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11 de junho de 2006

esquina

O passo dobra a esquina saindo de encontro a outras sombras que o ruído produz e oculta, naquele declive onde o olhar não penetra senão pardo. O vulto avança e desvia quaisquer arestas de hesitação arfando abafado pela distância, e resoluto de toda a sombra que alimenta. Abandonado num tempo abstracto de uma solidão réptil, há um cão rosnando e, subindo na negridão, uma coruja assobiando, ambos num abraço com a ténue luz que brilha tosca e taciturna, informe. Únicas vozes que testemunham, como água que arde evaporada na atmosfera quente de tudo que se levanta sem poeira. Dobrada a esquina, o passo prossegue suave sem ruído. É invisível e some por uma incógnita, como desde sempre e nunca.

8 de junho de 2006

insurge: és

Não sei quantos anos ainda ou se as varandas se cobrirão de pó e humidade e insectos com as horas esbatendo-se sobre a claridade dos dias e a sombra das noites, enquanto as flores deixam de suspirar sobre as bocas indiferentes. Sei de um ranger de dentes e um punho fechado. E tudo quanto te aflige enquanto a fome for ainda e só um homem de cócoras e de braços cruzados sobre a vida que já não o espera. Ressequidas vão as flores ignorando o pretérito perfeito do esquecimento. Não uses advérbios de modo, que não te inquiete a rotação e os ciclos, abrir e fechar, nascer e morrer. Virá o dia em que os segredos de deus germinarão sob o suor do teu corpo e saberás agraciar a criação do mundo como se raízes trazidas nas polpas dos teus dedos.

Insurge: és.

29 de abril de 2006

ocaso

Olá. Vim espreitar o ocaso da tua razão plantada sob a colcha tecida por antigas paixões e sorrateiras solidões. Têm estado uns dias óptimos, não tens reparado? Já não me lembrava de uma primavera assim, tem sido sempre a água o retrato cinzento das janelas… Mas agora vêm-se as pessoas de roupas leves, as esplanadas povoadas de cerveja, o rio espelhando o azul do céu… Banalidades, dirás tu, para quem apenas lhe resta uma colcha e longas horas de sono. O teu corpo parece cristalizado entre as sombras da humidade que a velhice das paredes deixa a descoberto. E por mais que afaste as cortinas, a luz que vem da janela não vence a lugubridade do quarto. Os teus movimentos respiratórios são um acorde monótono que não lembra a vida. Estou de saída, e pouco te importa, não é? Queres mesmo saborear a despedida transformado no bolor por onde ruirá o sentido da tua existência. E a destas paredes. Não vale a pena a mão que te estendo, já não sabes dos afectos. E assim te deixo, no remoer das vagas memórias que ainda terás. Mesmo que a última seja a cor desbotada da colcha onde deitaste a vida a morrer. Até amanhã, se o dia para ti voltar a nascer.

9 de abril de 2006

descartáveis

Somos descartáveis, peneirados com insistência até ao sal da nossa pele. Marcados, cambiados, clamados, vendidos ou emprestados. Na tua voz colocam um selo de garantia que não podes quebrar - estás ao abrigo de um procedimento interno, de um contrato.

Até que a terra te engula, sabias? E certo dia tudo terá acabado, assim como se esvai a cor dos jardins à medida que a tarde avança como pluma sobre a vida e os relógios. É o gesto de um cigarro, ou o folhear de um livro. E tu repeles a ideia como se acreditasses que alguém fica para semente

- Que parvoíce estás tu aí a dizer?

e ninguém é semente, porque ninguém amadurece completamente para a deixar, para o ser. Ficam sempre resquícios de algo que não se fez, um sonho qualquer que fica sempre para trás, adiado constantemente

- Agora não pode ser, talvez mais tarde,

de modo que, quer queiras ou não, um dia tudo terá acabado, e como ficarão os objectos, as roupas, os sítios

- Onde está fulano?

para todo o sempre órfãos ou muito mal adoptados por quem fica.

Então falam-te da obra deixada, da memória que deve ser respeitada, e coisas assim, tão circunstanciais como a própria partida, que é somente um simples momento e nada mais.

19 de fevereiro de 2006

máscaras



Sinto-me entorpecido apesar das melodias conciliadoras que tanges. Apático e aflito porque não cumpriste com as promessas que nos fizeste. Havíamos pois de partilhar a solidão nascida no teu colo. Nada será jamais tão puro quanto esta solidão. Pouco fará sentido, e parece-me apreender-te pelo fundo desfocado de uma lente. Se mais alguém aqui entrar, quedar-me-ei sentado ouvindo o murmúrio dos horizontes. Noutra circunstância não chamaria a isto solidão, e talvez reconheças as máscaras hediondas com que fecho o rosto, brutalmente estulto, embotado, e acredita que sempre o evitei, sabes? - sempre o evitei.

Lembro que quando éramos crianças sabíamos onde e como parar, mas acontece que os bons rapazes cresceram a destruir a ingenuidade. Ninguém acabou por ganhar ou cumprir o que fosse. Mesmo nada, mesmo ninguém. Só a solidão, e estas máscaras com que fecho o rosto.

Abres-me o horizonte?


[tradução livre da letra da canção Comforting Sounds dos Mew, com as necessárias adaptações.]


8 de fevereiro de 2006

nado-morto

Vamos apascentar a fadiga e devolver o sangue derramado à terra. A tua confissão é um novelo de pó com o sol e a chuva e toda a miséria emigrada do teu corpo - um país sem fronteiras, mas um condomínio perfeito. Diz-se morte mas não acreditamos, são todas as cicatrizes e a raiva e os prantos, todos os gritos emparelhados como bois que abrem a terra. O aconchego do teu colo exalando o livre odor acre. Acredita-me. Não são madrugadas recicladas ao espelho. Tão pouco a aceitação do destino. Será sempre o vigor crescido dentro da nossa saliva, com os restantes humores à mistura. De terrenas náuseas.

2 de fevereiro de 2006

a condição

Cedo à paisagem e ao frio a minha perspectiva do futuro. Sabemos todos que nada será como dantes e quem assim não pensar seguirá enganado. Mas os rostos que passam parecem-me os mesmos rostos de outrora, e a terra germina agora as mesmas sementes de antes. Um aperto de mãos, um afago, um beijo que poisa aqui e ali nos afectos, vozes que falam e vozes que se calam, braços que lutam e braços que baixam os seus esforços. A mesma sede, a mesma fome, a mesma fartura para quem não bebe ou come. As mesmas janelas. Sobretudo as mesmas janelas apontando aqueles horizontes. E eu cedo toda a minha perspectiva do futuro à mesma condição de sempre: onde é a saída desta anciã caverna? E porquê as mesmas sombras, sinónimas de todas as palavras e actos que urdem a nossa história?

2 de janeiro de 2006

asas

Fui buscar-te ao fundo sombrio do papel negro onde escondias a raiva acossada por fantasmas e labaredas. Balbuciavas convicto de um grito surdo e com os pés remexias as cinzas espalhadas numa procura desesperada e vã. Resgatar-te a meio do suplício era uma missão inadequada e melindrosa e soube reter-te entre a baba da raiva e o ranho da exasperação. Arreavam as asas que sofriam e ela estava lá, tu sabias que ela estava lá e as tuas mãos empedernidas de alcatrão e destroços aguentaram-se quedos apesar de toda a força da tua voz. As asas de Londres, essas, ardiam como um dirigível alemão.

21 de novembro de 2005

diferente sempre


(autor desconhecido)

É diferente sempre o que pensas de mim. Arrumo-te a um canto da boca a soletrar patetices como quem desfolha o malmequer na esperança que a conta lhe abra portas esotéricas para um amor de todo impossível. A música rompe num lamurio de lágrimas contidas, como se a raiva fosse possível neste espaço. Olha que não é… Rasgas o papel numa incontinência de frustrações e nada te devolve o sossego. E assim se conhece um pateta: o olhar esbugalha-se perante o que não conheces, o que pensavas não ser possível. Estás na exacta posição de rato de cobaia, serves-me na experiência de que o ser humano é um bicho amedrontado pela solidão. E a solidão nada mais é que uma simples sombra. E debitadas a frustrações, não te lembras que onde há uma sombra há uma luz por onde poderias sempre fugir. Porém nunca saberias como fugir de ti mesmo, não é verdade? Como seria? Um grito? Uma carta de suicídio? Penso que talvez a cobardia, como qualquer ser humano…

15 de novembro de 2005

de pé

Aguenta-te como as árvores. Dizem que morrem de pé, escancarando a boca dos ramos num esgar de perene agonia. E sem mudar de figura secam até ao esqueleto, depois de levadas a enterrar no húmus do tempo. Se as esquecem, serão ingratos. Por isso deves aguentar-te firme, assim como uma árvore. Ignorando intempéries, catástrofes de maior calibre. Cada dedo teu o ramo que deixará, ano após ano, de ver nascer as folhas dos teus gestos. Secarás até ao esqueleto, e se o tempo também te recolherá, terás ainda o perfume da terra que te plantará na língua toda a eternidade.

Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.

Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca.

2 de novembro de 2005

passarão os dias


foto de Jorge Marçoa em 1000 imagens


E passarão os dias e a voz quieta. O sono será talvez mais profundo, e a memória não quererá guardar o resquício dos sonhos desbaratinados. Virão outros dias, e de braços mais vigorosos, com a voz limpa e cristalina a debitar os mesmos delírios que me ouvias ontem divagar prostrada na tua paciência inclinada para a efemeridade.

Como se dissesses Cala-te!, e o meu ar amedrontado te desse a força que precisas para impor a tua presença neste meu mundo que te ignora constantemente.

Passarão os dias e verás que o que fizeres será em vão. Este é apenas um estado de crisálida que inventei, uma série de nuvens negras que deixo abater-se sobre o meu corpo, e que por sua vez procura o abrigo do teu – tão calmo, tão tenro, materno até.

Quando acordar não será necessário que me faças calar, a minha voz tomará as asas a que um dia lhe tiraste o vigor do voo, e nessa altura, estarei pois de voz limpa e cristalina para calar definitivamente, dentro de ti, os fantasmas e as sombras com que me sacodes diariamente.

8 de outubro de 2005

fungos

Na parede nascem os fungos com a súbita progressão da música abalando a sapiente leveza do cotão varrido no soalho e o farelo da cal que desce do tecto. Veio uma nesga de sol acender o brilho das unhas que repousam a manhã abreviada. Ergues-te num pulo de ave marítima, e tocas-me com o bico da tua boca desfeita na cinza do primeiro cigarro.

Na parede crescem os fungos e já te custa respirar o sal que a brisa pulveriza sobre o corpo encontrado na janela.

27 de setembro de 2005

ciclo


A Despedida, por Lucemar de Souza


Nunca assumi a despedida, nas minhas partidas. Nunca esbocei o adeus, tão pouco o até breve. Na verdade, nunca gostei de partir e que partissem de mim. Estico as veias até se diluírem na distância. Por isso sofro cada saudade: é um ciclo de paixão que se inicia, em que os lugares doem, as pessoas doem, o medo de esquecer rói na voz tremida ao chamar o nome, os nomes, que partem de mim. Escrevo na ansiedade de abolir o significado de um embarque e a distância de uma carta. Partir para mim será um eterno retorno, e por isso um ciclo aberto. Nem perante a morte sei dizer adeus. A memória é a verdadeira viagem, o porto de embarque e desembarque para as despedidas que a vida não dispensa. E assim vou encurtando a lonjura do que parte e regressa, cá dentro de mim.

23 de setembro de 2005

corpos frios

Sabias que a morte transpira madrugadas como quando tens pesadelos? O suor frio das convulsões. A dolorosa contenção dos espasmos.

Tudo tem o toque da pedra depois de parida e abandonada na sua agreste natureza. Tudo primeiro é um pó, que vai ardendo aos poucos enquanto os relógios do cosmos compõem o seu mecanismo. Vem depois fervilhando como o sangue, como a paixão que te coloca uma cruz nos ombros. Ao nascer, vindo do mito da ressurreição, solidifica com os beijos do vento e as crinas das chuvadas. Nasce para morrer, é cristo fidedigno. E duro que só a água mole.

De modo que… Se o que pretendes é conhecer-me o hábito e trocar prazeres menos mundanos, prefiro que me não toques, pele com pele, carne com carne. Lê-me, antes. Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios.

14 de setembro de 2005

estender a mão

Estendi a mão apenas para saber o que poderia acontecer. Não esperava grandes manifestações afectuosas e alegrias inusitadas. Era apenas um estender da mão, como outra coisa qualquer que se estendesse ao ar, e perante os olhares.

Um ambiente apreensivo. E a resvalar para a incompreensão. O que queres de mão estendida, perguntaram-me, na margem entre o medo e a repulsa.

Nada, foi a minha resposta.

Da fúria, as pedras então atiradas fizeram com que recolhesse novamente a mão à algibeira, e a noite deslocou-se dentro de mim.

6 de setembro de 2005

peste

A questão não era ter que levantar-se. Era, isso sim, levantar-se para o mundo, de olhos cegos pela fadiga e lábios ressequidos pela febre.

Para quê então ter que despedir-se do leito que lhe embalava a raiva do sangue?

Mas tanto insistiram que se levantou. Levantou-se e caiu, porque o mundo segregava prurido pelas entranhas e fedia como animal morto sob o sol.

Parece-lhe que, afinal, o inferno sempre morou aqui ao lado...

25 de agosto de 2005

o inferno nas têmporas



Thank you, O Lord
For the white blind light
A city rises from the sea
I had a splitting headache
from which the future is made.


James Douglas Morrison


Tenho tanto por ler e o país arde num crepúsculo seguido de romas repetidas. Dói-me a cabeça para entender o que me dizem os livros e os meus olhos embaciam com tanto fumo. Erguem-se os esqueletos das árvores, das casas, e lateja-me nas têmporas a aflição de quem sente sem o apelo da morte o inferno a dominar-lhes para todo o sempre a memória em vida. A televisão vomita-se agoniada entre o futebol e o mundo explodindo aqui e ali. A velha senhora lembra o tom profético de quando ouvia dizer em nova que um dia se veriam coisas que nunca se imaginaria chegar a ver-se, e quando olho para trás sinto sobre mim o indicador apontado no ar, severamente, do velho das botas caído da cadeira. Tudo isto é um pesadelo, penso, só tenho sono. A tarde já morreu para os lados do rio onde as crianças vão passear os patins, os triciclos e as bicicletas. Há um jardim perto, colorido de flores e relva proibida de pisar. Se o fogo consome o paraíso dos que guardam entre as mãos a fé e as palpitações do medo e do desespero, aqui o rio é uma ironia onde os sorrisos parecem surreais, como se não estivessem todos no mesmo país, no mesmo planeta, como se a realidade fosse a milhares de anos-luz. Só assim se compreenderá tantos sorrisos à beira água de um rio que não arde como o mar de chamas sobre as serras, sobre as aldeias, na minha dor de cabeça…Talvez seja um cobarde, por virar agora as costas e querer dormir, querer que o latejar das têmporas simplesmente desapareça, sem ouvir e ver a mais nada. É ambição minha juntar um sorriso meu aos restantes. Sou um reles humano entre os demais.

3 de agosto de 2005

quantas janelas?



quantas janelas há para uma rua?
aqui sossegam os peitos roliços dos pombos
e nascem alvoradas no parapeito
sempre que inspiro e expiro as madrugadas lentas

a fruta desmancha-se em sangue nos meus dedos
e agora também os pardais sentem
que aqui, nesta janela com vista para tudo,

o mundo pode acontecer
como se eu fosse Colombo e as minhas naus
a saliva espreitando, ancorada, em cada esquina.

diz-me: quantas janelas pode haver para uma rua?

29 de junho de 2005

céptico

Não sei suportar a normalidade e a simpática hipocrisia deste mundo. Se falasse em suicídio, viriam todos correndo com as mais belas palavras como que tiradas a varinha de condão de uma cartola. Sei que não estou só, mas sei que ainda estou longe.

Resta saber se realmente vale mesmo a pena.

23 de junho de 2005

interioridade

O relógio mastiga as horas com a mesma paciência vagarosa com que as gruas se movem no horizonte. As pessoas acontecem, são fenómenos na paisagem, munidas de um silêncio que tende a magoar os meus ouvidos. Cá dentro as máquinas vibram, e sem as pessoas que aqui habitam as oito horas laborais, tudo parece sossegado. O sossego daqui é uma realidade que se sobrepõem ao fenómeno do exterior. Enquanto nada acontece ou enquanto o tudo não se manifesta, este instante individual, egoísta, solitário, é a verdade. Sou eu e o resto paisagem. Só quando o primeiro telefone toca o meu umbigo diminui, e nos meus gestos do quotidiano deixo de ser quem sou, para ser parte de um todo, em que somos entre muitos.