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2 de outubro de 2007

agora sim

Agora sim: o rebuliço manteve-me acordado e posso respirar sem sentir o peso que ardia sobre a minha voz. Já não estarei aqui pelo quanto aqui estive. Vou erguer-me na escadaria onde corríamos brincando às escondidas, e rindo, sempre rindo. Não fazia pena quando chovia: fugíamos a ver o arco-íris. Não importava o vento: ululavamos aos papagaios de papel no sete-estrelo. Claro, e sempre sorrimos à cor dos malmequeres e das papoilas e sabíamos o sabor da brisa nos dias mais quentes. Devorávamos os gelados comprados com moedas gastas e nas mãos ficava o açúcar que se pegava entre os dedos. Éramos assim, e brincando à escadarias, erguia-me pela escondida voz que ardia sobre o leito, sorvendo a chuva que ululava ao vento, nas fotografias via-se o arco-íris fugindo para o seio dos malmequeres e das papoilas que gastávamos com moedas pegadas pelo açúcar da infância, e tudo não era aqui conforme foi ontem e é hoje e não será amanhã, porque agora sim, meu amor, se acordei, tenho o peito refrescado para te recitar, na voz que se afina beijando a pluma da manhã, o soneto com que adormeci:


Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.

Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.

Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.

Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?



(soneto de Sá de Miranda)

18 de setembro de 2007

levaste a morrer o dia


Anne Ferran


E onde deixaste correr as lágrimas, a fadiga veio sobranceira ao teu corpo para te tragar adormecida num abandono imerecido. Inquietam-te os sonhos abortados em pesadelos, mas não é isso que te desocupará agora do sono que ferraste.

Levaste a morrer o dia, estrebuchado no sofá a que te rendeste, com o lenço enrodilhado nos nós dos dedos de tanto morderes a dor. Uma nesga de sol procura-te no espaço entre os móveis, sacudida por uma cortina ténue de pó. Foi recolhendo devagarinho à paciência da janela numa descida de sombras disformes, acabando num silêncio de relógio de parede, acrescentando tempo a nadas, abstracções da tua ausência.

O teu corpo aí adormecido no colo do sofá, indefeso e em posição fetal. O rosto sulcado pelo sal das lágrimas evaporadas. Órfã de beijos, ombros e abraços. O mundo prossegue grotesco com a infidelidade de não saber reconhecer este teu sofrimento. Protege-te apenas a sombra, engolindo os ângulos das paredes, velando-te com um sussurro de preces.

Esperam-te os escombros quando pressentires o rendilhar espantoso da manhã. Então vais morder as aparências, ainda que enlutada pelo esquecimento.

16 de setembro de 2007

por medo


foto de Francis Leonardo Cirino (encontrada aqui)


Se tudo continua por dizer e palavra alguma se acrescenta. E no entanto a suspensão dos lábios, as reticências no olhar sobre a lisura da parede. Esboçam-se gestos no vazio, as mãos gaguejando exclamações moribundas, os dedos apontando interrogações desarticuladas como se tornadas blasfémias, a conspurcar a moral enquanto se vão colocando dúvidas acossadas na última página de um livro pobre a que se acaba o papel, sem espaço para o “e depois?”, e as palavras descarriladas, vertiginosas, sem vocação para o abismo. Fica-se de boca aberta soletrando o silêncio, num caos de disfóricas onomatopeias para o medo.

O medo! E tão tarde é agora para recear, para temer. Sacode-se a comoção com um suspiro lento, os braços levitados desmaiam-se sob a gravidade do peso, e o corpo é um hábito cansado, uma masmorra ofegante, insidiosa e diluta ruína.

Por dizer palavra alguma se acrescenta. Porém o horizonte chora, murmurando a distância. Como se – e com pouco ou nada: a boca treme nos seus últimos espasmos, vindo a morrer fragmentada quando tudo enfim se quer e se transforma em objecto dispensável.

28 de agosto de 2007

depressão


autor desconhecido


A linha do horizonte é recortada pelas memórias, num vai e vem instável. Recolhem-se os objectos no escuro engolidos pelas sombras pardas do entardecer, o sangue da última luz do dia repousa coalhado no solo fertilizando vãs esperanças.

O grito é uma voz impotente. Toda a força da voz é sussurrada e em surdina. Impondo silêncio.

Persegue-te a serra, entrecortando a linha do horizonte sob as crinas das nuvens fustigadas pelo vento, vindo escuras e agoirentas. Empurram-te para o mar, diluindo o ocidente na luz fosca que cai agora enquanto recolhes o olhar.

Guardas-te pelo crepúsculo e esperas que escureça definitivamente. Vais mergulhar no medo orgânico e retirarás das tuas lágrimas pesadas mágoas que abafam o mundo. Para mais nada, para um nunca mais. Sem que ninguém te perceba, sem que uma mão, um braço, um ombro. Ao abrires palidamente os olhos, choverá em teu redor.

Não saberão resgatar-te.

22 de agosto de 2007

solidão morta

No princípio ainda vinhas beber do meu olhar vazio a sede das noites com que os teus sonhos te inquietavam. Depois a tua imagem deixou de ser material, fantasma colhido do espelho adormecido na sombra. Acabaste como uma memória vaga, solta pelas palavras que partiram da tua boca violeta tingida de indiferença quando disseste que não podia mais ser.

Ainda hoje equaciono: não podia ser mais o quê, quando nem quê nem mais para prosseguir?

Poderá este meu olhar vazio amar-te na dor concebida para lá das margens do meu leito tolhido de doença? Fugiste de mim e deixaste um deserto frio. Morro aqui, como navio encalhado entre rochas e sei, não virás ver-me como o fenómeno que partiu.

Morro imunodeficiente. A única ideia que quero com que fiques é que o frio é uma solidão morta.

11 de julho de 2007

lírios


fotografia de Joana Lorça (daqui)


Não

(por favor)

não acendas ainda a luz nem corras os estores, deixa marinar um pouco mais esta ressaca na sombra dos meus pesadelos mais recentes, tragados a fel de nostalgia e desespero. O dia fervilha de luz na ombreira da porta e a manhã, sabes

(a manhã que sempre me espantou com a sua boca delicada de lírios)

não iria continuar se me mostrasse plantado entre olheiras neste rosto de granito. Chovesse talvez

(essas pérolas que ainda me adoçam a alma)

e estenderia a mão afugentando o fumo dos cigarros para ver as vidraças tristes, mas bem vês que não há chuva ou correm nuvens de oeste, nem sequer nevoeiros que me ajudem a suportar devagarinho os nós e as correntes que me afligem, a levantar-me desta preguiça visceral de medo, de tudo o que já não ouso respirar. Há o sol

(perguntando duvidoso nos estores da janela)

que aguenta a manhã no brilho das flores e eu sem coragem para te oferecer um beijo, dizer que te amo como se bom dia, qualquer coisa que

(vais dizer-me que não há motivos)

pudesse fazer ou dizer para que não temas, não receies. E não te afastes. Não vejo o teu rosto, bem sei, mas sinto-te o olhar gritando e nos lábios o mesmo fervilhar do sol lá fora nesta manhã de verão. Tudo arde e grita e ama e a minha pele acinzenta-se com golpes de solidão

(a manhã perpetuando as horas na esperança que)

e dizem-me mais uns dias, num risco de voz trémula

(com pena?)

como se isso não fosse o bastante para contar uma eternidade, desde que te sinta as mãos a medir-me a testa e o resto sombra, para que não perceba o teu lacrimejar, gotas de mar mediterrâneo que me prende ainda mais à vida, e tenho medo, tu sabes que tenho medo e sorris

(a manhã perpetuando as horas na esperança que venha saudá-la para me deixar mais uma pequena brisa de vida, restaurar a cor da minha pele)

e tudo seria para mim tão patético e lamechas como um daqueles filmes que assistias aos domingos nos intervalos das nossas tardes de amor durante o inverno, mas agora tornou-se tão sério desde que ressacas dias e noites a contar a origem do fim.

Diz à manhã

(por favor)

que se deixe crescer, promete-lhe que os lírios levo-os comigo. E quando o corpo arrefecido, permite que o sol desfaça a sua curiosidade.

28 de junho de 2007

de súbito


autor desconhecido

De súbito, a inclinação da luz. Diluindo as sombras do sono. A cabeça em desequilíbrio, atordoada da almofada por render durante três dias e três noites. O corpo abandonado a uma rodilha de lençóis fedendo. Uma garrafa tombada no chão, sobre o charco seco de vómitos sucessivos. Era tarde nos ponteiros do relógio embora as horas permanecessem inconstantes, voláteis. Porém, denunciadoras. Como a luz inclinada sobre a parede, acordando as sombras, buscando uma memória confusa.

Um vazio no estômago. Um frio de encolher as pernas. Lutou para manter as pálpebras abertas numa coragem envolta de fadiga.

- Não acredito em nada disto.

Estendeu a mão ao controlo remoto do televisor e fez-se ambiente de cor e sons dentro do quarto entorpecido de mofo e pó.

De súbito, a amontoar visões e vozes sobrepostas às que vinham do concurso da televisão. Dor: como uma morte, enlutara. Viúvo de coisa viva prometida a não regressar. Entregue ao tudo acabado. E nisto, esse tudo dos dias anteriores a romper perfilando-se na mente estalando de medo, tédio, vazio e ressaca.

Fora uma frase simples, lugar-comum de dramas e comédias românticas, a roçar o mau gosto. Dita entre os lábios desejados de carne, sob um olhar convicto de efemeridade:

- Adeus, meu amor.

O nunca mais traduzido. Conjugado em todas as pessoas singulares e plurais do presente e do futuro. Havia-se deitado com lágrimas do passado, ancorado numa garrafa a borbulhar de álcool na boca. Depois disso, afirmará, não se lembra de qualquer gesto, de qualquer certeza, de qualquer dúvida. De qualquer luz. Até que, de súbito.

24 de junho de 2007

saliva dos dedos


autor desconhecido


Ampara-me da incipiente ilusão da escrita com a saliva dos dedos. Por trás de nós a variz de palavras incomodadas com os sentidos, em negação das parábolas. Fico exausto de língua e ranho pendentes à flor do espaço aberto dos papéis densamente iluminados. Queria estar ali a desejar o quanto cá desejaria ter ficado, e porém os literatos são vermes sujos acomodados na cama dos princípios e das verdades imaculadas, não valendo para o susto das invejas verdes de “o-quanto-essas-palavras-me-pertecem-ó-palerma”. Já não acredito em espelhos a devolver a identidade dos sonhos-vocábulos entrincheirados no chão perto do cesto dos papéis. É como quando nos seca a tinta da pena ou o carvão do lápis quebrado a meio de uma frase, e a raiva despoletada arrasta com grilhões a frase perfeita para o baú olvidado dos esquecimentos eternos, tal carteira ripada pelo larápio que a polícia seis meses mais tarde nos pede para resgatar numa esquadra em fins de província, gasta, violada, sem um ponto qualquer de dignidade que carregue ainda a certeza da nossa propriedade.

Abandonamos as frases perfeitas para os outros, abutres que esperam os sonhos mortos na esquina de um caderno. Há falinhas mansas seduzindo a nossa vaidade com epítetos laureados, e então somos como que injectados de uma respeitabilidade sem alicerce, uma trama urdida para que a queda seja dolorosa. Não estive lá perto e tu mesma reviras os olhos sem emoção. E isso intriga-os, fazem caretas nas sombras entrelinhadas das críticas.

Isto não é um lamento, apenas preguiça. Uma preguiça sem contexto. Prefiro as sortes dos sentidos. Por isso te peço: salva-me com a saliva dos dedos, antes que tudo recomece. Dá-me o teu corpo que as palavras desta vez ficam lá fora a especular o princípio e o fim dos nadas.

22 de junho de 2007

a tua morte a minha viuvez

O verão deve ter chegado para ficar, disse a rádio e os ramos das árvores não descansam fustigados pelo vento. O céu lembra-me as tardes ainda mornas de outubro quando o sofá me recebia de chá nas pontas dos dedos, os óculos no rosto e um livro volumoso, de capa nova, o perfume denso do papel. Do jazz ao fim da tarde durante um banho de imersão. Das horas preenchidas de cigarro a diluir a noite chuvosa. Lembra-me tudo

(talvez ainda a tua morte, ou a minha viuvez)

menos que seja o verão chegado para ficar. Se as paredes dos prédios são cinzentas, mais plúmbeo me parece o céu. E as gruas paradas, pacientes com a rudeza do vento. Bebo vinho, para dissipar o sabor a terra

(da minha viuvez, da tua morte?)

que a chuva tem. Bebo para buscar o travo do fruto vermelho que não vi amadurecer. Algures, não aqui, não hoje, há sol e as mangas curtas imperam. E por isso a rádio com sorrisos para lá dos transístores. Porém aqui

(na tua morte, na minha viuvez)

não veio (virá?) o verão. Chá e mantas. Cigarros. Janelas com vento nos ramos das árvores. Os óculos, e o livro com todas as páginas que faltam para completar a minha finitude.

19 de novembro de 2006

tardes pardas


autor desconhecido


Abro as mãos sob a chuva a tentar compreender o teu pranto saciando as tardes pardas. São chuvadas fortes, magoam-me as polpas dos dedos e sulcam nas palmas outras linhas que não me era permitido observar. Esgueiro-me dentro do carro, acudindo o meu corpo encharcado e sigo numa marcha lenta

a mesma lentidão das tardes pardas

engolindo aos poucos o brilho da luz falecida nas poças de chuva subindo na estrada. Vejo outros carros circulando mas é a cidade deserta, ainda que sob um guarda-chuva passe ligeira uma ou outra pessoa, vão de cara fechada, vão anónimos, e por isso as ruas desertas

enquanto nas polpas dos meus dedos a chuva do teu rosto

carpindo

e o meu medo de tocar no teu fundo, no fundo de tudo

as insónias da madrugada anterior.

Quando houve a manhã com promessas de sol pensei que um sonho, um pesadelo, mas eras tu que crescias dentro do dia acinzentando-se. Houve o almoço e o apetite em luxos de cerimónia

- Não quero mais, estou bem servido.

e nada disso. Apenas a vontade de fugir

eu com medo do fundo para onde me arrastavas, eu basta e tu sempre insistindo

com a água cercando-me o equilíbrio das emoções. Não compreendo a tua chuva, apesar da mesma lentidão e das mesmas sombras pardas. Quiseste-me em ti, dentro de ti

sustive-me nas esquinas dos teus lábios, mas arrependido sacudi-te, porque o sal

como quem avança no mar e se esquece do fundo

o sal um amargo de vida a que não queria retornar; liberta-me, esquece-me.

Para quê o mar violento e salgado como a morte, se esta chuva, se estas tardes pardas? Sabes, perdi a vocação para a tortura. E para os abismos.

5 de julho de 2006

deserto

Ver passar os dias e tudo sem acontecer, cá dentro. As ruas trazem rugidos de feras motoras, fumos, cheiros, e também coros de vozes que não se entende o que vão dizendo. O vento é como uma criança, soprando incauto contra os ramos das árvores estátuas, dilacerando-se na altura dos prédios, o sol erguendo-se todas as manhãs num mesmo brilho multi-milenar, sempre sem cansaço. Tudo tão naturalmente eterno, estendido entre o antes e o depois de mim, e eu assim aqui, assistindo passivamente sem nada acontecendo cá dentro.

Não é bem verdade: envelheço. Como as cortinas frágeis amarelecendo na janela que com os dias e os anos vai parecendo sempre e cada vez mais cinzenta, mais sombra que luz. Envelheço como os edifícios vão esboroando, ou como as ruas perdendo-se no solo sem nunca recuperar o fôlego. Há imenso tempo que nada ao meu redor é deserto. E, no entanto, é um deserto que sinto espalhar-se cá dentro em que os ruídos, os movimentos e a luz serão fantasias, miragens. Naufraguei imergindo em mim mesmo. Envelhecendo, porque os dias não ficam sem passar. Mas só isso: envelhecendo. Onde foi que me perdi?

19 de junho de 2006

estilhaços




Não pares na corda bamba. Segue construindo o teu destino, ainda que todos os desequilíbrios te pareçam fatais e derradeiros. Somos todos assim, seguimos o caminho e não podemos contar com a mão por baixo a amparar, sob o arame. E se cairmos mais nada acontecerá que um estilhaço do espelho onde nos olhamos vendados pela lógica e pelas consequências.

Sentes o peito como se fosse explodindo, e a cabeça rodopiando desesperada no espaço confinado pela angústia da existência, não é? Angustia-te existires, com medo que o círculo não se cumpra, sempre com o medo de não te encontrares no fim da linha. O medo de não haver reencontro, a incerteza do retorno. E surge aquele momento, pequenino, um bichinho que te molesta os sonhos, mais tarde sobressaltando-te o despertar para depois um monstro já, uma permanente obsessão que nem adormecer te deixa. De que a morte talvez. O conforto de não haver vertigem, o espelho de uma vez por todas estilhaçado, o não retorno definitivo. Sem o cansaço de todos os dias a ameaça dos desequilíbrios.

Não. Não faz sentido, sabes? Pelo menos tenta manter-te aqui. Não prometo que seja a mão por baixo que tanto procuras, mas estarei presente, quando necessário reunir quaisquer que sejam os estilhaços.

18 de abril de 2006

alvorada


Etéreo Paraíso, por Victor Melo em 1000 imagens


Porque tens frio? Se a Primavera pisou o seu primeiro passo na alvorada dos nossos sentidos - acolá as árvores florescem, e no céu a Lua repousa pálida, enquanto Vénus se vislumbra com brilho; entre a fragrância da giesta e dos malmequeres uma borboleta branca dança, em espiral; e o Sol, erguido ali entre o colo dos montes, ilumina a púrpura manhã, acordada de sonhos.

Diz-me onde ouves as aves, no seu chilreio de plumas e orvalho, para que te possa encontrar; e com os meus lábios, tal rosa aberta, te venha a aquecer num beijo que te acaricia:

- Bom Dia!

Porque tens frio? Abre o teu peito cor do dia que se inicia e com a tua pele cheirando a feno acena ao meu desejo; torna-te rainha coroada de heras e pétalas coloridas, e vem, vem despertar o meu corpo pleno das tardes em que o crepúsculo te embalará numa toada de mar.

Estava talvez sonhando? Fecha então a janela, enquanto a manhã, e as águas cristalinas de Abril, harmonizam com o som da guitarra que dedilhas delicadamente, e me beijas, num sopro de luz, ao responder-me

- Bom Dia!

12 de março de 2006

isto que sinto

Isto que sinto não foi a morna tarde empurrando-me do retiro mórbido em que ostento uma fria solidão. Não para falar ao sabor de uma cerveja e de alguns cigarros lentamente queimados nos trilhos das conversas. Não foi essa fugaz paz interior, dessas que de tempos a tempos nos é permitido aproveitar. E não foi o teu corpo escandalosamente aberto sobre o trigo ainda verde.

Não foi nada disso: isto que sinto foi apenas o hábito de um mundo fora de mim que eu me esquecera, já há algum tempo, de ver despertar.

É chegado o momento de ser eu novamente, em voo livre.

21 de fevereiro de 2006

redondamente

E agora persegue-me o chão redondamente multiplicado nas vozes que murmuram as manhãs cobertas de chuva. Chapinham os passos, anseiam correr, eu não sei que movimentos são, não sei o andamento, não sei dessas estranhas melodias sopradas constantemente, dia após noite, noite após dia, aos meus ouvidos como harpas que nascem já fecundas de novos horizontes.

12 de fevereiro de 2006

crepúsculo




A tarde acalma-se nos tons do crepúsculo. Com o odor da erva calcada nos parques. As portas dos automóveis batem uma melodia de regresso. Sacode-se o pó dos sapatos, acomodam-se os quadros das bicicletas nas bagageiras com promessas de uma e mais outras vezes. O formigueiro da tarde decompõe-se, breve os patos e os gansos e os cisnes poderão respirar de descanso, como aquelas pequenas aves nos ramos mais altos chilreando a conquista do galho onde dormitar as plumas. E enquanto o mar se enche espumoso das cores do sol, os automóveis circulam com gente dentro até as ruas da cidade murmurarem um silêncio de alcatrão ferido. Aponto o horizonte na fronte da minha caminhada e pergunto, ao som de Metheny:

- Are you going with me?

6 de janeiro de 2006

só assim

Quero estar sozinha porque só assim posso. Esconder a alma de palhaço e o pão duro de tanto tempo ignorado. Esconder o frigorífico abandonado e os cinzeiros com essa estranha vocação de ilhas vulcânicas. Quero estar sozinha e tentar o meu melhor: povoar o terreno lá atrás de preciosas flores que apanham o orvalho das manhãs que não conheço, pintar as cascas das paredes com as mãos se não encontro qualquer ferramenta, lavar – talvez lavar – a pilha que se amontoa aos meses e que justifica a sombra vazia dos armários e das gavetas. Quero estar sozinha e saber que de nada sou capaz, nem das teias varrer com a velha vassoura com metade da sua cabeleira.Vassoura velha. Paredes velhas. Janelas velhas. Móveis velhos. Roupa velha. Terra velha. Filão senil numa casa velha. E o meu olhar, envelhecendo pelos objectos o sentido de tudo isto que digo e escrevo. Mas vou continuar sozinha, porque só assim posso. Só assim posso vociferar Merda!, e abandonar o tampo da mesa que me tortura.

31 de dezembro de 2005

partida


por Luís Ventura em 1000 imagens


Vai cair a chuva sobre mim e não vou ceder um milímetro que seja do meu espaço. Caia a água vagarosa inundando a ferrugem dos carris, que eu fico aqui, nesta espera contínua. É o vento que lavra a terra batida e fustiga a erva dura, escura. O ar entristece-se com a partida, é um bocejo frio que se enrola num cigarro. Há-de chegar o comboio, e eu sei esperar. Quando o relógio for mais velho no mundo, ou um vagido reclamar a recontagem do tempo, estarei por aí. Ao abrir das garrafas. Na explosão das cores e dos céus.

A chuva já cai, escorrem pequenos ribeiros da minha cabeça para dentro do meu corpo, como se as veias se virassem do avesso, bombeadas pelo acaso, e o sangue vítreo da cor do nada. Da cor da partida.

E assim parece-me que o fim tem na sua cauda a semente de um princípio de tudo, para lá de tudo, para lá de mim agora aqui encharcado, sem ceder um milímetro do meu espaço. Se cedesse, deixaria que o pavor tomasse conta de mim, arrumando-me a um canto de pardas solidões. Talvez para sempre. Mas deixo-me estar firme como a pedra, que nem é dura sob a água que nem é mole. Não perderei a minha carruagem, e levo na bagagem alguns segredos.

Guarda-te para mim. Se ouvires as badaladas, não te enganes: serão os meus passos de sempre, antecedendo a envergadura da sombra do meu capote inundado.

1 de julho de 2005

sem dúvida um dia bonito



É sem dúvida um dia bonito. Como qualquer verão que se perdeu na memória da infância em que tudo (e tudo era mesmo tudo) parecia mais simples. Ou - melhor que isso - parecia simplesmente simples. Do pequeno quintalzito, onde, aos olhos de uma criança, era um mundo repleto de aventuras, povoado pelos animais, árvores de fruto e recantos de sombra para viagens inter-galácticas ou mais mundanamente ao volante de um bólide antigo que a imaginação comprava sem o desgaste do dinheiro ou a ansiedade de um crédito aprovado. Na paisagem da janela erguia-se, bem nos confins do horizonte, um morro onde nascia uma ponte de ferro carregando carruagens vagarosas. E o rio, mais abaixo, que subia nos sonhos mais abstractos, para delicadamente nos lamber os pés mesmo à porta de casa. O verão que não cheirava aos óleos das praias, mas a terra remexida. O verão que não rebentava nas ondas espumando-se com raiva nos corpos entediados, mas erguido verde, viçoso, no milho que ia amadurecendo as tardes entre o chilrear da passarada.

Não é, era. Era, sem dúvida, um dia bonito.

26 de junho de 2005

do colo da memória


por Manuel Antão em 1000 imagens

Cada momento de dor é um prenúncio de morte, assim como o lento gotejar de uma nuvem anuncia a monção. As pombas partiram daquela praça, isolando-me numa solidão de ruídos, em que cada aresta da calçada segue o rasto do meu passado. Todas as expectativas logradas, ao virar da esquina do tempo. Os sítios envelhecem para ceder lugar a novas gruas. Entardece, e no meu rosto vai nascendo uma sombra presa a uma fotografia que a memória, despertada por lágrimas, capta e imprime do espelho.

E num pensamento cai a noite. Todos os sons se calam respeitando o silêncio pardo e húmido da solidão. Tenho as mãos em sobressalto. Lentamente afago o meu corpo para a terra que equilibra os sentidos desentendidos. E a tua mão é um pássaro noctívago, que voa lacrimejando orvalhos sobre o colo da minha memória.