13 de junho de 2005

que farei com as palavras quebradas?



a Eugénio de Andrade


que farei com as palavras quebradas
com a maturidade do fruto e a sede quebrantada
na trovoada do dia

que farei com estas pétalas que vieram para te resgatar os olhos
e a esvoaçar as gaivotas da beira-mar
na espera garantida de um lápis teu

que farei, meu caro Eugénio, com a partida dos ossos
se na hora em que partes
tudo será como a água primordial

e todos os poemas
(sem a melodia)
novamente por escrever?

a luta continua



a Álvaro Cunhal


as tuas mãos enfatizam uma fome de justiça
enfrentando toda a madrugada humana
refeita dos trapos e da miséria dos povos

nunca foi fraca esta tua voz
voz que marchou, voz que entoou
o erguer dos dias

eras uma seara que o vento nunca derrubou
que o joio jamais sufocaria

e com a graciosidade dos teus dedos
que apontaram duramente, impiedosos, a tirania

sabias dar corpo a homens e mulheres
pois era na humanidade que te nascia

toda a arte, com engenho de artesão

6 de junho de 2005

ruínas




quando for a morte
abre a terra devagar com golpes de chuva
não te demores nas sombras dos velhos palácios
a escrever no verdete das paredes as folhas adocicadas
ou os frutos vermelhos que amadurecem o teu regaço.
quando for a morte
não digas medo nem espantes a noite
leva o cadáver banhado de pó à cova
e cospe - cospe de nojo - a lentidão das horas
caídas como gotas de sol.
quando for a morte
espreita a escuridão mantida nas frinchas das portas
no fundo das ruínas dos móveis
na dobra eterna das mortalhas.

e quando a terra enfim batida e chorada,
esquece-a
com a permanente latência das palavras.

29 de maio de 2005

já não é incompleto o poema



poema incompleto

acordei sobre este poema inacabado
espatifei as páginas em branco
e senti que não queria difundir
nada para aqueles espaços despojados
mas rasguei as palavras com cólera
e embrenhei outras para ali
como um puzzle

adormeci sobre este poema
que nunca será concluído
porque quem o finalizará
serás tu
e não eu...


(Piedade Araújo Sol, em Olhares em tons de maresia)


completo-te o poema, cerceando a raiva das tuas unhas
em compleição com a terra remexida
tragada pelo sal do teu suor.

rosto de lágrima
porque espatifas assim a virgindade do papel
quando é este o sol que te ilumina todas as manhãs?

sê serena, tranquiliza-te ao passares as polpas dos dedos
sobre a textura que te acaricia.

ergue o punho,
esventra o corpo da tua voz,

e escreve-te num dilúvio.

28 de maio de 2005

ainda não

Valerá a pena que as janelas se abram e espalhem as notícias pelo chão violando o ressonar dos meus lençóis cheios de mim? Valerá entorpecer-me de um sono mal acabado ou de um acordar em sobressalto? O sonho ainda não terminou, não faças isso, cerra as janelas e deixa a solidão respirar, acertando o passo pelo ritmo do meu peito repousado.

Estamos já na véspera e nada me ocorre sobre o que farei quando tudo arde.

26 de maio de 2005

tempo perdido


foto de JMS (daqui)


Deixei-me encostar na parede com o relógio parado numa hora incerta da tarde. As árvores riam-se de sombra, erguidas diante mim, e uma pequena gota de suor atravessou a minha testa. Deveria continuar o caminho, se o relógio explodiu na sua sístole de tempo? Porque dependo da sua tirania, agora parca, miserável, se precisa de mim para encontrar o eixo do mundo?

Decidi ir buscar incerto o futuro que só a mim pertence. Sem um ponteiro que me aponte no seu velho polegar de ditador.

Teria pois de enfrentar o dia e todos os dias a dureza de tão grande caminhada.

Ardia o sol sobre a poeira da estrada. Arde sempre aqui, no lugar febril de todos estes delírios com que mancho o pensamento.

25 de maio de 2005

morango


(daqui)


Quando trinquei o morango julguei ver a ferida do teu corpo aberta. E o suco escorria, daquela carne vermelha, mordida. Esperei para sentir um frémito, um soluço. Para ouvir um gemido. Esperei para te ouvir.

Quando devorei, ávido, o que ainda sobrava daquele sangue vivo especulando entre os meus dedos múltiplas sensações, experimentei a dor aguda da tua ausência.

Uma vez mais a tua ausência.

O que será feito dos teus abraços com o aroma do feno? Poderei resgatar a brisa da tua boca?

Morde-me com fome de morango e deixa-me o suco nos teus lábios para poder lamber-te as saudades que ficaram na paixão da tua partida


22 de maio de 2005

(mais um cliché seguido de) inquietação


Além-tédio, por Armindo Dias em 1000 imagens


Sinto o peso da tua partida. Desapareceste na curva da velha estrada, entre os passos da frondosa árvore que abre o largo que daqui não avisto.

Só essa alta árvore é testemunha do teu rosto depois da partida. Terá sido um rosto angustiado? Terá sido de alívio? Terás sorrido, ou esconderias a humidade dos olhos atrás do vento que te empurrou? Só essa árvore frondosa o saberá dizer. Quererá contar-me? Ou perderão as árvores também a sua memória?

Ficou aqui um espaço vazio, ocupado segundos mais tarde pela inquietação, comigo rendido e de braços apontando frouxamente o chão: se te perder, perco-me, e perder-te-às.

16 de maio de 2005

coisa nenhuma


fotografia de Marco Ricca em 1000 imagens


- Que disseste?
- Nada.
- Julguei que tivesses dito alguma coisa...
- Nem sequer abri a boca.

A música conduzia o embalo da sala. Dois copos: um de gin, outro de sumo de um fruto vermelho. Pedras de gelo. Revistas várias com fotografia. Livros de poesia, abertos ao acaso.

- É certo que não disseste nada...?
- Sim. Porque insistes?
- Não insisto. Já não insisto.

Um gesto de impaciência:

- A conversa assim não te leva a lado algum. O que foi que ouviste?

Ficou a música. Beberam-se os líquidos. Folhearam-se as páginas. Havia uma janela para um jardim. Havia a luz para um céu declaradamente azul. Havia tudo. Como se tudo pudesse ser perfeito.

- Ia jurar que te ouvi dizer "amo-te".

Mas de tudo, coisa nenhuma.

14 de maio de 2005

encontro


autor desconhecido


Fui com um cigarro bater à porta da solidão e encontrei-te. Que havia muito tempo que ali estavas, esclareceste, com a farinha das unhas entre os lábios. Eu respondi que era um acaso, uma ligeira indisposição me levara ali. Na viagem entre uma fumaça e um pensamento?, perguntaste. Sim, foi isso, como sabes?, Muitas vezes assim cá cheguei, Então e agora não é assim?, Agora

(fizeste uma pausa como se interpretasses uma personagem de filme de hollywood)

só mesmo com isto. E mostraste-me uma carteira de brancos e pequenos comprimidos.

Acenei para te dizer, sem palavras, que compreendia. E porquê as unhas?, indaguei. É para deixar vestígios, respondeste. O meu cigarro chegou ao fim e vim embora.

Passado imenso tempo regressei, entre um gole de gin e uma lágrima que não pude reprimir. Procurei por ti mas já lá não estavas. Eram só os teus vestígios no chão e foi então que deixei livremente soltar-se o meu pranto.

10 de maio de 2005

tamanha evidência do talento

Declararam-se vencedores com os corpos, cujas dores são como remos quebrados sobre mares de inquietação. Rasgou-se a luz mordendo a água que subiu na coloração da noite. Uma lua gorda e húmida, lasciva, tornou-lhes a pele numa tela aberta em cavalete. Agrediu-lhes a madrugada com os seus pincéis de sombras, em sublimes cuidados.

Os derrotados perfilaram-se obstinados, e em círculos, sobre o mesmo erro. Cavaram luras como raposas assustadas e enfiaram pelas goelas o ruído informe do vazio.

janelas veladas

Comiserativos actos além. Prostradas carnes pela dor dos joelhos que latejam, e dos pés que incham. Cega constrição ao abandono de uma imagem vacilante, ora de barro, ora de madeira, pétrea sempre. Um espelho tetro para os espíritos velíferos, exuberando cada gesto inerte como se as janelas veladas sem um até amanhã augusto. Fé que não duvida é fé morta. (*)


(*) Miguel de Unamuno

insónia



A sala suspira de papel. Repousam os computadores, alinhados. Como ilhas, os telefones diferenciam-se pelo tamanho e pela cor. Clips, agrafadores, o gigante furador. Alguns calendários aqui e acolá. As cadeiras repousando o colo. A estas também lhes doem as costas. Sofrem em silêncio como as velhas viúvas resignadas. A porta é uma árvore: só lhe sabemos a presença quando o vento uiva, ou se agita para uma sombra refrescante de qualquer novidade exterior. Agora a luz anuncia que a hora do almoço se finda com o sossego do tempo. Quando o burburinho regressar, talvez aí consiga finalmente adormecer.