29 de abril de 2005

noite como esta


(autor desconhecido)


Numa noite como esta, azul nos anéis de fumo disparado pelos risos e pelo burburinho onde cabem copos de diversas formas e líquidos de diversas cores;

numa noite como esta, dizia, em que o calor da terra ergue-se para gáudio das nossas narinas entumecidas pelo prazer de rir,

(e parar a olhar-te nos olhos);

aquela boca, aquele sorriso carmesim de onde deitas o desejo implorando;
e em que muita da luz, senão toda, é o foco dos corpos que mexem e exorcizam medos, e se transformam na volúpia;

numa noite como esta dos sons que explodem, das melenas que voam, dos braços que se perdem,

(e tu sempre perdida no contorno do meu corpo, tu perdida numa planície de gotas que te escaldam os sentidos);

numa noite como esta, dizia então, não hei-de eu morrer. Jamais. Garanto-te

28 de abril de 2005

molho de chaves


(daqui)


Ela veio até mim, trazendo um molho de chaves, e disse:

- Toma a que achares que vai abrir.
- Abrir o quê?, indaguei, sem ter esboçado qualquer gesto que adivinhasse a curiosidade que me invadiu naquele momento.
- Tu o saberás, respondeu-me, serena.

Ficamos uns instantes a olhar um para o outro. O que me poderia interessar numa chave daquele molho estendido pela mão de uma estranha? Apesar de tudo, a minha curiosidade era cada vez maior pelo que viesse a ser tudo aquilo e porquê eu, porquê ela. Porquê chaves.

- Escolhes uma?, insistiu.
- Prefiro as portas já abertas, respondi por fim, muito convicto.

Murou-me o horizonte com o rosto que aproximou num repente de mim, e os seus lábios entreabriram-se. Mas eram os meus olhos que afastavam a sombra da madrugada e afogando com a realidade a incógnita de um sonho...

27 de abril de 2005

memória do armário


o escritor António Lobo Antunes com uma ano de idade


Nem sempre me foi fácil agradar. Tirava do rosto qualquer sorriso e nesse lugar da boca ou do músculo contraído tecia frases consistentes para impressionar quem passasse.

Eram as margaridas, erguidas ali na terra de um canteiro nascido ao acaso, que me ouviam ou liam da minha boca a articulação das frases supostamente impressionantes… E mesmo que nenhum sinal visível viesse da sua condição vegetal, eu convencia-me de um restolhar de inquietação.

As pessoas, essas, nunca foram como as margaridas que o tempo acabou por afastar.

(o tempo cúmplice? o tempo dominado?)

Não se deixavam impressionar facilmente, muito menos com a minha verborreia de dá-cá-aquela-palha. Exigiam os dentes, mordeduras, talvez algum sangue visível para reconhecerem ali algo, alguém. Pediam sempre a boca suja de sorrisos. E a minha boca, desobedecida de mim e de tudo, permanecia numa quietude de gesso,

(levando o olhar para longe, para uma ausência inventada e só minha)

obstinada em não obedecer ou agradar.

A minha voz nunca quis tais compromissos tácitos.

25 de abril de 2005

noite clara




Veio com o ferro e as faces sem sono dos heróis, e povoou a cidade com jardins vermelhos e gritos de esperança.

Era a noite clara, numa explosão de cores, alegria, música e lágrimas - aquelas que jamais se esquecem.

24 de abril de 2005

noite escura




Eram os dias cinzentos como as nuvens que auguram intempéries. As gentes deslocavam-se numa tela a preto e branco e transpiravam lágrimas e sangue por entre as sombras que lhes surgiam, à socapa.

Era como se fosse um velar prolongado da agonia dentro de grades. Cinzentas.

Locomoção a preto e branco.

Era a noite escura.

23 de abril de 2005

ruína

Começo por namorar os pés e acabo por morder o calcanhar. O gigante precipita-se derrotado sob o meu ferrão. Na queda inevitável a sombra crescendo ganha contornos de noite, e jaz o derrotado fendendo a terra com um tremor de mundo.

espécie maior




Vejo daqui a água que se manifesta límpida, e nela habitam os pequenos seres que a nossa indiferença ignora com o sarcasmo de espécie maior. Os pequenos seres habitam, os pequenos seres multiplicam-se, os pequenos seres morrem.

Sonhei,

(não sei se na véspera ou na antevéspera de todos os pesadelos),

que era um dos pequenos seres das águas infinitas do universo.

Qual é a espécie maior, de quem senti aqueles olhos que me sorriam com ironia carregando sombras em suas mãos?

22 de abril de 2005

ruído

As vozes são tantas e com tamanho RUÍDO que a enxaqueca vence numa dobra de lençol, numa brancura de naperon, na esferográfica que se lhe acaba a tinta. O papel manchado de nódoas polui o meu olhar e sou o lixo que no final do dia fermenta a estrutura do sono.

21 de abril de 2005

solidão escura


(autor desconhecido)



Se tivesse deixado a porta aberta, teria saído. E descoberto fronteiras impossíveis. Teria talvez, para além de tudo – o amor, a religião, o poder, a luxúria, a filosofia, a miséria, a morte – vivido.

Uma porta fechada é uma solidão escura.

20 de abril de 2005

areias brancas

Trouxeram-no com o olho esquerdo cego, e a acenar a multidões com o braço direito erguido. Por não ver do lado esquerdo, e com a boca descida

(cicatriz de insecto que rasteja)

arrasta-se de lado como um caranguejo. Alguns dizem que anda mesmo para trás, incapaz de vislumbrar o horizonte de onde nascem dias. É sabido que vive de sandálias

(nunca os pés descalços!)

e com o pão ressequido desvia a fome, anoitecendo as vozes em areias brancas. O tempo viu-o esquecer-se numa ravina de sombras.

19 de abril de 2005

não estou capaz

Pediram-me para escrever um poema mas não estou capaz. A giesta florida, e não estou capaz. A água límpida do riacho, e não estou capaz. A majestade da serra, e o seu silêncio, e não estou capaz. Porque o crepúsculo jaz cinzento e o que quero é deitar as tardes a dormir enquanto a chuva inicia uma catadupa de raivas e frustrações...

Estarei talvez capaz quando a minha pele aquecer com um beijo morno da alvorada e os meus lábios disserem, com cuidado de bisturi, as entranhas esquecidas do papel denso e branco.

16 de abril de 2005

o dia a conquistar

Há muito ainda a percorrer. Será uma absurda falta de senso sentar e esperar pelo quer que seja. Não há definitivamente tempo para descansarmos, sequer pensar. O ritmo não pode - não deve - abrandar. Tomemos nossos haveres e continuemos. Será o dia a conquistar. Vejam as pedras no caminho: brancas, torneadas e polidas pelo vento. Se nos quedarmos, ficaremos assim, como o calcário coxo que veste a paisagem. Forçamos nossas pernas, ordenamos nossos pés. Quando o dia morto e purpúreo, subiremos à noite para agradecer a jornada.

13 de abril de 2005

esperando

Estão ali o dia todo, esperando. Que sopre o vento e arraste uma palha. Que brilhe o sol e aqueça a pele enrugada. Que se abra uma pálpebra. Que se quebre o sono. Que a partilha seja de duas palavras. Que as mãos se toquem, frouxas, nostálgicas da firmeza e do coração à boca.

A voz é uma planície em pousio.

Querem ver a terra abrir para lhe sentir o humo.