Apanha-me as migalhas, por favor. São pedaços que deixei de mim nas tuas mãos, julgando-te com uma dessas fomes danadas, de queixo aguçado e olhos saltando das órbitas. Não tens dedos delicados e humildes para numa paciência de puzzle confortares o estômago com tão miseráveis pedaços do pão que te dei. Tinha como te alimentar e te fortalecer os músculos para uma luta mais justa, agora que é tão intensa e não podes fugir dela. Tinha todas as fontes onde pudesses saciar as tuas sedes. Preferiste espalhar-me ao largo, voltar costas, com um aceno breve por cima dos ombros arrogantes. Agora não sei. Nunca soube se esse aceno era de repúdio ou se querias ainda que te pusesse a mão por baixo, como se faz aos passarinhos que aprendem os primeiros passos do voo. Nada mais a dizer. Recolhe-me por favor as migalhas, e devolve-me o corpo, traçado a dores que não quiseste compreender.
30 de junho de 2005
29 de junho de 2005
céptico
Não sei suportar a normalidade e a simpática hipocrisia deste mundo. Se falasse em suicídio, viriam todos correndo com as mais belas palavras como que tiradas a varinha de condão de uma cartola. Sei que não estou só, mas sei que ainda estou longe.
Resta saber se realmente vale mesmo a pena.
Resta saber se realmente vale mesmo a pena.
26 de junho de 2005
do colo da memória

por Manuel Antão em 1000 imagens
Cada momento de dor é um prenúncio de morte, assim como o lento gotejar de uma nuvem anuncia a monção. As pombas partiram daquela praça, isolando-me numa solidão de ruídos, em que cada aresta da calçada segue o rasto do meu passado. Todas as expectativas logradas, ao virar da esquina do tempo. Os sítios envelhecem para ceder lugar a novas gruas. Entardece, e no meu rosto vai nascendo uma sombra presa a uma fotografia que a memória, despertada por lágrimas, capta e imprime do espelho.
E num pensamento cai a noite. Todos os sons se calam respeitando o silêncio pardo e húmido da solidão. Tenho as mãos em sobressalto. Lentamente afago o meu corpo para a terra que equilibra os sentidos desentendidos. E a tua mão é um pássaro noctívago, que voa lacrimejando orvalhos sobre o colo da minha memória.
23 de junho de 2005
interioridade
O relógio mastiga as horas com a mesma paciência vagarosa com que as gruas se movem no horizonte. As pessoas acontecem, são fenómenos na paisagem, munidas de um silêncio que tende a magoar os meus ouvidos. Cá dentro as máquinas vibram, e sem as pessoas que aqui habitam as oito horas laborais, tudo parece sossegado. O sossego daqui é uma realidade que se sobrepõem ao fenómeno do exterior. Enquanto nada acontece ou enquanto o tudo não se manifesta, este instante individual, egoísta, solitário, é a verdade. Sou eu e o resto paisagem. Só quando o primeiro telefone toca o meu umbigo diminui, e nos meus gestos do quotidiano deixo de ser quem sou, para ser parte de um todo, em que somos entre muitos.
21 de junho de 2005
substituível tu, de doces sucos

foto de Bruno Souto em 1000 imagens
Abri a melancia - fruto forte, grande, pujante, sensual, fresco - e havia um regato de água correndo sobre os meus lábios. A princípio ainda julguei que um beijo teu, que a tua língua viesse visitar-me nestas horas de calor, mas não... Era uma melancia, carregada com o sorriso das tuas mãos. Um fruto - forte, grande, pujante, sensual, fresco - que te fez a vez, amor.
18 de junho de 2005
sem desvirtuar
Se eu falhar promete-me que me corriges, me chamas à atenção. Não, não ignores, não menosprezes, não sejas indiferente. Promete-me essa fidelidade sem sombras, sem tortuosos desvios, sem olhares desconfortáveis. Se eu falhar fica lá para me veres a reaprender, para me veres a erguer da vergastada, para me veres a afastar o lodo do corpo. Não vires as costas, muito menos chores porque as lágrimas são um céu plúmbeo que se inteira da minha cabeça obrigando-me a comer o alcatrão do chão. Promete-me que me seguras no braço, e alongas um sorriso que me incite: Vai! Se eu falhar não tragas os jornais nem a televisão, sopra-me o teu hálito à falta de uma brisa que me acalente. Não cedas, por favor, não cedas comigo à corrupção das palavras que despertam cedo demais para o desespero; por favor, se eu falhar promete-me que estarão lá os teus olhos para que haja luz, e alguma fé. Não me faças acreditar que nasci e permaneço na solidão, até que a morte me acompanhe. Se eu falhar, chama-me pelo nome.
método
Eu escrevia a dor peculiar de um corpo que não era o meu e disseram-me que se surpreendiam como sabia eu discorrer sobre a dor que nunca havia sentido, dentro de um corpo que me era estranho. Respondi que os olhos espelham qualquer coisa, uns dizem que é a alma, eu digo que é qualquer coisa pouco definido, mas é por aí que se lêem as raízes de tudo o que somos e por isso podia dizer sem hesitações o quê. Armadilharam-se com a pergunta rasteira: e os cegos, podes escrever a escuridão dos cegos? Se o não soubesse coleccionaria pedras. Pedras da rua, apanhadas ao acaso.
13 de junho de 2005
que farei com as palavras quebradas?

a Eugénio de Andrade
que farei com as palavras quebradas
com a maturidade do fruto e a sede quebrantada
na trovoada do dia
que farei com estas pétalas que vieram para te resgatar os olhos
e a esvoaçar as gaivotas da beira-mar
na espera garantida de um lápis teu
que farei, meu caro Eugénio, com a partida dos ossos
se na hora em que partes
tudo será como a água primordial
e todos os poemas
(sem a melodia)
novamente por escrever?
a luta continua

a Álvaro Cunhal
as tuas mãos enfatizam uma fome de justiça
enfrentando toda a madrugada humana
refeita dos trapos e da miséria dos povos
nunca foi fraca esta tua voz
voz que marchou, voz que entoou
o erguer dos dias
eras uma seara que o vento nunca derrubou
que o joio jamais sufocaria
e com a graciosidade dos teus dedos
que apontaram duramente, impiedosos, a tirania
sabias dar corpo a homens e mulheres
pois era na humanidade que te nascia
toda a arte, com engenho de artesão
6 de junho de 2005
ruínas

quando for a morte
abre a terra devagar com golpes de chuva
não te demores nas sombras dos velhos palácios
a escrever no verdete das paredes as folhas adocicadas
ou os frutos vermelhos que amadurecem o teu regaço.
quando for a morte
não digas medo nem espantes a noite
leva o cadáver banhado de pó à cova
e cospe - cospe de nojo - a lentidão das horas
caídas como gotas de sol.
quando for a morte
espreita a escuridão mantida nas frinchas das portas
no fundo das ruínas dos móveis
na dobra eterna das mortalhas.
e quando a terra enfim batida e chorada,
esquece-a
com a permanente latência das palavras.
29 de maio de 2005
já não é incompleto o poema

poema incompleto
acordei sobre este poema inacabado
espatifei as páginas em branco
e senti que não queria difundir
nada para aqueles espaços despojados
mas rasguei as palavras com cólera
e embrenhei outras para ali
como um puzzle
adormeci sobre este poema
que nunca será concluído
porque quem o finalizará
serás tu
e não eu...
(Piedade Araújo Sol, em Olhares em tons de maresia)
completo-te o poema, cerceando a raiva das tuas unhas
em compleição com a terra remexida
tragada pelo sal do teu suor.
rosto de lágrima
porque espatifas assim a virgindade do papel
quando é este o sol que te ilumina todas as manhãs?
sê serena, tranquiliza-te ao passares as polpas dos dedos
sobre a textura que te acaricia.
ergue o punho,
esventra o corpo da tua voz,
e escreve-te num dilúvio.
28 de maio de 2005
ainda não
Valerá a pena que as janelas se abram e espalhem as notícias pelo chão violando o ressonar dos meus lençóis cheios de mim? Valerá entorpecer-me de um sono mal acabado ou de um acordar em sobressalto? O sonho ainda não terminou, não faças isso, cerra as janelas e deixa a solidão respirar, acertando o passo pelo ritmo do meu peito repousado.
Estamos já na véspera e nada me ocorre sobre o que farei quando tudo arde.
Estamos já na véspera e nada me ocorre sobre o que farei quando tudo arde.
26 de maio de 2005
tempo perdido

foto de JMS (daqui)
Deixei-me encostar na parede com o relógio parado numa hora incerta da tarde. As árvores riam-se de sombra, erguidas diante mim, e uma pequena gota de suor atravessou a minha testa. Deveria continuar o caminho, se o relógio explodiu na sua sístole de tempo? Porque dependo da sua tirania, agora parca, miserável, se precisa de mim para encontrar o eixo do mundo?
Decidi ir buscar incerto o futuro que só a mim pertence. Sem um ponteiro que me aponte no seu velho polegar de ditador.
Teria pois de enfrentar o dia e todos os dias a dureza de tão grande caminhada.
Ardia o sol sobre a poeira da estrada. Arde sempre aqui, no lugar febril de todos estes delírios com que mancho o pensamento.
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