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14 de março de 2012

balada para Gabriela

foto de Georgina Noronha

Ergue-me um mundo novo, Gabriela, que eu já vou morrendo neste por ti, a alfinetar desgostos e frustrações nas frinchas que as paredes à minha volta vão abrindo, solícitas, pacientes e acolhedoras dos tremores com que vivo.

Vem um vento, manso e quase morno, desarticulando-te o penteado em suavidade, e eu desperto ronronando como felino, num espreguiçar atento ao movimento perfumado da tua melena. 

Eu, que queria morar nos teus lábios como quem encolhe o rosto numa ternura infantil, amordaçado continuo sobrevivendo nos sonhos onde supostamente me pertences, embora em redoma e inalcançável como os santos a quem se reza por mistério. Desvias o arrepio da tua pele sensível à primavera imberbe da polpa dos meus dedos, tão desnivelada quanto ao que sinto, que me questiono se é na mesma latitude que nos vemos, ou se serás espectral aparência de quem tanto deseja. 

Poderia simplesmente dizer-te o que quantos amantes dizem às suas amadas em afã epistolar. Mas por onde vai o mundo, Gabriela, que enredo possível para que pudesse sentir a tua mão cruzada na minha, como os amantes e suas amadas fazem? Fiquei a duvidar - confesso que duvido sempre - por segundos, mas ainda fui capaz de te chegar com um sorriso atrelado a uma esperança muito pequena e – bem sei, Gabriela – insignificante. Desse sorriso, porém, não te abala a lembrança, encostada que segues sempre na distracção por todos os cenários possíveis da nossa eventual trágico-comédia a roçar o mau gosto do cinema romântico nascido em hollywood. 

E, apesar de tudo, e de tanto isso que fazes e insinuas que me põe a tremer como varas perdidas de insegurança, apesar de estar de costas para a verdade, se me abrisses assim os braços como ao mundo os abres, e devolvesses a luz de um olhar mais cúmplice, poderia então jurar-te, Gabriela, que venceria o mundo por ti.

7 de abril de 2011

a primavera ainda só lá fora




Outra vez a primavera explodindo no meu corpo e nas emoções que venho carregando ano após ano, sem nunca esquecer o nefasto dia em que estivemos um perante o outro para a despedida, o voltar de costas doloroso, que continua magoando, mesmo quando os ciclos se completam e todas as outras pessoas, objectos, factos e eventos vão passando

(the same old song again).

E as noites a mesma constante: pardas e solitárias. Por mais que não queira ouvir repetir-me, por mais que tudo tenha vindo a perder sentido, é o mesmo desejo que me persegue. Ver-te, sempre uma vez mais para que o cumprimento dessa promessa que fazes por dó, de estar comigo uma última vez, consiga vencer a efemeridade que tenta afastar-nos definitivamente. Um último momento repetido até que se deixe de fazer caso, e continuarmos a rever-nos por um hábito adquirido, um vício que custe largar

(I wanna hold you once again).

Isto por nada mais que o tão simples afago que espero das tuas mãos, beber do teu rosto calado e resignado, porém tão consolador, a fugaz alegria de ter nos braços. O teu colo. Uma vez mais o teu colo dentro do beijo e o calor dos corpos carpindo a dorida saudade. Porque a primavera é só ainda lá fora, meu amor; aqui comigo continuam morando as monções, o negro luto das chuvas frias. E tu sabes tão bem como o mundo me magoa, como tudo não passa de um equívoco, se nada for contigo

(stay with me tonight until the sunrise).

O teu colo, Matilde, o teu colo: concede-me o teu colo e poderás abreviar-me o sofrimento que o mundo contigo me instiga, ano após ano. Um dia virá o inverno da minha vida e então aí deixarei de te pedir a primavera. Até lá, concede-me novamente a eterna última vez.

7 de novembro de 2010

exaltação a ofélia (glosando antónio lobo antunes)

O mar não é tão fundo que me tire a vida
nem há tão larga rua que me leve a morte
sabe-me a boca ao sal da despedida
meu lenço de gaivota ao vento norte

meus lábios de água meu limão de amor
meu corpo de pinhal à ventania
meu cedro à lua minha acácia em flor
minha laranja a arder na noite fria.

António Lobo Antunes, fox-trot nº 3, Letrinhas de Cantigas


Não devia haver mistério entre nós, Ofélia, somente beijos trocados com a paciência adolescente da delicadeza, sem qualquer trejeito de ansiedade. Cuidei que a ternura viesse para nos enlaçar nessa convulsão desmedida dos amantes e parti do porto do mundo soltando as amarras da jangada dos teus cabelos, numa deriva sem pressas ignorando sinais de tormenta. Feras marinhas não me assustariam e adamastor um gato manso que se curvaria ao meu afago. Perdido em ti quis embarcar, mas perdido de ti me vi naufragando quando o frio do entardecer te revolveu, emancipando as lágrimas no teu rosto e devolvendo-me, aflito, à profundeza das sombras. Porém, meu amor, o mar não é tão fundo que me tire a vida.

Dias sem palavras que não me explicaram as lágrimas precipitadas. Noites divagando sobre qualquer gesto que tivesse desmoronado o que numa troca de afectos se erguera como um império seguro. Os pardais vão recolhendo as plumas numa algazarra de chilreios entre as folhas mais persistentes que o outono avançando engole no seu crepúsculo de viuvez. Sou varrido por essa língua parda entre o grito vazio do meu quarto e as buliçosas criaturas na árvore. O deserto da rua configura um cenário trágico, como se o teu silêncio me tivesse despedido do mundo, pendurado nos barrotes do alpendre. Resisto: entro na noite à boleia do vento e sigo de novo sem destino. Não te concebo ainda perdida, nem há tão larga rua que me leve a morte.

Encontro-te num acaso de becos, por essa cidade imperfeita e gulosa de almas como a tua. Vens de abraços casuais e sem vontade, com os olhos injectados de qualquer coisa que desconheço. Porque me escondes dos teus segredos, serão tão defeituosos para que me apartes das nódoas que a vida te marcou? Todos temos as fraquezas que nos envergonham, somos de carne fraca e porém delicada, à mercê de vontades, miséria, conquistas, vaidade, luxos. Quero um gesto teu, um aceno para voltar a pertencer-te. Não vou ver o caminho que percorreste, quero dar-te um prado para te soltares selvagem e sem pudor, entregar-te de mim a liberdade que procuras. Vem para poder sentir-te. Não aguento ver-te sempre fugindo, Ofélia: sinto nos pés o chão deferindo a lonjura, e sabe-me a boca ao sal da despedida.

Diz-me que não é verdade a tristeza no nosso seio. Confirma-me que afastamos de nós a efemeridade. Que teremos com certeza o nosso mato para desbravar mas definido o nosso empenho para abrir o caminho. Não existe abismo no nosso mundo se a minha na tua pele numa ambição de simbiose perfeita. Esquece o esconso, os desvios mais angulares que te fazem perder de embaraço. Deixa-me quebrar o frio com a lenta progressão de um dos meus dedos acariciando-te a fronte, descendo pela face à base do queixo, na esperança de um sorriso. Daqueles que dizem tudo, que substituem palavras. Sem o abandono da pressa. Deixa amarrar-me no teu corpo, ó meu lenço de gaivota ao vento norte.

Já não vou aceitar mais a despedida, Ofélia. Ainda que partas uma e outra e mais outra vez. Serei a tua sombra, mesmo que me inflijas com o desdém. Saberei que não virá do fundo de ti, será apenas superficial, signo da fraqueza que te opera a insegurança. Acredito que vamos nesta toada embalados. És a minha sede saciada, meus lábios de água meu limão de amor.

Contigo não definho, apartado desapareço. É como dizer que me sirvo do mesmo sangue que te corre nas veias, que também se resolve na rosa do meu peito. Que a tua saliva o mar de onde pesco o alimento fresco, que os teus cabelos o aroma da terra fertilizando primaveras permanentes, que os teus dedos o tecelão de todas as civilizações vindouras, que o teu olhar o vento, a brisa, o orvalho das madrugadas cristalinas, meu corpo de pinhal à ventania.

És o ventre do meu fruto, és toda eu num mundo novo, e levar-me-ás para o eterno se a morte vier disfarçada. Minha sonata da juventude, minha sinfonia da vida, meu requiem do adeus. Concebes outra realidade, Ofélia? Enlaça a tua mão na minha, e vamos preparar o futuro para a metamorfose dos corpos, meu cedro à lua minha acácia em flor.

Mesmo que o fado me tenha traído e sejas tu hoje ausência irreversível sobrando apenas num sonho que miseravelmente deseje muito, serás ainda assim o meu farol de guia, minha torre de menagem, minha laranja a arder na noite fria.

27 de outubro de 2010

coreografia dos gestos

azul pacífico, por Luis Lobo Henriques
em 1000 imagens

Fizeste-me descarrilar, Daniela. Não que me preocupe o jogo inocente do flirt, nem que venha daí quaisquer más consequências se for apenas a inocência que tome as rédeas. Sempre me encantou a sedução, seja eu o seduzido ou o sedutor, pese embora que prefira na maior parte das vezes estar na primeira posição. Gosto de ser levado, gosto que me tomem a mão. Toma-me a mão, então. Leva-me. Por onde e como preferires. Da forma como quiseres.

É bonito observar que os gestos de ambos conjugam como uma coreografia de cumplicidades, e a verdade é que me levas já cego com o teu olhar de pássaro sereno - um olhar macio, posso dizer, como as plumas de uma ave assim pequena e delicada. O teu corpo aveludado como o leite, tão ainda aquém das carnes maduras de outras mulheres que me abordam, encurraladas em preconceitos e complicações na cabeça. A tua boca apetece, os teus lábios borbotões de água fresca mal contida debaixo da terra, perto de jorrar num beijo de delícia e profundo ardor libidinoso. As mãos muito tácteis, donas de uma perfeição de ternuras, dedos finos, brancos, frágeis.

Sempre gostei da fragilidade ainda que as rotinas venham contrariar as primeiras impressões. E por isso o pouco encanto pela maturidade das mulheres que me abordam, querendo encurralar-me nos seus preconceitos, complicar-me a cabeça com as suas deambulações sentimentais. São frágeis e não admitem sê-lo. Mas como serás tu então depois da inocência, como vais lidar com os percalços mais espinhosos, com os confrontos de personalidade? Como ver-me-ias um dia descarrilar por outro olhar que não fosse o teu, como agora?

Medonho não é o sonho mas as expectativas que se criam. O mundo poderia ficar sempre assim, nesta ternura pura do encantamento, do enamoramento. Medonho é o que me espera, as possibilidades de quereres que volte a colocar-me nos carris da conformidade, que seja afinal tudo o mesmo de sempre: esse terrível engano que erode de azedas tribulações muitos amantes. Enfim, a normalidade, a rotina. O que destrói efectivamente os afectos quando, descansados do primeiro fogo, o flirt acaba e só nos sobre os dois, descobertos num pavor de solidões individuais.

Vou fugir, vou fazer de conta que não é nada? Fingir que não quero o teu corpo, os teus lábios, as tuas mãos apertando, apertando? Negar a paixão, essa deliciosa dor que em vez de nos afugentar ainda nos faz correr mais ansiosos ao encontro de maior intensidade? Não posso negar, não sei contradizer.

Dizem as pessoas resignadas que assim é a vida. Mas eu luto tanto contra a resignação, Daniela, os chavões que desaprovo ou antipatizo. Não vou seguir um caminho apenas porque um dedo para lá me aponta. Questionar sempre: é enfim a base do fracasso de paixões e amores que não conseguiram dar sequer o primeiro passo, mas fundamental para quem como eu descarrila e não quer que um pequeno acidente se transforme na hecatombe. Exagero na eloquência, dirás. Que coloco a fatalidade em coisas tão simples. Poderás ter razão, afinal tudo advém da condição de apaixonado. Mas não acredito na máxima de viver um dia de cada vez. Ponderar pode precaver-nos das feridas, das lágrimas, do abandono.

Perdoas-me, Daniela? Se for só um flirt, um beijo, uma noite? Para nos acalmar, para provarmo-nos e sentirmo-nos. Para que, pelo menos, toda esta coreografia bonita dos gestos não seja em vão.

16 de agosto de 2010

«a saudade é o revés de um parto»


un coup d'oeil, por Emanuel Priolli em 1000 imagens


Dizem as árvores altas que o vento murmura tanto que nos pode levantar alados, lembrando essas espécies místicas de homens híbridos do que quer que seja, e não estou para acreditar em tais devaneios. O ar circula umas vezes com a leveza das asas de um pardal, outras como um rugido de fera, mas sem qualquer qualidade assombrosa se não nos detivermos a observar a agitação das árvores que mexem porque gesticulam alardes dentro dos sonhos os presságios, os avisos, crentes do seu poder temeroso e de discernimento. Eu fugi dos locais onde o ar corre com medo do teu olhar tímido a procurar-me ao mesmo tempo que o espanto te ocupa a temer os assobios do vento nas frinchas das janelas e nas sombras dos ramos altos. Isto foi o sonho da primeira noite, do corpo extenuado das tremuras e do coração como um cavalo cansado de correr sem acertar o rumo, com latejos nas fontes e os olhos raiados de sono.

Pela manhã seguinte, sol alto e quente e sem sinais de que o vento e as árvores tivessem sido tão ameaçadores, os teus olhos tímidos voltam a procurar-me num sorriso enquanto as tuas mãos te ocupam de tarefas que não interessa agora referir. Corre no teu corpo essa seiva tão fresca e jovem de que a tua idade é feita que não pude resistir desde o momento que te soube presente. De tantas mulheres no mundo onde vivo e por onde passo, mais velhas ou mais novas, anónimas e conhecidas, formosas e outras menos bonitas, tu foste iluminada como bailarina, actriz ou solista destacada num espectáculo promissor. Sempre estiveste presente, mas passaste a estar em mim sem que o infinitivo do verbo se desvie para outras conjugações: foi desde que soube de ti e te vi sorrir tão espontânea que nem percebi se era um teu gesto de natural simpatia ou se havíamos, nesse instante, encarnado duas dessas personagens de comédia romântica que passam nos filmes. Descartando o cliché e o tom lamechas que tal imagem possa dar, a verdade é que o que aconteceu entre nós foi essa coisa da faísca, dessa química, de “pintar um clima” que ouvimos dizer dos brasileiros nas novelas.

Uma empatia simplesmente natural entre dois seres que se encontram e sabem que tudo será diferente a partir desse momento. E a tua alegria tudo dizia a esse respeito: não me tiraste os olhos desde que o espaço entre nós fosse o mínimo suficiente para que me pudesses seduzir com o teu gesto, o teu pescoço inclinado a mostrar-me a ligeira penugem e as tuas mãos delicadas manejando os objectos. Os teus lábios rubros da sede de um beijo furtivo, desses em que os dedos e as mãos tímidas e fervorosas poisando brisas ligeiras sobre o rosto um do outro, as bocas que mal se tocando se afastam no segundo seguinte como adão e eva descobrindo-se nus e mirando-se apaixonados mas cheios de vergonha e pecado perante o olhar intrigado do senhor do éden.

Teria preferido, porém, que tudo não tivesse sido apenas o sonho daquela primeira noite de ventania. Que as árvores tivessem continuado agitando os ramos a assombrar a simples ideia de que pudéssemos vir a apaixonar-nos assim. Eis que o teu olhar desenha uma dor em mim, primeiro como um esboço suspirado, depois um alerta qualquer de perigo, e por fim a realidade latejando o malogro da nossa atitude. Só dói a saudade e a frustração de nunca nos tocarmos como se morrêssemos nesse caminho entre a dúvida e a felicidade. A única realidade é a minha partida, mais dura e manifestamente mais imprevisível para ti do que a minha chegada que tanto te perturbou. Não é possível porque nasceste tarde para mim e chegamos um ao outro como se o tempo fosse um castigo. As circunstâncias nunca serão favoráveis para alimentarmos este fogo. Viemos um ao outro com a saudade doendo e tu nunca poderias prever que assim fosse.

Então sou eu que te vejo hoje partir depois de uma jornada, tu convencida do até já, e eu acenando-te adeus sem que percebas e sem que um gesto do meu corpo te diga a verdade. Esta tua partida, o teu até já soprado em voz trémula de virgem que se abre para o seu primeiro amante, é o mais sofrido adeus que alguma vez concretizei. Mais tarde pressentirás a minha ausência e amanhã perceberás que é definitiva, assim que o teu olhar me procurar nos mesmos espaços onde restará apenas o pó da minha imagem. O que parecia um sonho afinal não foi: o vento veio alar-me, fazendo-me desaparecer de ti como se tivesse ascendido a um céu qualquer das mitologias pagãs. Ficarás tu eva só e abandonada, crendo que o senhor do éden é bom e de uma costela tua – onde a dor te fustigar mais forte – te fará o pedaço de ti que se esvaneceu, agora híbrido de um qualquer astro que teimosamente ainda procurarás no firmamento.

Esquece. Sente o vento e escuta o que desde o primeiro momento quiseram alertar as árvores com os seus ramos agitados. Deixarás, aos poucos, de te lembrares de me procurar nos mesmos locais onde em noites quentes de agosto me namoravas. Sacudirás o pó, os fragmentos da minha imagem será um leve devaneio. Esquece, porque a dor levo-a eu: não de remorso, nem tanto de desgosto. É desta saudade que dói, e de tanta raiva por o tempo continuar fluindo sempre contra mim.

24 de março de 2010

ensaio poético para andreia


Sensualidade, por Paulo Vieira em 1000 imagens


a tua melena de ouro confunde-se com as searas do pão
que sacia a fome dos homens;
além violetas, margaridas, e um mar de trevos
de onde despontam papoilas;
faz sol, Andreia, escolhe uma sombra;
a laranjeira já não te pertence, nem os seu ramos
nem as suas flores;
enfeita os teus cabelos com ramos de damasco
a cor perfeita nos teus seios incendiados de desejo;
estende teu corpo acolá, entre o perfume das flores:
um teu amante virá e cobrirá a tua pele banhada de brancas pétalas,
que se desviarão ao toque carnal da sua mão.


19 de fevereiro de 2010

grisalho



os teus lábios beijam-me pálidos.

lá fora o nevoeiro como se mil fumadores
filosofando tacitamente a quietude da alvorada:
é a palavra cinza de frio escrita na janela.

do leito te ergues, morrendo os lençóis à tua partida.

a tua ausência acentua a cor grisalha da janela
a consentir que espreguice o corpo dolorido sobre o leito
e os meus músculos não querem acordar prematuros.

regressas ao quarto já a fumar
como se quisesses fazer parte do ritual que além janela
o dia provoca na sua triste e cinzenta manhã.

olhas-te ao espelho, observas o teu corpo
e de súbito reparas no teu envelhecimento:
ontem não soubeste não conseguiste fazer-me amor.

perdoa-te
concede-te a desculpa da primeira vez.

talvez que o dia não se acinzente assim tanto
e eu possa sentir-te crescendo sob as tuas rugas
numa torre carmesim a ansiar o desejo.

20 de dezembro de 2009

sei o que és para mim


Happy, por Alexander Kharlamov em 1000 imagens


tu inauguras o mundo
Governo
(de Inauguração do Mundo em Propaganda Sentimental, 2009)


Tu és quando a manhã sobe na polpa doce dos teus dedos a descobrir-me sob a saliva enquanto o frio desenha cristais de geada sobre os telhados e as pedras da rua. Boceja a paisagem saída da madrugada e espreguiça-se o teu corpo como gato atiçando o meu em curvaturas de lençóis e aconchegos ronronantes do despertar.

Na fuligem dos pesadelos antigos as ideias murmuravam de reverso e tomavam a iniciativa das minhas vontades contraditórias. Mas há muito que a azálea murchou num oco de decomposição equivocando desilusões passadas, e por isso contigo o passado apenas histórias de fadas cruéis, gnomos insensatos e demónios malogrados. Por isso a azálea morta é um fim não cíclico, a irreversível síntese de todos os amanhãs novos a mim prometidos.

Sob a maciez carnuda dos teus seios palpita-te o coração com o calor necessário para que me aqueçam os membros, o tronco, os olhos embalados numa embriaguez calma de abraço cúmplice, e sorrisos comprometidos com o fruto da primavera desejada entre nós. E que cresce, levando consigo o nosso emotivo testemunho.

És tu ao fundo do ventre numa dádiva, de tudo o que é o mundo que se abre em rosa flor, sem a necessidade das estações do ano, a beijar-me de fome toda a génese do que sou.

E assim, meu amor, eu sei bem o que és para mim.

10 de dezembro de 2009

como quando tudo de novo cresce


Sara Kostov em Musa de Verão, de Jorge Jacinto - 1000 imagens


Torno a cair de amores e o acto de apaixonar-me é tão volátil em mim. Vejo-te uma duas vezes e à terceira estou a tecer ternuras desmesuradas, observando-te a cruzar as pernas numa voluptuosidade que me absorve em ansiosas tremuras.

E depois o ritual cumpre-se entre as chuvas e o sol de dezembro, como se perdesse a noção de todos os clichés da primavera, dos ninhos dos pássaros nas árvores, do nardo das flores crescendo nos prados. Tudo agora aqui neva, gela, humedece,

(honestamente: apodrece)

e as flores há muito que morreram para a conjugação de um fruto próximo entre a semente nova e o ar mágico do solstício de inverno. Pois nada disso me interessa, se és tu o sol e o ano, e os relógios parados numa madrugada qualquer. Existem prados verdes no teu ventre, céu de abril nos teus olhos.

Recordo-me a beijar-te de leve, com um breve roçar dos lábios sem infringir quaisquer normas de pudor, e é sempre como se houvesse o esplendor de novos mundos fecundos em nós. Acrescento ao quadro uma lareira para melhor aconchego, e surgem os teus braços enovelando-se nos meus, o teu peito inchado com a aflição natural das fêmeas,

(já sem pudor?, ou que significará pudor connosco?)

para te tomar por baixo do meu frenesi: arrepiado de paixão. Como se brilhasses de ouro e cristal. Como se o teu tronco fosse o braço da via láctea atravessado na minha cama. E por isso ignoro o que me rodeia, nada se torna mais importante ou maior que tu. Serves-me o paladar de fruto da tua pele. Soltas com os cabelos as brisas de maio num dezembro renegado, assustando as sombras polutas do meu quarto.

Mas quando consumado o fogo e os corpos adormecem apartados e sem pretextos

(uma e outra vez, como tudo se repete quando são tão efémeras as minhas paixões por ti)

deixarás a chuva cair para meu espanto, despertado por um frio agreste de ausência, e atrás dos teus passos retomarão as penumbras aos seus lugares nos espaços vazios. Torno a cair de amores e o acto de apaixonar-me é tão volátil em mim. Recrio-te quando sinto mudo o céu no seu tom de chumbo. Para acreditar que nunca morreste, que jamais partiste.

Vens sempre buscar-nos como quando tudo de novo cresce.

7 de dezembro de 2009

espelho mágico



Tenho o cabelo ruivo, numa tonalidade clara, e a minha pele é branca. Algumas sardas no rosto. Muitas nas minhas costas, no meu pescoço, nos meus braços. Olhos cinzentos, ou verdes, consoante a luz. Nariz fino, pequeno. Os lábios, na sua cor rosada esbatida, recortam-se como a único traço colorido do meu rosto para além dos olhos. As minhas sobrancelhas e as pestanas são claras, quase se nem vêem. Quando sorrio, mostro a alvura dos meus dentes sãos e

o meu espelho não me diz se há alguém

perante estes traços do meu rosto podia dizer-me a mais bela, como uma branca de neve, embora não tenha os cabelos negros, nem negra é a sombra do meu púbis, é uma carapinha rala de cor muito clara, quase albina, como se

como se nunca tivesse chegado à puberdade

e o meu espelho não me diz se há alguém

alguém que a meus olhos, cinzentos ou esverdeados, consoante a luz,

o meu espelho não me diz se há alguém mais feia do que eu.

Não sei bem o que é isso da beleza, se existe um padrão para estabelecer que uma mulher é mais ou menos feia, é mais ou menos bela. Mas o que dizem, porque ouvi, é que sou uma mulher feia.

Há trinta e dois anos que sou assim, uma mulher ruiva e feia. E por isso talvez não seja mulher. Porque dizem

ou dizem outros espelhos

que as mulheres são o ser mais bonito à face da terra. Por elas os anjos caíram. Por elas os homens se perdem. Nenhum anjo caiu por mim, nenhum homem se perdeu por mim. Eu é que estou perdida para os homens, que não me querem

- Olha a ruiva

ou

- Já viste aquela ruiva tão feia?

Sou indiferente, sou o reverso dos espelhos belos, sou a chacota das pernas roliças e dos bustos realçados, e sou entre os homens, apontando, galhofeiros

- Olha a ruiva

sendo eu para muitos a amiga eterna, a meiga amiga que lhes dá o ombro, nos momentos de amargura. A amiga ruiva. Ruiva e feia. Alguns dizem-me, quando pergunto,

- Sou assim muito feia?

que a minha beleza é interior - um cliché tão gasto, tão batido –

sou uma tecla batida

de modo que desviam a conversa no momento seguinte,

(porque não terão o dom dos espelhos mágicos?)

continuando a desfiar os horrores e amarguras das suas vidas sentimentais, dos desgostos que as pernas roliças e os bustos realçados lhes infligem; e sinto que, apesar de atentarem nos meus conselhos

- Talvez devesses falar melhor com ela

(que são frases que se dizem, tão batidas quanto a beleza ser interior, clichés e teclas batidas)

sinto que o que mais os aflige é a dúvida de saber se a amiga ruiva feia continua disponível para despejarem como num vómito de sentimentos tudo o que lhes rói na alma, e a mim

branca, pura, virginal

estala-me o desejo no sangue, e eles nem imaginam o fogo que se apossa do meu corpo quando se entregam chorosos de braços abertos como se vissem em mim a virgem Maria

(e Maria não é o meu nome, é

- Olha a ruiva

ou

- Já viste aquela ruiva feia?

por isso, a ruiva, a Ruiva Feia, sim, creio que é esse o meu nome, Ruiva Feia)

eu querendo deixar de ser a virgem

(Maria, ou a virgem Feia Ruiva, a Ruiva feia e virgem)

com uma vontade enorme de dizer-lhes para se borrifarem nas das pernas roliças e bustos realçados, e fazerem amor comigo, fazerem todo o amor que jamais fizeram com alguma mulher que se fite diariamente ao espelho e não saiba o que é ser branca, leitosa, sardenta, de cabelo em chamas, talvez das mesmas chamas que me cobrem de calor o corpo nas noites em que adormeço nas minhas fantasias e gozo na solidão e na sombra de um espelho que não sabe dizer-me

(porque não terá o dom dos espelhos mágicos?)

- Não há mulher mais feia do que tu.

24 de novembro de 2009

o motivo


foto por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens


Deixo a esferográfica deslizar sob a minha mão direita para te escrever algumas palavras. E acendo um cigarro porque as palavras, etéreas, não se materializam, e por cada fumaça que puxo do cigarro é como se quisesse arrancar a palavra certa, a frase mais coerente, o parágrafo perfeito, para te dizer qualquer coisa como

- Gosto de ti

e no entanto este

- Gosto de ti

é tão pouco para o que há para dizer, e talvez seja por isso que em vez de discorrer no papel ou dizer-to no olhos, bloqueada, fico sem nada dito. Nada feito. Nada escrito. Talvez.

Queimou-se o cigarro morto entre o indicador e o médio da mão esquerda, esmago a ponta no cinzeiro, e é então que sinto que os meus lábios tremem. Escondem um soluço, tremendo, e é nos lábios que nasce a torrente de espasmo que forçadamente quer percorrer todo o meu corpo, sacudindo-o. Num pranto envergonhado. Tremendo os lábios, porque não sabem se dizer

- Gosto de ti

será suficiente para que tu e eu própria entendamos o que há realmente entre nós, para lá do teu olhar de esguelha, por cima do jornal, e os gestos do meu embaraço pairando no silêncio da distância que nos desune.

Nada fazes. Perdes-te revolvendo o jornal nas páginas desportivas e deixaste em cima da pequena mesa da sala de estar a revista de domingo, como se a revista, de algum modo, fosse para ti, e à tua maneira, um

- Gosto de ti

imaginando-me perdida nos artigos sobre a saúde do corpo, a beleza, as receitas de culinária e os passatempos, mas, sabes, por mais que me esforce, não são essas as palavras que ouço no mais íntimo de mim. Acentua-se, na maneira como viras as páginas do jornal e no silêncio dos teus lábios herméticos, a distância que nos separa.

Sirvo-me de mais uma chávena de café, bebo-o sofregamente como se fosse um elixir qualquer que volvesse o tempo, os objectos, para que nada disto fosse assim. Acto contínuo, acendo um novo cigarro, mas o fumo repetido a esta hora da manhã pesa-me demasiado nos pulmões, pelo que duas ou três fumaças depois já o estou a esmagar no cinzeiro de vidro.

Olho para ti e quero que olhes para mim. Mas é o jornal que tu queres olhar. Estás num espaço onde me tens barrada a entrada. Se vou ter contigo,

(como se tocar-te fosse uma espécie de murmúrio ao teus ouvidos

- Gosto de ti),

já sei que me dizes que queres que te deixe em paz, que estás a ler o jornal e detestas ser interrompido, que vá passear o cão, ver se o periquito tem água e sementes, se há alguma roupa para dobrar, se o almoço já está adiantado, se o lixo está no contentor.

Assim tem sido há vinte anos. Sem filhos que os recusaste porque não és capaz, sem amigas ou amigos que me venham visitar por gosto e propósito, não aqueles que trazes de vez em quando para jantar, mas amigos meus verdadeiros, que me façam distrair daquilo que eu sou, daquilo em que me conformei ser – a tua mulher – como se o facto de ser a tua mulher,

(tua de papel e aliança abençoada pelo deus em que acreditas e pensas ajudar o teu clube nas noites de jogo com outro clube a partida do futebol que assistes refugiado com os teus amigos e comparsas pela televisão no café mais adiante),

significasse ter de servir-te, existir para servir-te.

Maquilho-me, componho a roupa, uso os perfumes que me ofereces em todos os meus aniversários que celebrei a teu lado na mesma atitude

- Gosto de ti

para que me olhes, apesar de saber que muitas das vezes te interrogas, desconfiado, porque me maquilho e visto assim, e que sintas que a minha presença não é uma tua necessidade pontual, mas a mulher que escolheste para viver contigo e com quem devias partilhar todos os momentos.

Tudo em vão. As folhas do jornal ocupam com o seu ruído amarrotado o silêncio que afinal não preenche a casa. No sofá estás tu e o teu mundo. Eu sou mais uma peça de bibelot arrumada no pó do esquecimento.

Porque será que não estou bem, passados estes vinte anos em que afinal outro homem não revelaste ser senão este mesmo, tu mesmo, que estás enterrado desde que nos casamos nesse sofá lendo as páginas desportivas do jornal, e que me olha de soslaio como se ordenasses Não incomodes!, dobrando as folhas impressas num revoar de pássaros espantados nos teus braços? Porque será?

Infelizmente já sei o porquê, e nem o deves imaginar. É pelo mesmo motivo que voltei a fumar, deixando-te surpreso quando me viste há dias, novamente com o vício a soprar pelos meus lábios, sempre impecavelmente pintados para ti. E tu pouco te importaste, disseste que a saúde era minha, ao passo que tu fumas mais do que eu, e daí fazes pretexto para voltares a inundar a sala, o quarto, a casa de banho com o cheiro pestilento do fumo excessivo que carregas.

O motivo. Das minhas mais recentes insónias e das minhas mais recentes fingidas dores de cabeça que te irritam e desiludem, nas parcas vezes que me procuras para outro fim que não seja dar-te de comer, dar-te de vestir, dar-te o conforto de uma casa composta. O motivo dos meus olhos borratados do rímel, o motivo de, ao fim destes anos todos, esperar-te na sala de estar, embrulhada numa manta, até altas horas da madrugada, quando dizes que é o trabalho, são os clientes, é o patrão.

O motivo encontrei-o com a mesma dedicação que sempre tive ao tratar da tua roupa suja, como de costume espalhada no chão do quarto ou da casa de banho, após uma noite em que estiveste longe, porque o trabalho, dizias tu, porque os clientes, porque o patrão. Terá sido um dos teus clientes, o teu patrão quiçá, ou outro alguém do teu tão cansativo trabalho que terá deixado dentro de um dos teus bolsos um pedaço de um guardanapo de papel, entre muitos gatafunhos que não soube entender, mas onde se via nitidamente a viva flor da tinta que exibia um

- Gosto de ti

?


28 de outubro de 2009

não me entendo


Silence..., por Carlos R em 1000 imagens


Sinceramente, não me entendo. Não chego a conclusão alguma sobre isto que sinto. Batalho todas a noites com o travesseiro moído de insónias enquanto a minha mulher dorme a meu lado na sua paz inocente. Observo o seu sono, noite após noite, e encanto-me: a quietude do corpo, o cabelo espalhado, as pernas nuas espreitando dos lençóis numa lascívia ingénua, as mãos repousadas perto do rosto. Os lábios entreabertos como que à procura de um beijo, revelando a doce brancura da dentição. Orelhas pequenas, nariz atrevido, pequeníssimo. É bonita a minha mulher, e isto deveria ser maior que todas as razões para as minhas insónias, às voltas no colchão, sem me entender. Sem chegar ao porquê que isto aconteceu. Viro-me para o outro lado, talvez envergonhado porque o pensamento

- Inês

vai contra tudo o que construí até hoje; o meu filho dorme também o seu sono inocente no quarto ao lado, embarrilado pelos legos, pelos carros em miniatura, livros e puzzles, jogos, dvds e toda essa nova tralha com que os miúdos de hoje se divertem por um dia para no outro quererem outras bugigangas semelhantes. O meu filho

- Pai, queres brincar comigo?

e eu magicando-lhe no rosto outras parecenças que não as da minha mulher, eu magicando

- Inês

enquanto ele espalha um enorme saco de peças para construir um avião, uma nave espacial, brincando afinal sozinho porque eu longe, com uma peça azul na mão e o pensamento num outro espaço, numa realidade que não a minha, o meu pensamento chamando

- Inês

chamando por aquilo que não é, o meu pensamento acovarda-me chorando silencioso sobre o meu próprio ombro, de resto com imensa piedade de mim mesmo, pobre coitado de mim; isto é uma pieguice pegada, um nome, um nome apenas que me desliga do mundo em que vivo

(como se regressasse à adolescência, com as gangas roçadas e fralda solta, procurando a novidade nas raparigas que se aproximavam de mim

- Rita

explorando com a mão a descoberta de um seio imberbe, sonhando molhado com o nome

- Rita

ou seja agora

- Inês)

virado para o lado de lá da cama, virando costas ao corpo repousado da minha mulher, com vergonha, eu com vergonha de pedir

- Queres brincar comigo?

e a peça azul colocada na mão como por acaso, olhando nas feições do meu filho uma outra ascendência, não a da minha mulher, mas a de um nome

- Inês

e no entanto é a vozinha dele que me apela, desembocada numa decepção

- Pai brincas ou não comigo?

e eu virando para o outro lado, sem largar o estranho objecto azul; eu com vergonha do meu filho cujas feições as da minha mulher.

As pernas da minha mulher espreitam do lençol numa inocente lascívia, os lábios entreabertos na procura de um beijo, e se queres um beijo é um beijo que te dou, Inês, beijo-te a boca com a sofreguidão de um aflito, num sufoco de náufrago, porque se me afundo é contigo que afundo tudo, os legos, o lençol que encobre lascivo as pernas da minha mulher, as feições desfiguradas do meu filho

(acordando em sobressalto porque sonhava que o meu filho)

e agora porque me apareceste assim, vinda não sei de onde e para quê, agarra nesta peça azul com que construo o avião para o meu filho e sê tu a ver nele as feições que gostarias que um filho teu

(sonhava que o meu filho sem feições, sem rosto, desconsoladamente decepcionado porque eu de costas voltadas, o meu filho sem perceber

- Pai então já não brincas comigo?)

um filho teu ditado pelos meus genes, mas não é este, este não, vieste para mo destruíres, vieste como um vírus que se instala, ou uma droga que ferve nas minhas veias nestas noites de insónia, com o pensamento às voltas na cama, moendo o travesseiro com o teu nome

- Inês

molhando-me os sonhos com as tuas pernas de pérfida lascívia, a tua boca escancarada sobre o meu rosto arrancando-me os beijos que ainda não soube colocar em ti, colocar-me em ti

- Pai brincas ou não?

e ter um filho cujas feições morrem no azul de uma peça com que adormeço, como o náufrago se agarra a uma coisa qualquer enquanto se deixa ir para o mais profundo do abismo

- Inês

Inês o caralhinho a sete, sabes? Sinto-me tão cansado com esta luta pateta… Chegar-me-ia

(chegar-te-ia)

consumir esta coisa que me amedronta com um simples abraço? Sem que me mordas as orelhas ou afundes os teus dedos dentro das minhas calças

(a fralda de fora, e as gangas roçadas, onde estão as pernas, que é feito dos braços, Rita?)

num abraço longo para me apaziguar, libertador, sentir-me por inteiro e não dividido, um abraço que se impusesse como o derradeiro? Que posso fazer, que devo fazer? A sério que não sei, que não me entendo.

18 de outubro de 2009

o eterno lugar-comum do efémero

Le sommeil, por SaMY em Olhares


Contigo a contar as horas, e depois das horas os minutos que sobejam no tempo a dilatar-se nos nossos gestos tentando fazê-lo render e tudo porém acontece ao contrário quando dos preliminares

(poemas lidos, dois copos de vinho cúmplices, o tremelique dos olhares quando o silêncio em vez de nós, incendiando-nos de desejo)

ao êxtase, e deste à morna massagem dos corpos com picos de ternura nos sorrisos cúmplices do mesmo silencio já não incendiando, e a janela apagando devagarinho em movimentos de sombra e luz alternadas consoante a passagem do sol rente à altitude dos prédios e das árvores que o vão eclipsando, o sol por sua vez a seguir o ponteiro grande do relógio da natureza guardando-se da noite recolhido para lá do horizonte.

Percebemos então o quão efémeras foram as três horas em que nos demos, um dos copos de vinho tombado na ansiedade da roupa que despimos com o silêncio em chamas, o vinho escorreu a tingir o tapete

(perpetuando o efémero com a sua nódoa cor de rubi?)

e o cheiro adocicado foi-se evaporando à medida que a temperatura dos nossos corpos chamas, com faúlhas disparando dos sentidos, depois brasas e por fim um borralho de ternura a convidar ao sono dos corpos repousados, e com o sono uma leve angústia nascendo em mim pela ansiedade de o tempo ignorar desejos de eternidade, ignorando o desejo que as três horas voltassem ao ponto zero e recomeçassem, as três horas uma continuidade para lá das leis físicas, um nunca acabar enquanto ambas as nossas vontades permitissem repetir.

Não vou voltar a escrever a mesma ladainha de sempre, estou cansado disso, a dizer que com o descer da noite um do outro nos apartamos, é sempre assim: surge a penumbra e o mundo a dizer-me que se acaba, como se o amanhã

(segunda-feira em que cada três dos seus minutos maiores que as nossas três horas de hoje)

não pertencesse ao mesmo ritmo da vida que temos de levar até que outra oportunidade; para quê este fatalismo todo, feito de saudade antecipada, de lágrima ao canto do olho, para quê esta pieguice se amanhã (uma noite de sono faz milagres)

- Bom dia!

e tudo retomando aos seus lugares?

Tenho esta doentia tendência a acreditar que o mundo finda quando o outono traz a noite às sete horas da tarde e os domingos gotas de sangue em vão... Como deves perceber, já não estou a dizer coisa com coisa, que é isso de domingos gotas de sangue, porque me dói saber que o que me resta hoje é apenas o enquanto aqui estás, a ver-te abotoando a blusa, apertando a saia, retocando o batom, remexendo o cabelo enquanto procuras entre as sombras

- Onde estão os meus sapatos?

(eu nu a espreitar debaixo da cama, por trás das cortinas, onde se terão metido os teus sapatos, e isto é ridículo porque sabe-me a eterno estes fugazes momentos de abstracção em que ainda não é afinal a despedida)

e aí está o pé esquerdo, falta o direito, que vens a descobri-lo sob as minhas calças atiradas ao acaso na altura em que nem uma hora havia passado desde que o silêncio se imolou entre os poemas e os dois copos de vinho. Decido-me pelo resto da garrafa ao ver-te piscando o olho a fazer durar a ternura, abres a porta discretamente com medo de despertares os fantasmas dentro de mim, uma nesga de luz que vem de fora sacode a penumbra do que fomos e quando sais depois dela eu finalmente sozinho pendurado no escuro, ainda a tentar fazer voltar os ponteiros dos relógios nos últimos goles do vinho que agora só me amarga a boca.

17 de agosto de 2009

diluído


voa comigo, por Ramarago em 1000 imagens


há um poema
diluído na água deste verão
suspenso e nocturno
de sabor a álcool com gelo
e dos dedos polpas de carne
e segredo

levo aos lábios a ternura
transpirada do teu pescoço
e esta música líquida refrescando
a madrugada

tropeço com a cabeça na almofada
quente
os teus cabelos são águas
palavras refazendo a atmosfera
de ténues sombras
inquietas

palavras agudas colhidas sem mote
temperando a minha sede
com o orvalho substantivo
da súbita alvorada

escuto o teu corpo
estendido na areia do sono
exalando o perfume natural
da carne e do sangue

a penugem loira e suave
sobre os teus ombros
quebranta o meu olhar pescando
em lentos mergulhos de sonho

o poema que se inventa
do teu ventre
diluído na música que me
acrescenta.

24 de julho de 2009

da janela entardecendo


Paisagem da janela por Maringá em overmundo


Demora-se a tua ausência na rua deserta, nas janelas em frente sem rostos que venham espreitar sequer. Os automóveis passam escuros como objectos incógnitos, e os autocarros seguem vazios com a sua luz branca esbatida a lembrar salas de espera de urgência hospitalar madrugada dentro. Aos poucos a suspirada claridade do crepúsculo vai vestindo a penumbra que sai nascida nos recantos, nas esquinas, nos jardins desertificando. Percebe-se a agitação lenta dos ramos altos das árvores ao vento ameno anunciando um princípio de noite mais frio do usual nesta altura do ano, como se o verão se tivesse distraído ou quisesse esconder-se, a adiar o seu compromisso.

É certo que a noite vindoura será viva e animada em muitos pontos coloridos da cidade imensa e quiçá nesses pontos nem se venha a notar ponta de frio, são microclimas de calor humano que rejeito sempre penetrar, menor é ainda a vontade se não estás. E embora se sinta o cheiro desses verões muito particulares, apesar do vento, nada disso sucede nestas paragens que vão emudecendo com a noite. No mínimo nada acontece ao alcance desta janela onde testemunho os arruamentos entristecidos no latir dos cães que parecem ao ouvido tão distantes uns dos outros como se comunicassem o seu choradinho entre fronteiras intransponíveis.

Não teria dado conta desta melancolia a suspirar o desalento das sombras que crescem devagar não fosse esta tua ausência. E nada a remedeia: inflama-se este sofrimento triste de ir vendo e sentindo o dia fechando-se, guardando-se para a incerteza da próxima alvorada. Cá dentro, sobre estantes e móveis transpirando indiferença, as fotografias são folhas mortas de outono, apenas instantes retidos num passado irremediavelmente perdido. Nem a música ajuda, entoada como se a falar a espectros, como se os seus decibéis não interferissem na mesma dimensão onde estou. E os livros calam-se igualmente: afónicos e sem alma, sem carne, sem cheiro.

Tanta vida adiada quando tudo isto é sem ti, quando habito a tua ausência tão demorada.

29 de junho de 2009

beijo



a tua boca na minha:
quem dera fosse todo o verão além da latitude dos sonhos

e por isso ardes-me
e por isso o vento norte nos teus olhos
a exaltar de desejo as cores da chama viva

só as duas bocas unidas:
suspendendo a intenção dos gestos e do corpo
ignorando o tempo na sublimação da saliva

tolhemos as vãs palavras dos sentimentos tontos

porém, a minha na tua boca
é ainda o verão virgem aquém da esfera dos sonhos

30 de maio de 2009

encontro II


Beleza romena, por António Amen em 1000 imagens


Pigarreia-me a voz, arranhada e seca. E os gestos acompanham a mesma rouquidão, gagos e disléxicos como quem mete as mãos pelos pés. Cresce às faces o sangue num rubor de glande nervosa, escaldante carmesim a incendiar o pudor, nadando aflito até às lágrimas. Pronunciar neste estado o teu nome ou esboçar-te um tímido olá revelou-se numa tarefa árdua e difícil de concretizar. Não que fosse impossível - a vontade, se não inibida pelo desastre, pode mover montanhas. Mas não foi o caso. Tudo era desastre em mim: o ventre dilatado da cerveja entre os amigos, a barba crescida pela preguiça de contínuos maus despertares, a roupa desleixada e amarrotada. Felizmente não padeço do odor forte de quem transpira um dia de labuta. Senão era a catástrofe.

101 cigarros pigarreiam à porta da comoção, a saliva atropela-se ao engolir, o ritmo do peito dispara sem conhecer meta a atingir, e os dedos das mãos como folhas mortas e humedecidas com o orvalho da exaltação – és como uma manhã nova para mim, espelhada no fresco azul dos teus olhos, na seara de intenso odor a frutos dos teus cabelos, a manhã mais clara e limpa quanto desejaria conhecer. A língua não soube ampliar o acorde das palavras. Era uma papa cheia na minha boca. Os lábios, esses, poderiam oscular, ferver sobre os teus ou diluir-se em tua extensa pele de feno. Porém, som nenhum conseguiriam produzir.

Portanto, nem os lábios, nem os gestos, nem nada em mim que se movimente, salvo a palpitação surda no tórax. Nada pode chamar a tua atenção, que possa tirar de ti sequer um simples olhar. Sou objecto patético na tua presença. E agora que te afastas, sou árvore a viver plantada para todo o sempre com sombras e banquinho de velhotes a colher nostalgias como a chupar do solo a seiva com que se alimenta. Vegetal e ignorado.

Quando o mundo der uma volta completa pode ser que nessa altura sim: bem composto, ex-fumador, recolhido e sedutor. Para passar a ignorar-te eu, como a um arbusto que incomoda as vistas.

11 de maio de 2009

pintura




ilustra-me esta noite com as linhas das tuas mãos
delicadamente tatuando sombras sobre o meu corpo
e apagando todas as fronteiras do amor e do prazer
sou eu que finjo o abrir de uma flor
e por cada pétala caída
a madrugada alarga-se no nosso toque acetinado
és tu a bátega apaziguadora que virá a despertar como um orvalho fresco
a aurora que se demorará na cor
selvagens os teus dedos adocicados
pelo mel do pólen
introduzem-se no teu corpo

para que a cópula seja sempre e mais uma tela
pintada pelas mãos e com as tintas
das nossas bocas
adormecidas na manhã do nosso leito.

6 de maio de 2009

segue-me a linha do corpo




segue-me a linha do corpo
no arrepio que provoca a brisa do teus lábios
inunda-me o ventre com o ondular dos teus cabelos
e serena repousa o ósculo
no pico extasiado do falo
que te desperta
a fome
de carne doce

engole-me
seduz-me na vertigem da tua língua

os meus sentidos emergem
na graciosidade gesticular
das tuas pernas
que, estremecendo,

procuram a foz de um rio feito de pétalas
e plumas da alvorada.

18 de março de 2009

lugar perdido


foto de Alberto Calheiros em 1000 imagens


É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto que faz doer dentro do meu peito um fogo que consome as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. Há um bocejo, a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida: a questão de saber o que queremos.

Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já tanto quanto eu que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos.

Não é culpa nossa sejas tu tão bela e eu homem tão apaixonado. Não é culpa nossa a ironia do tempo nem as contradições da natureza. O que somos perante o sentimento que nos une? Duas almas tristes, duas bocas frágeis de palavras isentas do beijo que os olhares trocaram proibidos, duas mãos que se não tocarão jamais, que de si nada conhecem senão desejos, dois corpos que nunca se encontrarão, à deriva num espaço frio e cinzento. Não é culpa nossa este amor encarcerado na confusa gargalhada de um deus. Serena tu, que a minha revolta repousa já conformada. Seremos nós culpados pela terra árida onde deitamos este sonho a crescer, mas onde tudo murcha e perece?

Nunca te tive nos braços e já eras minha. Cerravas os olhos devagarinho como se a polpa dos meus dedos te tocasse levemente, todas as manhãs, numa carícia longa e suave, no traço do teu rosto. Nunca te falei de amor e já me amavas recolhida nos teus sorrisos. Não te vi o corpo e já eras deusa minha. Nunca soube quem eras, não sei quem és ou quem serás E sabia como amar-te, como proteger-te. Como dizer-te o azul e o sol.

Sabia-te e mostrava-te, em sonhos de poeta, minha musa, amante, mulher.