6 de maio de 2005

viagens solitárias




Bebe o café! Deste tantas voltas com a colher sobre o mínimo negro do líquido caramelizado pelos dois pacotinhos de açúcar, que me ausentei, procurando viagens impossíveis em um outro lugar que não este pulverizado de cigarros, tilintar de chávenas e copos, burburinhos de conversas animadas. Parecemos dois figurantes de um filme. Enquanto mexias numa atitude eterna o teu café entraram e saíram pessoas tão diferentes, e fico a pensar o que será a vida desta gente. Quantas moverão assim a colher sobre o café, desprendidas de tudo o que as rodeia? Digo-me abstracto mas quem se abstrai és tu que nem sequer deste conta do meu apelo. Não viajas no mesmo comprimento de onda que eu, tomas caminhos que desconheço, finges tudo e finges-te de tudo. Paralelamente absorta no movimento alheio. Onde estás, que me não encontras? Bebe o café! Deste tantas voltas com a colher sobre o mínimo líquido negro da chávena que, ao regressares, exclamas ridícula, O café está frio, merda! E eu peço-te uma paz, uma trégua: vamos embora?

5 de maio de 2005

paternidade




amigo todas as oliveiras dão paz
e o fruto amadurecido amacia o pão
é como a luz inteira jorrada pelo sol
sobre o prado verde da tua calejada mão

assim é o teu fruto leve como a alva pluma
que cuidarás tal semente que traz consigo
todo o mistério de que se veste a criação

saberá nos teus olhos a cor do mar e a espuma
que namora a areia terra firme do seu signo

toma-o agora e ensina-o a plantar a árvore
de onde germinará os braços de uma nova geração

para falar de ti


Súmula, por Armindo Dias em 1000 imagens


Inspirou-me a cálida e estrelada noite para falar de ti. Para dizer dos teus beijos e o hálito morno da tua ternura. Dos teus dedos tacteando alguma poesia.

Inspirou-me a noite para te dizer saudade, apartado de um dia. Sobram no leito os lençóis amarrotados, e este arrepio na espinha.

Destruíste-me o poema, quando fechaste a porta. Levaste a sede e a fome de mim. Soubeste limpar-me o corpo. Mas no patamar das ideias espalhaste toda esta cinza: a solidão que restou daqui.

4 de maio de 2005

breve abordagem escatológica

- Puta que pariu o filho da puta do telemóvel, foda-se!

Ouvi o vociferar pleonástico da mulher enraivecida com a perda de tecnologia enquanto o chão ardia de uma chama invisível.

Senti o meu corpo encharcado, conspurcado, e ausente. Pelo olhar soube distinguir a lixeira mais adiante, e três pessoas manejando como enfermeiros braços e agulhas.
À minha frente erguia-se, com boa acentuação, uma escadaria de escombros. Sabia que o caminho ainda seria mais doloroso.

Eis então que, se não tivesse olhado para trás e revisto a rua limpa, e a mulher rompendo o alcatrão com o automóvel enfurecido, não me teria apercebido que as várias dimensões (temporais? intelectuais?) por vezes se cruzam. Porque o acaso é um cavalo da cor do vento. (*)


(*) Manuel Alegre

3 de maio de 2005

fotografia




Se eu tirasse uma fotografia daqui e agora, eram duas cordas que dançavam ao vento agreste, dois cabos de aço completamente abstractos na paisagem. Gruas ao longe: as gruas fazem a vez das arcaicas antenas (agora que dão lugar a velocidades subterrâneas), farejando no alto ar a expansão do betão. Daqui os feros animais que rodam sobre suas negras patas de borracha parecem mais pequenos, e passam com tal anonimato e indiferentes ao meu olhar que me desespera. Por existir um mundo que ignora a minha observadora presença, ainda que a janela pequena e insignificante. Há vento, o que não se veria na imagem retida, excepto pelo gesticular dos braços ofegantes das árvores em pânico (as árvores assim inspiram novos-gritos-de-munch). Se eu tirasse uma fotografia daqui e agora, era um silêncio de gestos que o mundo jamais poderá conhecer.

2 de maio de 2005

a cabra da bruxa

Eis porquê: parece-me uma bruxa. Esguia, olha de alto para mim, capaz de pensar que sou uma erva a qual ela pode arrancar da terra para as suas poções habitadas por sapos e unhas de crocodilo. Espana o pó do ar com o seu cabelo escorrido, cortado a meio. Os seus olhos esbugalhados (meu deus como saltam de horror as órbitas raiadas!) por detrás do óculo baço e estilhaçado quebram-me a vontade, arrepiam-me de medo, dão-me calafrios. No seu nariz sem graça esperam as verrugas nascer como borbulhões que apodrecem e estoiram sobre mim. Os cantos da sua boca descolorida esbranquiçam-se de espuma quando fala e grita e berra como as cabras com cio, de raiva, de inveja, de ódio. Eu sei lá! Eis porquê: parece-me uma bruxa.

Mas não é. Possivelmente não será.

29 de abril de 2005

noite como esta


(autor desconhecido)


Numa noite como esta, azul nos anéis de fumo disparado pelos risos e pelo burburinho onde cabem copos de diversas formas e líquidos de diversas cores;

numa noite como esta, dizia, em que o calor da terra ergue-se para gáudio das nossas narinas entumecidas pelo prazer de rir,

(e parar a olhar-te nos olhos);

aquela boca, aquele sorriso carmesim de onde deitas o desejo implorando;
e em que muita da luz, senão toda, é o foco dos corpos que mexem e exorcizam medos, e se transformam na volúpia;

numa noite como esta dos sons que explodem, das melenas que voam, dos braços que se perdem,

(e tu sempre perdida no contorno do meu corpo, tu perdida numa planície de gotas que te escaldam os sentidos);

numa noite como esta, dizia então, não hei-de eu morrer. Jamais. Garanto-te

28 de abril de 2005

molho de chaves


(daqui)


Ela veio até mim, trazendo um molho de chaves, e disse:

- Toma a que achares que vai abrir.
- Abrir o quê?, indaguei, sem ter esboçado qualquer gesto que adivinhasse a curiosidade que me invadiu naquele momento.
- Tu o saberás, respondeu-me, serena.

Ficamos uns instantes a olhar um para o outro. O que me poderia interessar numa chave daquele molho estendido pela mão de uma estranha? Apesar de tudo, a minha curiosidade era cada vez maior pelo que viesse a ser tudo aquilo e porquê eu, porquê ela. Porquê chaves.

- Escolhes uma?, insistiu.
- Prefiro as portas já abertas, respondi por fim, muito convicto.

Murou-me o horizonte com o rosto que aproximou num repente de mim, e os seus lábios entreabriram-se. Mas eram os meus olhos que afastavam a sombra da madrugada e afogando com a realidade a incógnita de um sonho...

27 de abril de 2005

memória do armário


o escritor António Lobo Antunes com uma ano de idade


Nem sempre me foi fácil agradar. Tirava do rosto qualquer sorriso e nesse lugar da boca ou do músculo contraído tecia frases consistentes para impressionar quem passasse.

Eram as margaridas, erguidas ali na terra de um canteiro nascido ao acaso, que me ouviam ou liam da minha boca a articulação das frases supostamente impressionantes… E mesmo que nenhum sinal visível viesse da sua condição vegetal, eu convencia-me de um restolhar de inquietação.

As pessoas, essas, nunca foram como as margaridas que o tempo acabou por afastar.

(o tempo cúmplice? o tempo dominado?)

Não se deixavam impressionar facilmente, muito menos com a minha verborreia de dá-cá-aquela-palha. Exigiam os dentes, mordeduras, talvez algum sangue visível para reconhecerem ali algo, alguém. Pediam sempre a boca suja de sorrisos. E a minha boca, desobedecida de mim e de tudo, permanecia numa quietude de gesso,

(levando o olhar para longe, para uma ausência inventada e só minha)

obstinada em não obedecer ou agradar.

A minha voz nunca quis tais compromissos tácitos.

25 de abril de 2005

noite clara




Veio com o ferro e as faces sem sono dos heróis, e povoou a cidade com jardins vermelhos e gritos de esperança.

Era a noite clara, numa explosão de cores, alegria, música e lágrimas - aquelas que jamais se esquecem.

24 de abril de 2005

noite escura




Eram os dias cinzentos como as nuvens que auguram intempéries. As gentes deslocavam-se numa tela a preto e branco e transpiravam lágrimas e sangue por entre as sombras que lhes surgiam, à socapa.

Era como se fosse um velar prolongado da agonia dentro de grades. Cinzentas.

Locomoção a preto e branco.

Era a noite escura.

23 de abril de 2005

ruína

Começo por namorar os pés e acabo por morder o calcanhar. O gigante precipita-se derrotado sob o meu ferrão. Na queda inevitável a sombra crescendo ganha contornos de noite, e jaz o derrotado fendendo a terra com um tremor de mundo.

espécie maior




Vejo daqui a água que se manifesta límpida, e nela habitam os pequenos seres que a nossa indiferença ignora com o sarcasmo de espécie maior. Os pequenos seres habitam, os pequenos seres multiplicam-se, os pequenos seres morrem.

Sonhei,

(não sei se na véspera ou na antevéspera de todos os pesadelos),

que era um dos pequenos seres das águas infinitas do universo.

Qual é a espécie maior, de quem senti aqueles olhos que me sorriam com ironia carregando sombras em suas mãos?