21 de junho de 2005

substituível tu, de doces sucos


foto de Bruno Souto em 1000 imagens


Abri a melancia - fruto forte, grande, pujante, sensual, fresco - e havia um regato de água correndo sobre os meus lábios. A princípio ainda julguei que um beijo teu, que a tua língua viesse visitar-me nestas horas de calor, mas não... Era uma melancia, carregada com o sorriso das tuas mãos. Um fruto - forte, grande, pujante, sensual, fresco - que te fez a vez, amor.

18 de junho de 2005

sem desvirtuar

Se eu falhar promete-me que me corriges, me chamas à atenção. Não, não ignores, não menosprezes, não sejas indiferente. Promete-me essa fidelidade sem sombras, sem tortuosos desvios, sem olhares desconfortáveis. Se eu falhar fica lá para me veres a reaprender, para me veres a erguer da vergastada, para me veres a afastar o lodo do corpo. Não vires as costas, muito menos chores porque as lágrimas são um céu plúmbeo que se inteira da minha cabeça obrigando-me a comer o alcatrão do chão. Promete-me que me seguras no braço, e alongas um sorriso que me incite: Vai! Se eu falhar não tragas os jornais nem a televisão, sopra-me o teu hálito à falta de uma brisa que me acalente. Não cedas, por favor, não cedas comigo à corrupção das palavras que despertam cedo demais para o desespero; por favor, se eu falhar promete-me que estarão lá os teus olhos para que haja luz, e alguma fé. Não me faças acreditar que nasci e permaneço na solidão, até que a morte me acompanhe. Se eu falhar, chama-me pelo nome.

método

Eu escrevia a dor peculiar de um corpo que não era o meu e disseram-me que se surpreendiam como sabia eu discorrer sobre a dor que nunca havia sentido, dentro de um corpo que me era estranho. Respondi que os olhos espelham qualquer coisa, uns dizem que é a alma, eu digo que é qualquer coisa pouco definido, mas é por aí que se lêem as raízes de tudo o que somos e por isso podia dizer sem hesitações o quê. Armadilharam-se com a pergunta rasteira: e os cegos, podes escrever a escuridão dos cegos? Se o não soubesse coleccionaria pedras. Pedras da rua, apanhadas ao acaso.

13 de junho de 2005

que farei com as palavras quebradas?



a Eugénio de Andrade


que farei com as palavras quebradas
com a maturidade do fruto e a sede quebrantada
na trovoada do dia

que farei com estas pétalas que vieram para te resgatar os olhos
e a esvoaçar as gaivotas da beira-mar
na espera garantida de um lápis teu

que farei, meu caro Eugénio, com a partida dos ossos
se na hora em que partes
tudo será como a água primordial

e todos os poemas
(sem a melodia)
novamente por escrever?

a luta continua



a Álvaro Cunhal


as tuas mãos enfatizam uma fome de justiça
enfrentando toda a madrugada humana
refeita dos trapos e da miséria dos povos

nunca foi fraca esta tua voz
voz que marchou, voz que entoou
o erguer dos dias

eras uma seara que o vento nunca derrubou
que o joio jamais sufocaria

e com a graciosidade dos teus dedos
que apontaram duramente, impiedosos, a tirania

sabias dar corpo a homens e mulheres
pois era na humanidade que te nascia

toda a arte, com engenho de artesão

6 de junho de 2005

ruínas




quando for a morte
abre a terra devagar com golpes de chuva
não te demores nas sombras dos velhos palácios
a escrever no verdete das paredes as folhas adocicadas
ou os frutos vermelhos que amadurecem o teu regaço.
quando for a morte
não digas medo nem espantes a noite
leva o cadáver banhado de pó à cova
e cospe - cospe de nojo - a lentidão das horas
caídas como gotas de sol.
quando for a morte
espreita a escuridão mantida nas frinchas das portas
no fundo das ruínas dos móveis
na dobra eterna das mortalhas.

e quando a terra enfim batida e chorada,
esquece-a
com a permanente latência das palavras.

29 de maio de 2005

já não é incompleto o poema



poema incompleto

acordei sobre este poema inacabado
espatifei as páginas em branco
e senti que não queria difundir
nada para aqueles espaços despojados
mas rasguei as palavras com cólera
e embrenhei outras para ali
como um puzzle

adormeci sobre este poema
que nunca será concluído
porque quem o finalizará
serás tu
e não eu...


(Piedade Araújo Sol, em Olhares em tons de maresia)


completo-te o poema, cerceando a raiva das tuas unhas
em compleição com a terra remexida
tragada pelo sal do teu suor.

rosto de lágrima
porque espatifas assim a virgindade do papel
quando é este o sol que te ilumina todas as manhãs?

sê serena, tranquiliza-te ao passares as polpas dos dedos
sobre a textura que te acaricia.

ergue o punho,
esventra o corpo da tua voz,

e escreve-te num dilúvio.

28 de maio de 2005

ainda não

Valerá a pena que as janelas se abram e espalhem as notícias pelo chão violando o ressonar dos meus lençóis cheios de mim? Valerá entorpecer-me de um sono mal acabado ou de um acordar em sobressalto? O sonho ainda não terminou, não faças isso, cerra as janelas e deixa a solidão respirar, acertando o passo pelo ritmo do meu peito repousado.

Estamos já na véspera e nada me ocorre sobre o que farei quando tudo arde.

26 de maio de 2005

tempo perdido


foto de JMS (daqui)


Deixei-me encostar na parede com o relógio parado numa hora incerta da tarde. As árvores riam-se de sombra, erguidas diante mim, e uma pequena gota de suor atravessou a minha testa. Deveria continuar o caminho, se o relógio explodiu na sua sístole de tempo? Porque dependo da sua tirania, agora parca, miserável, se precisa de mim para encontrar o eixo do mundo?

Decidi ir buscar incerto o futuro que só a mim pertence. Sem um ponteiro que me aponte no seu velho polegar de ditador.

Teria pois de enfrentar o dia e todos os dias a dureza de tão grande caminhada.

Ardia o sol sobre a poeira da estrada. Arde sempre aqui, no lugar febril de todos estes delírios com que mancho o pensamento.

25 de maio de 2005

morango


(daqui)


Quando trinquei o morango julguei ver a ferida do teu corpo aberta. E o suco escorria, daquela carne vermelha, mordida. Esperei para sentir um frémito, um soluço. Para ouvir um gemido. Esperei para te ouvir.

Quando devorei, ávido, o que ainda sobrava daquele sangue vivo especulando entre os meus dedos múltiplas sensações, experimentei a dor aguda da tua ausência.

Uma vez mais a tua ausência.

O que será feito dos teus abraços com o aroma do feno? Poderei resgatar a brisa da tua boca?

Morde-me com fome de morango e deixa-me o suco nos teus lábios para poder lamber-te as saudades que ficaram na paixão da tua partida


22 de maio de 2005

(mais um cliché seguido de) inquietação


Além-tédio, por Armindo Dias em 1000 imagens


Sinto o peso da tua partida. Desapareceste na curva da velha estrada, entre os passos da frondosa árvore que abre o largo que daqui não avisto.

Só essa alta árvore é testemunha do teu rosto depois da partida. Terá sido um rosto angustiado? Terá sido de alívio? Terás sorrido, ou esconderias a humidade dos olhos atrás do vento que te empurrou? Só essa árvore frondosa o saberá dizer. Quererá contar-me? Ou perderão as árvores também a sua memória?

Ficou aqui um espaço vazio, ocupado segundos mais tarde pela inquietação, comigo rendido e de braços apontando frouxamente o chão: se te perder, perco-me, e perder-te-às.

16 de maio de 2005

coisa nenhuma


fotografia de Marco Ricca em 1000 imagens


- Que disseste?
- Nada.
- Julguei que tivesses dito alguma coisa...
- Nem sequer abri a boca.

A música conduzia o embalo da sala. Dois copos: um de gin, outro de sumo de um fruto vermelho. Pedras de gelo. Revistas várias com fotografia. Livros de poesia, abertos ao acaso.

- É certo que não disseste nada...?
- Sim. Porque insistes?
- Não insisto. Já não insisto.

Um gesto de impaciência:

- A conversa assim não te leva a lado algum. O que foi que ouviste?

Ficou a música. Beberam-se os líquidos. Folhearam-se as páginas. Havia uma janela para um jardim. Havia a luz para um céu declaradamente azul. Havia tudo. Como se tudo pudesse ser perfeito.

- Ia jurar que te ouvi dizer "amo-te".

Mas de tudo, coisa nenhuma.

14 de maio de 2005

encontro


autor desconhecido


Fui com um cigarro bater à porta da solidão e encontrei-te. Que havia muito tempo que ali estavas, esclareceste, com a farinha das unhas entre os lábios. Eu respondi que era um acaso, uma ligeira indisposição me levara ali. Na viagem entre uma fumaça e um pensamento?, perguntaste. Sim, foi isso, como sabes?, Muitas vezes assim cá cheguei, Então e agora não é assim?, Agora

(fizeste uma pausa como se interpretasses uma personagem de filme de hollywood)

só mesmo com isto. E mostraste-me uma carteira de brancos e pequenos comprimidos.

Acenei para te dizer, sem palavras, que compreendia. E porquê as unhas?, indaguei. É para deixar vestígios, respondeste. O meu cigarro chegou ao fim e vim embora.

Passado imenso tempo regressei, entre um gole de gin e uma lágrima que não pude reprimir. Procurei por ti mas já lá não estavas. Eram só os teus vestígios no chão e foi então que deixei livremente soltar-se o meu pranto.