estômago com tão miseráveis pedaços do pão que te dei. Tinha como te alimentar e te fortalecer os músculos para uma luta mais justa, agora que é tão intensa e não podes fugir dela. Tinha todas as fontes onde pudesses saciar as tuas sedes. Preferiste espalhar-me ao largo, voltar costas, com um aceno breve por cima dos ombros arrogantes. Agora não sei. Nunca soube se esse aceno era de repúdio ou se querias ainda que te pusesse a mão por baixo, como se faz aos passarinhos que aprendem os primeiros passos do voo. Nada mais a dizer. Recolhe-me por favor as migalhas, e devolve-me o corpo, traçado a dores que não quiseste compreender.

29 de junho de 2005

céptico

Não sei suportar a normalidade e a simpática hipocrisia deste mundo. Se falasse em suicídio, viriam todos correndo com as mais belas palavras como que tiradas a varinha de condão de uma cartola. Sei que não estou só, mas sei que ainda estou longe.

Resta saber se realmente vale mesmo a pena.

26 de junho de 2005

do colo da memória


por Manuel Antão em 1000 imagens

Cada momento de dor é um prenúncio de morte, assim como o lento gotejar de uma nuvem anuncia a monção. As pombas partiram daquela praça, isolando-me numa solidão de ruídos, em que cada aresta da calçada segue o rasto do meu passado. Todas as expectativas logradas, ao virar da esquina do tempo. Os sítios envelhecem para ceder lugar a novas gruas. Entardece, e no meu rosto vai nascendo uma sombra presa a uma fotografia que a memória, despertada por lágrimas, capta e imprime do espelho.

E num pensamento cai a noite. Todos os sons se calam respeitando o silêncio pardo e húmido da solidão. Tenho as mãos em sobressalto. Lentamente afago o meu corpo para a terra que equilibra os sentidos desentendidos. E a tua mão é um pássaro noctívago, que voa lacrimejando orvalhos sobre o colo da minha memória.

23 de junho de 2005

interioridade

O relógio mastiga as horas com a mesma paciência vagarosa com que as gruas se movem no horizonte. As pessoas acontecem, são fenómenos na paisagem, munidas de um silêncio que tende a magoar os meus ouvidos. Cá dentro as máquinas vibram, e sem as pessoas que aqui habitam as oito horas laborais, tudo parece sossegado. O sossego daqui é uma realidade que se sobrepõem ao fenómeno do exterior. Enquanto nada acontece ou enquanto o tudo não se manifesta, este instante individual, egoísta, solitário, é a verdade. Sou eu e o resto paisagem. Só quando o primeiro telefone toca o meu umbigo diminui, e nos meus gestos do quotidiano deixo de ser quem sou, para ser parte de um todo, em que somos entre muitos.

21 de junho de 2005

substituível tu, de doces sucos


foto de Bruno Souto em 1000 imagens


Abri a melancia - fruto forte, grande, pujante, sensual, fresco - e havia um regato de água correndo sobre os meus lábios. A princípio ainda julguei que um beijo teu, que a tua língua viesse visitar-me nestas horas de calor, mas não... Era uma melancia, carregada com o sorriso das tuas mãos. Um fruto - forte, grande, pujante, sensual, fresco - que te fez a vez, amor.

18 de junho de 2005

sem desvirtuar

Se eu falhar promete-me que me corriges, me chamas à atenção. Não, não ignores, não menosprezes, não sejas indiferente. Promete-me essa fidelidade sem sombras, sem tortuosos desvios, sem olhares desconfortáveis. Se eu falhar fica lá para me veres a reaprender, para me veres a erguer da vergastada, para me veres a afastar o lodo do corpo. Não vires as costas, muito menos chores porque as lágrimas são um céu plúmbeo que se inteira da minha cabeça obrigando-me a comer o alcatrão do chão. Promete-me que me seguras no braço, e alongas um sorriso que me incite: Vai! Se eu falhar não tragas os jornais nem a televisão, sopra-me o teu hálito à falta de uma brisa que me acalente. Não cedas, por favor, não cedas comigo à corrupção das palavras que despertam cedo demais para o desespero; por favor, se eu falhar promete-me que estarão lá os teus olhos para que haja luz, e alguma fé. Não me faças acreditar que nasci e permaneço na solidão, até que a morte me acompanhe. Se eu falhar, chama-me pelo nome.

método

Eu escrevia a dor peculiar de um corpo que não era o meu e disseram-me que se surpreendiam como sabia eu discorrer sobre a dor que nunca havia sentido, dentro de um corpo que me era estranho. Respondi que os olhos espelham qualquer coisa, uns dizem que é a alma, eu digo que é qualquer coisa pouco definido, mas é por aí que se lêem as raízes de tudo o que somos e por isso podia dizer sem hesitações o quê. Armadilharam-se com a pergunta rasteira: e os cegos, podes escrever a escuridão dos cegos? Se o não soubesse coleccionaria pedras. Pedras da rua, apanhadas ao acaso.

13 de junho de 2005

que farei com as palavras quebradas?



a Eugénio de Andrade


que farei com as palavras quebradas
com a maturidade do fruto e a sede quebrantada
na trovoada do dia

que farei com estas pétalas que vieram para te resgatar os olhos
e a esvoaçar as gaivotas da beira-mar
na espera garantida de um lápis teu

que farei, meu caro Eugénio, com a partida dos ossos
se na hora em que partes
tudo será como a água primordial

e todos os poemas
(sem a melodia)
novamente por escrever?

a luta continua



a Álvaro Cunhal


as tuas mãos enfatizam uma fome de justiça
enfrentando toda a madrugada humana
refeita dos trapos e da miséria dos povos

nunca foi fraca esta tua voz
voz que marchou, voz que entoou
o erguer dos dias

eras uma seara que o vento nunca derrubou
que o joio jamais sufocaria

e com a graciosidade dos teus dedos
que apontaram duramente, impiedosos, a tirania

sabias dar corpo a homens e mulheres
pois era na humanidade que te nascia

toda a arte, com engenho de artesão

6 de junho de 2005

ruínas




quando for a morte
abre a terra devagar com golpes de chuva
não te demores nas sombras dos velhos palácios
a escrever no verdete das paredes as folhas adocicadas
ou os frutos vermelhos que amadurecem o teu regaço.
quando for a morte
não digas medo nem espantes a noite
leva o cadáver banhado de pó à cova
e cospe - cospe de nojo - a lentidão das horas
caídas como gotas de sol.
quando for a morte
espreita a escuridão mantida nas frinchas das portas
no fundo das ruínas dos móveis
na dobra eterna das mortalhas.

e quando a terra enfim batida e chorada,
esquece-a
com a permanente latência das palavras.