14 de maio de 2005

encontro


autor desconhecido


Fui com um cigarro bater à porta da solidão e encontrei-te. Que havia muito tempo que ali estavas, esclareceste, com a farinha das unhas entre os lábios. Eu respondi que era um acaso, uma ligeira indisposição me levara ali. Na viagem entre uma fumaça e um pensamento?, perguntaste. Sim, foi isso, como sabes?, Muitas vezes assim cá cheguei, Então e agora não é assim?, Agora

(fizeste uma pausa como se interpretasses uma personagem de filme de hollywood)

só mesmo com isto. E mostraste-me uma carteira de brancos e pequenos comprimidos.

Acenei para te dizer, sem palavras, que compreendia. E porquê as unhas?, indaguei. É para deixar vestígios, respondeste. O meu cigarro chegou ao fim e vim embora.

Passado imenso tempo regressei, entre um gole de gin e uma lágrima que não pude reprimir. Procurei por ti mas já lá não estavas. Eram só os teus vestígios no chão e foi então que deixei livremente soltar-se o meu pranto.

10 de maio de 2005

tamanha evidência do talento

Declararam-se vencedores com os corpos, cujas dores são como remos quebrados sobre mares de inquietação. Rasgou-se a luz mordendo a água que subiu na coloração da noite. Uma lua gorda e húmida, lasciva, tornou-lhes a pele numa tela aberta em cavalete. Agrediu-lhes a madrugada com os seus pincéis de sombras, em sublimes cuidados.

Os derrotados perfilaram-se obstinados, e em círculos, sobre o mesmo erro. Cavaram luras como raposas assustadas e enfiaram pelas goelas o ruído informe do vazio.

janelas veladas

Comiserativos actos além. Prostradas carnes pela dor dos joelhos que latejam, e dos pés que incham. Cega constrição ao abandono de uma imagem vacilante, ora de barro, ora de madeira, pétrea sempre. Um espelho tetro para os espíritos velíferos, exuberando cada gesto inerte como se as janelas veladas sem um até amanhã augusto. Fé que não duvida é fé morta. (*)


(*) Miguel de Unamuno

insónia



A sala suspira de papel. Repousam os computadores, alinhados. Como ilhas, os telefones diferenciam-se pelo tamanho e pela cor. Clips, agrafadores, o gigante furador. Alguns calendários aqui e acolá. As cadeiras repousando o colo. A estas também lhes doem as costas. Sofrem em silêncio como as velhas viúvas resignadas. A porta é uma árvore: só lhe sabemos a presença quando o vento uiva, ou se agita para uma sombra refrescante de qualquer novidade exterior. Agora a luz anuncia que a hora do almoço se finda com o sossego do tempo. Quando o burburinho regressar, talvez aí consiga finalmente adormecer.

9 de maio de 2005

bad cluster


fotografia de Armando Dias em 1000 imagens


Despejas-me os teus medos como se eu fosse o diabo de um caixote de lixo. E depois atiras-te novamente de cabeça nos velhos e novos dilemas da tua vidinha sem regras, serpenteando entre a rotina de tudo, abandonas-te, arrastando o teu andar, acabando num pequeno ponto negro que anuncia o fim de uma estrada - que cliché! Cá fico eu para pensar nisso tudo que dizes, pois... Como se eu fosse a merda de um programa de computador ao qual estás habituada que te processe os dados introduzidos e no dia seguinte te apresente soluções. Quais soluções? Adoras conselhos de algibeira, não é? Aqueles que tudo dizem mas não solucionam coisa alguma, porque argumentas que nada está ao teu alcance, nada depende de ti, só dos outros. Fazem com que te sintas ainda mais desorientada, fatalmente desgraçada pelas circunstâncias, e cultivas uma depressão inventada pelos teus erros. Gostas de ser a vítima. Pois devo confessar-te: tenho um bug, um vírus, o que queiras chamar na tua linguagem programática, e por isso vais ter que me fazer um restart. Mas tem lá cuidado: corre-me em safe mode, não vão os estragos ser permanentes e irreversíveis...

7 de maio de 2005

a certa dúvida

Ser mais do que essa dor de cabeça: o sangue que ferve espumoso no sono mais prolongado. Veia que resiste à cicatriz. Ao disparares lentamente o olhar que se esfuma encontras a abertura perpendicular da cortina fugindo para as cores do sol. Se ouves as buzinas dos automóveis estás desperto, o que pressupõe que a íris não devia ser o vidro com que se anuncia e a pele não se acinzentaria de uma cera com cheiro que os cães perseguem. Porque me mentes? Larga-me os sonhos e torna-te, de uma vez por todas, efémero.

6 de maio de 2005

celebração




fossemos os dois
a ascensão da água aos céus e tornados nuvem,
oblíquos na tarde que esfria e se esbate
numa bátega feita com as nossas melenas,

e atordoaríamos a cidade de poemas
buscando felicidade em cada copo de vinho bebido
sob o esplendor do crepúsculo que amadurece
a celebração do amor.

viagens solitárias




Bebe o café! Deste tantas voltas com a colher sobre o mínimo negro do líquido caramelizado pelos dois pacotinhos de açúcar, que me ausentei, procurando viagens impossíveis em um outro lugar que não este pulverizado de cigarros, tilintar de chávenas e copos, burburinhos de conversas animadas. Parecemos dois figurantes de um filme. Enquanto mexias numa atitude eterna o teu café entraram e saíram pessoas tão diferentes, e fico a pensar o que será a vida desta gente. Quantas moverão assim a colher sobre o café, desprendidas de tudo o que as rodeia? Digo-me abstracto mas quem se abstrai és tu que nem sequer deste conta do meu apelo. Não viajas no mesmo comprimento de onda que eu, tomas caminhos que desconheço, finges tudo e finges-te de tudo. Paralelamente absorta no movimento alheio. Onde estás, que me não encontras? Bebe o café! Deste tantas voltas com a colher sobre o mínimo líquido negro da chávena que, ao regressares, exclamas ridícula, O café está frio, merda! E eu peço-te uma paz, uma trégua: vamos embora?

5 de maio de 2005

paternidade




amigo todas as oliveiras dão paz
e o fruto amadurecido amacia o pão
é como a luz inteira jorrada pelo sol
sobre o prado verde da tua calejada mão

assim é o teu fruto leve como a alva pluma
que cuidarás tal semente que traz consigo
todo o mistério de que se veste a criação

saberá nos teus olhos a cor do mar e a espuma
que namora a areia terra firme do seu signo

toma-o agora e ensina-o a plantar a árvore
de onde germinará os braços de uma nova geração

para falar de ti


Súmula, por Armindo Dias em 1000 imagens


Inspirou-me a cálida e estrelada noite para falar de ti. Para dizer dos teus beijos e o hálito morno da tua ternura. Dos teus dedos tacteando alguma poesia.

Inspirou-me a noite para te dizer saudade, apartado de um dia. Sobram no leito os lençóis amarrotados, e este arrepio na espinha.

Destruíste-me o poema, quando fechaste a porta. Levaste a sede e a fome de mim. Soubeste limpar-me o corpo. Mas no patamar das ideias espalhaste toda esta cinza: a solidão que restou daqui.

4 de maio de 2005

breve abordagem escatológica

- Puta que pariu o filho da puta do telemóvel, foda-se!

Ouvi o vociferar pleonástico da mulher enraivecida com a perda de tecnologia enquanto o chão ardia de uma chama invisível.

Senti o meu corpo encharcado, conspurcado, e ausente. Pelo olhar soube distinguir a lixeira mais adiante, e três pessoas manejando como enfermeiros braços e agulhas.
À minha frente erguia-se, com boa acentuação, uma escadaria de escombros. Sabia que o caminho ainda seria mais doloroso.

Eis então que, se não tivesse olhado para trás e revisto a rua limpa, e a mulher rompendo o alcatrão com o automóvel enfurecido, não me teria apercebido que as várias dimensões (temporais? intelectuais?) por vezes se cruzam. Porque o acaso é um cavalo da cor do vento. (*)


(*) Manuel Alegre

3 de maio de 2005

fotografia




Se eu tirasse uma fotografia daqui e agora, eram duas cordas que dançavam ao vento agreste, dois cabos de aço completamente abstractos na paisagem. Gruas ao longe: as gruas fazem a vez das arcaicas antenas (agora que dão lugar a velocidades subterrâneas), farejando no alto ar a expansão do betão. Daqui os feros animais que rodam sobre suas negras patas de borracha parecem mais pequenos, e passam com tal anonimato e indiferentes ao meu olhar que me desespera. Por existir um mundo que ignora a minha observadora presença, ainda que a janela pequena e insignificante. Há vento, o que não se veria na imagem retida, excepto pelo gesticular dos braços ofegantes das árvores em pânico (as árvores assim inspiram novos-gritos-de-munch). Se eu tirasse uma fotografia daqui e agora, era um silêncio de gestos que o mundo jamais poderá conhecer.

2 de maio de 2005

a cabra da bruxa

Eis porquê: parece-me uma bruxa. Esguia, olha de alto para mim, capaz de pensar que sou uma erva a qual ela pode arrancar da terra para as suas poções habitadas por sapos e unhas de crocodilo. Espana o pó do ar com o seu cabelo escorrido, cortado a meio. Os seus olhos esbugalhados (meu deus como saltam de horror as órbitas raiadas!) por detrás do óculo baço e estilhaçado quebram-me a vontade, arrepiam-me de medo, dão-me calafrios. No seu nariz sem graça esperam as verrugas nascer como borbulhões que apodrecem e estoiram sobre mim. Os cantos da sua boca descolorida esbranquiçam-se de espuma quando fala e grita e berra como as cabras com cio, de raiva, de inveja, de ódio. Eu sei lá! Eis porquê: parece-me uma bruxa.

Mas não é. Possivelmente não será.