22 de abril de 2005

ruído

As vozes são tantas e com tamanho RUÍDO que a enxaqueca vence numa dobra de lençol, numa brancura de naperon, na esferográfica que se lhe acaba a tinta. O papel manchado de nódoas polui o meu olhar e sou o lixo que no final do dia fermenta a estrutura do sono.

21 de abril de 2005

solidão escura


(autor desconhecido)



Se tivesse deixado a porta aberta, teria saído. E descoberto fronteiras impossíveis. Teria talvez, para além de tudo – o amor, a religião, o poder, a luxúria, a filosofia, a miséria, a morte – vivido.

Uma porta fechada é uma solidão escura.

20 de abril de 2005

areias brancas

Trouxeram-no com o olho esquerdo cego, e a acenar a multidões com o braço direito erguido. Por não ver do lado esquerdo, e com a boca descida

(cicatriz de insecto que rasteja)

arrasta-se de lado como um caranguejo. Alguns dizem que anda mesmo para trás, incapaz de vislumbrar o horizonte de onde nascem dias. É sabido que vive de sandálias

(nunca os pés descalços!)

e com o pão ressequido desvia a fome, anoitecendo as vozes em areias brancas. O tempo viu-o esquecer-se numa ravina de sombras.

19 de abril de 2005

não estou capaz

Pediram-me para escrever um poema mas não estou capaz. A giesta florida, e não estou capaz. A água límpida do riacho, e não estou capaz. A majestade da serra, e o seu silêncio, e não estou capaz. Porque o crepúsculo jaz cinzento e o que quero é deitar as tardes a dormir enquanto a chuva inicia uma catadupa de raivas e frustrações...

Estarei talvez capaz quando a minha pele aquecer com um beijo morno da alvorada e os meus lábios disserem, com cuidado de bisturi, as entranhas esquecidas do papel denso e branco.

16 de abril de 2005

o dia a conquistar

Há muito ainda a percorrer. Será uma absurda falta de senso sentar e esperar pelo quer que seja. Não há definitivamente tempo para descansarmos, sequer pensar. O ritmo não pode - não deve - abrandar. Tomemos nossos haveres e continuemos. Será o dia a conquistar. Vejam as pedras no caminho: brancas, torneadas e polidas pelo vento. Se nos quedarmos, ficaremos assim, como o calcário coxo que veste a paisagem. Forçamos nossas pernas, ordenamos nossos pés. Quando o dia morto e purpúreo, subiremos à noite para agradecer a jornada.

13 de abril de 2005

esperando

Estão ali o dia todo, esperando. Que sopre o vento e arraste uma palha. Que brilhe o sol e aqueça a pele enrugada. Que se abra uma pálpebra. Que se quebre o sono. Que a partilha seja de duas palavras. Que as mãos se toquem, frouxas, nostálgicas da firmeza e do coração à boca.

A voz é uma planície em pousio.

Querem ver a terra abrir para lhe sentir o humo.

12 de abril de 2005

de um verbo


Dourado, por Jorge Casais em 1000 imagens


Fiz-te um verbo.

Naquela semana estava doente, mas tudo acabou por acontecer. Tu tinhas os livros como se ervas daninhas no jardim. Cresciam, simplesmente. Nunca a coragem para os tocar, folhear, ler: porquê?

Dilataste a boca e escancaraste as garras. Querias-me vítima de uma possessão tua. Armaste uma armadilha, porém foste tu que te achaste dentro das páginas. Engoliste o verbo e engravidaste.

Cuspiste, furiosa.

11 de abril de 2005

de vidro

Foste capaz de dobrar o espelho, e ficaste do lado de lá

(pensando que para sempre),

longe de tudo o quanto te assusta na vida aquém espelho.

Tornei a ver-te, já doente, numa esquina de luz onde dormias a imagem rachada do vidro.

Nunca te lembraste que, por ser de vidro, a tua vida ali também se quebraria.

10 de abril de 2005

a cadeira


A cadeira de Gauguin, por Van Gogh


A cadeira ficou vazia para que estimulasses a tua imaginação. Trouxeste a parda solidão para que nela se sentasse, e nenhum outro objecto traçaste na tua imaginação senão essa dor a que teimosamente fazes culto. Então eram as descrições pormenorizadas acerca das sombras atravessadas sobre as tuas falanges, o silêncio gotejando na aridez dos teus lábios, ventos e fomes e bocas de gritos escancarados.

Pediste-me

(sempre me pediste isto)

que cantasse árias perdidas no imaginário e no folclore, apenas para te dar alimento a uma nostalgia cega e esclerosada.

Sai!, gritei.

Custou-te mexer as pernas. Nelas trazias raízes de um lixo abominável.

9 de abril de 2005

secos de tão velhos

Eu vi que colocaste os cravos no lixo, de tão velhos, como disseste. As tuas mãos comungam agora com o sol e a luz do verde das plantas no jardim. Com a tesoura inclinas-te para colheres aquele botão de rosa.

Perguntei se não achavas a rosa um lugar-comum tão batido, porque não voltar aos mesmos cravos, insisti.

Estão velhos, secos de tão velhos, respondeste.

E se a hora era então do lugar-comum, o jardim levou-te como uma memória, e em teus dedos floriram lágrimas vermelhas pela sorte de um espinho.

8 de abril de 2005

vieram e partiram

Vieram com um cadáver a implorar que não tivéssemos medo, e o santo tossiu. Era véspera de todas as exéquias, e as carpideiras não ouviam outros soluços que não os da terra que lhes doía. Os cães farejaram a morte e vieram beber a sede aos pés do defunto embrulhado em madeiras perfumadas. Vieram e partiram quando as flores viçosas perderam o brilho.

chinfrania

A humanidade, gritavam. Eu sabia que era um grito incolor, por isso não dei muita importância ao facto e segui em frente sem nunca ter olhado para trás. As vozes desfilaram durante ainda algum tempo seguindo os meus passos

(os meus, os teus, os de toda a gente, não estou a ser pretensioso),

apelando a humanidade numa chinfrania que metia dó. Até que se precipitaram para o rio, chamadas que foram pelo ondear prateado das águas. Fiquei a resolver o tempo observando o gesto das pontes enquanto as sombras se faziam tarde.

Quando virei costas e enfiei as mãos nas algibeiras, o crepúsculo era de silêncio.

7 de abril de 2005

véspera

Não estive cá a semana passada.

Passeavam pela berma os cães num desfile de urinas, ladravam os cães palavras que não se entendiam, e as trelas eram puxadas, tensas, perto

(sempre)

de uma crise qualquer que as distendesse, para além dos buracos das ruas, e nada podiam fazer, apenas esperar

(no meio dos latidos)

que a tarde, acabada, viesse a ocultar os rostos que gritavam silêncios.

Era a véspera: que farei quando tudo arde?