Mostrar mensagens com a etiqueta 11 novembro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 11 novembro. Mostrar todas as mensagens

18 de novembro de 2018

ponto final




Eis então chegados a uma bifurcação onde sabemos que os passos de cada um confirmam o inevitável e adiado ponto final. Fomos sempre assombrados por esta ameaça que o futuro teria a imagem de cada um de costas voltadas, seguindo caminhos opostos, e sem outro aceno que não o derradeiro. E depois de tanto sonho, 

(os pés assentes no chão, a resignação, não aceitar que fosse possível) 

depois do lirismo dramático com que fomos tecendo o novelo, saímos de cena sem apoteose ou velador requiem. 

As palavras foram o mote para o encantamento, mas deixaram sempre a desejar. Gastas como no poema do Eugénio 

(O passado é inútil como um trapo. / E já te disse: as palavras estão gastas.), 

assombrando, sílaba a sílaba, letra a letra, o afã inútil de havermos concebido que eu e tu essa almejada 

(e finalmente revelada impossível) 

simbiose. 

Virá o inverno e a então consoladora certeza que cada final encerra um ciclo para outro se iniciar na luz do solstício. Nesse tempo, que será a viril tarde fecundando a mais longa noite para a madrugada em esperança de perfeitos amanhãs, o nosso nome será apenas sombra de memória, sem outro significado senão a pedra que desviámos do nosso caminho.

11 de novembro de 2018

entropia



A luz imprecisa e a doçura do sono, no embalo da chuva, o vento ululando com mestria dramática, a lonjura a chorar cristais com outros sons inquietos. As mãos à luz quente do abat-jour em gestos de difusas palavras. Se evocares o ar húmido, terás a encomenda do segredo, e tudo o resto é ferimento. 

Haja ainda quem venha morrer de amor. As manhãs de novembro terão sempre este céu plúmbeo, com o adocicado humor do outono no seu aroma de lenha e caruma a arder. E os livros no lugar da esfera. A música, sempre presente, vem na vez do sol, como quem nasce para todos.

10 de novembro de 2018

transtorno


I’m getting out of here.
Where are you going?
To the other side of morning.
Please don’t chase the clouds, pagodas.

James Douglas Morrison, The Movie


Definir a paisagem além da janela aqui defronte: fotograficamente, são ângulos acentuados por sombras de um quadro de Hopper quase sem cor, ou de cores soturnas – mesmo o branco é um cinza muito pouco definido e sem luz. Movimento praticamente nenhum, excepto ramos de um arbusto que baloiçam sob um vento delicado (não é brisa nem é ventania). Não há céu que se faça destacar do resto da composição. Vários sons, no entanto. Motores de automóvel e motoreta, os vidros da janela emitem alguma vibração quando qualquer veículo mais próximo. Uma ou outra voz, de adulto e criança, sem se ver de quem, adivinha-se que femininas, por agudas e delicadas. Um avião que passa, evocando os estrondos das nuvens em horas de trovoada. E quando tudo isto se suspende, por breves momentos, aquele borburinho de distância indefinida, da rotação do mundo e das coisas que nele estão. Atmosfericamente é um dia cinzento, húmido e frio, embora não caia chuva para já.

Um espectador do outro lado da janela, virado para o interior, não pode afirmar que há grande distinção entre os ambientes de fora e de dentro. Estore levantado e, depois da vidraça, o véu pálido como que sujo de uma cortina feita de renda. Na imediação da luz que transpõe a janela, o contorno de algum mobiliário. Mais no fundo, em contraste com uma parede clara, a silhueta de alguém sentado e debruçado sobre uma mesa, ocupado com um papel branco (ou de um cinza muito pouco definido), escrevendo ou desenhando. Pelo movimento parece que a escrever. Do lado de lá não se conseguirá ouvir o som do lado de cá, mas um sonoplasta poderá conceber: o tique taque de um relógio de parede, o zunir electrónico de qualquer aparelho ligado à corrente, a fricção de um lápis rombo sobre o papel. A respiração normal de quem escreve. Algum suspiro, ou bocejo. Música, talvez, ou um televisor onde diálogos de um filme. Poderá ainda estar mais alguém engolido pela sombra, que fale com quem escreve, ou que emita apenas ruídos domésticos – adulto ou criança.

Aquele que escreve faz um gesto largo para negar o sonoplasta. Não há música, televisor, nem está mais ninguém. Após essa pausa, retoma a escrita e é perceptível o movimento da mão que vai sendo empurrada pelo braço a firmar o lápis contra o papel. Aquele ou aqueles que o lêem (lerão?) decidem: o escritor vai zangado, pela força que faz a escrever. O sonoplasta amplia o som do lápis, cada vez mais rombo, riscando o papel que, pelo ruído, sofre de enorme pressão. E agora, com a energia de conseguir alterar a disposição quieta de outros objectos menos perto de si, o quase estrondo (será altura de o sonoplasta baixar o volume) da ponta de grafite do lápis a quebrar-se, um repentino restolhar sobre o tampo da mesa, o seco tilintar do lápis atirado com força, as mãos de quem escrevia muito nervosas, agitadas, tomando o papel. Percebe-se que é rasgado e amarrotado. Agita-se uma cadeira em gonzos e arrastada. Passos pequenos sobre soalho de madeira. Tosse ligeira e pigarreio. Uma porta a abrir-se e o ruído de fora entra no ambiente com mais presença. Os motores dos carros, e um que tanto faz estremecer a janela, veículo pesado, fazendo a curva ali mesmo. A porta fecha-se, sem estrondo. Alguém passará do lado oposto e a afastar-se, pelo som dos passos sobre o cimento, cada vez mais longe, e ainda se consegue ouvir uma voz grave vociferando por um momento e depois calando-se. Nada se altera na paisagem além da janela aqui defronte. Apenas do lado de dentro se testemunhou um abandono.

Já muito depois, quando a escuridão tiver engolido o que é paisagem diurna e todo o ruído, o estore cerrado e nada para se observar depois da janela, o tique taque do relógio da parede será a única companhia de quem irá regressar sentando-se à mesa, tirando do lixo o papel amarrotado na tentativa de alisá-lo e alinhar os seus pedaços como um puzzle. Embora com menor frequência, os motores na estrada continuarão a ser ouvidos, conseguindo ainda fazer vibrar a janela. A luz fraca de um candeeiro iluminará o que lhe está próximo, mas transformando as paredes em sombras disformes. Um isqueiro acenderá um cigarro. Outros papéis sobre a mesa farão a diferença. Não estão cá neste momento, serão trazidos no regresso. Não vamos precisar do sonoplasta, vamos assumir que nenhum outro ruído poderá ser escutado para além do relógio da parede, a brasa do cigarro consumindo o tabaco, o sopro do fumo, e o som dos papéis manuseados. Num deles, com a luz trémula da lâmpada quase a fundir, poder-se-á ler, grafado em caracteres oficiais de diagnóstico, «perturbação obsessiva compulsiva». Será insone a próxima noite.

5 de novembro de 2018

pouco ou tanto


«Hoje é de um beijo que preciso
Sem discursos, sem porquês»



Sem curta ou longa distância, só a contar com o olhar inquieto de tantos dias vazios, deixando subir o impulso de tudo ter e, sem hesitar, esmagando por sofreguidão nos nossos lábios o que há-de ser de nós. Um beijo de fogo e ternura, ignorando tempo e lugar, naufragar os corpos de afagos, sem acenos, escusando a efemeridade. Pertencer a um amor que de tudo se ausenta, suspenso nessa liquidez das bocas comungando. Ter o espírito infalível às agruras, aos temores, os braços contestando o desequilíbrio, a mente a impugnar a auto-comiseração. Ter o apetite livre do suicídio físico ou moral. 

Estar num beijo, sem entretanto nem porém, para tudo haver o que os corpos por longo tempo desejaram contra a imaterialidade de qualquer razão propensa ao mundo que os condene, que nenhuma má fé possa nunca superar. Mãos no rosto, dedos entre os cabelos, e os olhos frente a frente desistindo de segurar a convulsão de tanta saudade, e a matar, a matar, o pouco ou tanto que somos agora, a mitigar a tristeza de não sabermos, por desconhecer o nada, o que poderá haver afinal depois do amor.


4 de novembro de 2018

côdeas



Poroso como o calcário que se desgasta, de arestas rombas, tudo feito de resignações vulgares. O mundo esboroando o pedaço que falta, na agilidade do vento e das chuvas sem que para tal tenha de soprar sequer uma brisa ou farrapos de uma simples morrinha inconstante, o mundo só por si erode, alia-se ao tempo 

(o mundo e o tempo um só?) 

e numa lentidão de aborrecimento transformam a dureza sólida da pedra em sucessivos e cada vez mais longos mantos de areia, pó do que existiu, do que resistiu, mas, de resignação em resignação, se foi transformando no que era antes de se haver de si. 

A vida assim se transforma 

(alguns argumentam que evolui, ou será o contrário?) 

e, a dado momento, como o pedaço de carcaça de um pão de vésperas esquecidas, esboroado em côdea, essa que do todo é a que vai resistindo 

(ou não desistindo por completo), 

a vida feita e sentida como côdeas do pão em definitivo feito migalhas grotescas, restos ressequidos que os velhos atiram à água verde de um lago para os patos, gansos e cisnes preguiçosos entre o limo, entre as rémiges também esquecidas de vésperas que já lá vão, a boiar, orgulhoso lixo a boiar, e eu 

(a vida, a vida), 

a vida um corpo insólito a boiar à mercê do parco movimento da água nodosa de verde contra a lama das margens, uma angústia por tanta inércia, a vir cobrindo-se pelo colorido de morte das folhas do outono. 

De modo que esqueçam lá isso da idade signo de conquistas, e que as rugas tanta dignidade, como se fosse verdade essa vossa crença de que fica sempre tudo bem, o que interessa é o espírito manter-se jovem. E, afinal, onde esse espírito senão acomodado em sombras e em vãos de esquinas; que é do espírito na frente de um espelho a tomar consciência da decrepitude? Crença no fingimento, e no dizer de lugares-comuns politicamente correctos. O politicamente correcto é por si um côdea, dura e já bolorenta. 

Ponham-se de pé até tombarem definitivamente. Aí reside a dignidade, e também a resignação.

3 de novembro de 2012

imagem depois de ti



A seguir caminho no intermédio da luz taciturna da tarde chuvosa e a noite vindo a descer vagarosa sobre os telhados adiantando a hora do crepúsculo. Abri o cigarro no hálito frio e a tarde encolheu-se fugidia. Soletro a calçada, pedras em granito tão velho, com destino a ti.

Volvidos foram tantos anos, Manuela, que regressar assemelha-se ao aroma de uma velha reserva de vinho bebida em balões que nos enchem as mãos. Tento imaginar se o tempo te foi cruel, cavando rugas sobre o teu rosto, pregueando a pele no pescoço, nas axilas… Se te deu sofrimento de enegrecer a alma, ou caducando a maciez que os teus olhos continham.

(abano a cabeça numa flexão para me desvanecer de tais pensamentos, a cidade pulsa, vibra, vive…)

Se o tempo te deu em esgotada da paciência de filhos, viúva do amargo da rotina.

(… resplandece a cidade: há tantos anos que aqui não vinha, a verificar a harmonia das gaivotas, os prédios grisalhos sob o céu inconstante de chuva e neblinas, o humor acre das vielas e dos becos guardados no mofo das traseiras).

Sinto que ir a ti é como descer no passado com medo de cair no presente. Vou a pestanejar memórias nossas, de sobrolho arregaçado, memórias tão íntimas, flagrantes do que eu e tu somos (ou fomos) feitos. Por cada rosto que se cruza comigo na rua é um vulto pressagiador de ti, a acelerar-me o ritmo cardíaco, alterando a maré da minha saliva, a ansiedade dos dedos. Continuarás com o mesmo semblante de triunfo sobre tudo, o mesmo olhar curioso e atrevido, com o dom de me incendiar os sentidos?

Tudo isto, Manuela, são rastilhos de incertezas, pudor sobre a desfiguração, fragmentos do medo de nada ser como era. A teimar que o tempo não é senhor de fazer estragos, de deixar permanecer o que a memória não quer atraiçoar. E isto é tudo o que tenho quando chego ao prédio tombado na frontaria de uma velhice que não reconheço, tão despegado do futuro, como se nada tivesse havido antes para que pudesse estragar o presente de inesperadas fatalidades. O hálito do varandim com o cheiro a detergente da roupa pendurada sob o plúmbeo do céu parece acertar nisso: não reconheço qualquer peça, o tempo veio aqui desmanchar memórias, que raiva. E porque não recolheste ainda a roupa, Manuela, se a noite entrou de supetão mesmo que a tarde ainda exija o consentimento do burburinho diurno, dos carros, dos rostos que passam, das lojas entranhadas de luz tosca?

É então que carrego no botão oxidado da campainha. Tento lembrar-me do teu rosto sem artifícios do tempo, como se nenhum relógio tivesse funcionado entre a última vez que nos vimos e esta agora que nada me diz particularmente, pelo menos quanto ao que veio depois disso. Qual será, ó receio meu!, a imagem depois de ti? O que te sobrou. O que sobrou de ti em mim e de mim em ti. Tudo o que não pude aproveitar e agarrar, perpetuar. O que de nós vamos enfim conseguir aproveitar, Manuela? Saberei reciclar em mim a imagem depois de ti?

A campainha soou rouca, abriu-se instantes depois a porta que vai ou vem para ou da rua. Subo, sem precipitações, também sem hesitar, porém. Serão apenas alguns degraus, que me lembre. Amparada ao corrimão gasto onde pela primeira vez soubemos beijar-nos, vens a acenar-me, entre a penumbra. Subo ainda mais, renitente

(reticente agora?)

e quando te abeiraste do meu abraço cercando com as mão o meu rosto a indagar o que foi feito de mim, não esperava que te viessem lágrimas aos olhos

(nunca te vi lágrimas, Manuela, agora reparo que não te conheci as lágrimas)

e exclamasses num preconceito de cansaço: meu deus, o que o tempo fez de ti!

11 de novembro de 2011

palíndromo


Me incido e desdobro-me em ti, palavra sem certeza e rápida que passa como nuvem empurrada por um vento que nos desfaz assim, nessa palavra polida pela imagem rasgada de uma tela. Na minha voz és cor, mas sem sabor porque a língua não te produz, apenas emite o que o pensamento julgou ser e luz. São aguarelas os poemas, trazes o título dessa canção que os meus ouvidos ouvem como quem mexe na estéril areia.

Perdoa-me, não sei dizer-te nem contar-te ou ver-te, apesar da cor e da sombra no meu espírito. Nascem os dias grávidos de luz e vapor das manhãs que não cansas de inventar, mas mais palavra que és não serás jamais senão a palavra que não quis ou soube. Que é como quem diz um poema que não tem título nem voz para me existir, e cantar-me. E por tudo isso, e algo mais que fica sempre por dizer ou lembrar, mereces muito mais do que feliz aniversário. É por exisitires que existo, enfim.

De mim para aqui, dentro de ti.

7 de novembro de 2010

exaltação a ofélia (glosando antónio lobo antunes)

O mar não é tão fundo que me tire a vida
nem há tão larga rua que me leve a morte
sabe-me a boca ao sal da despedida
meu lenço de gaivota ao vento norte

meus lábios de água meu limão de amor
meu corpo de pinhal à ventania
meu cedro à lua minha acácia em flor
minha laranja a arder na noite fria.

António Lobo Antunes, fox-trot nº 3, Letrinhas de Cantigas


Não devia haver mistério entre nós, Ofélia, somente beijos trocados com a paciência adolescente da delicadeza, sem qualquer trejeito de ansiedade. Cuidei que a ternura viesse para nos enlaçar nessa convulsão desmedida dos amantes e parti do porto do mundo soltando as amarras da jangada dos teus cabelos, numa deriva sem pressas ignorando sinais de tormenta. Feras marinhas não me assustariam e adamastor um gato manso que se curvaria ao meu afago. Perdido em ti quis embarcar, mas perdido de ti me vi naufragando quando o frio do entardecer te revolveu, emancipando as lágrimas no teu rosto e devolvendo-me, aflito, à profundeza das sombras. Porém, meu amor, o mar não é tão fundo que me tire a vida.

Dias sem palavras que não me explicaram as lágrimas precipitadas. Noites divagando sobre qualquer gesto que tivesse desmoronado o que numa troca de afectos se erguera como um império seguro. Os pardais vão recolhendo as plumas numa algazarra de chilreios entre as folhas mais persistentes que o outono avançando engole no seu crepúsculo de viuvez. Sou varrido por essa língua parda entre o grito vazio do meu quarto e as buliçosas criaturas na árvore. O deserto da rua configura um cenário trágico, como se o teu silêncio me tivesse despedido do mundo, pendurado nos barrotes do alpendre. Resisto: entro na noite à boleia do vento e sigo de novo sem destino. Não te concebo ainda perdida, nem há tão larga rua que me leve a morte.

Encontro-te num acaso de becos, por essa cidade imperfeita e gulosa de almas como a tua. Vens de abraços casuais e sem vontade, com os olhos injectados de qualquer coisa que desconheço. Porque me escondes dos teus segredos, serão tão defeituosos para que me apartes das nódoas que a vida te marcou? Todos temos as fraquezas que nos envergonham, somos de carne fraca e porém delicada, à mercê de vontades, miséria, conquistas, vaidade, luxos. Quero um gesto teu, um aceno para voltar a pertencer-te. Não vou ver o caminho que percorreste, quero dar-te um prado para te soltares selvagem e sem pudor, entregar-te de mim a liberdade que procuras. Vem para poder sentir-te. Não aguento ver-te sempre fugindo, Ofélia: sinto nos pés o chão deferindo a lonjura, e sabe-me a boca ao sal da despedida.

Diz-me que não é verdade a tristeza no nosso seio. Confirma-me que afastamos de nós a efemeridade. Que teremos com certeza o nosso mato para desbravar mas definido o nosso empenho para abrir o caminho. Não existe abismo no nosso mundo se a minha na tua pele numa ambição de simbiose perfeita. Esquece o esconso, os desvios mais angulares que te fazem perder de embaraço. Deixa-me quebrar o frio com a lenta progressão de um dos meus dedos acariciando-te a fronte, descendo pela face à base do queixo, na esperança de um sorriso. Daqueles que dizem tudo, que substituem palavras. Sem o abandono da pressa. Deixa amarrar-me no teu corpo, ó meu lenço de gaivota ao vento norte.

Já não vou aceitar mais a despedida, Ofélia. Ainda que partas uma e outra e mais outra vez. Serei a tua sombra, mesmo que me inflijas com o desdém. Saberei que não virá do fundo de ti, será apenas superficial, signo da fraqueza que te opera a insegurança. Acredito que vamos nesta toada embalados. És a minha sede saciada, meus lábios de água meu limão de amor.

Contigo não definho, apartado desapareço. É como dizer que me sirvo do mesmo sangue que te corre nas veias, que também se resolve na rosa do meu peito. Que a tua saliva o mar de onde pesco o alimento fresco, que os teus cabelos o aroma da terra fertilizando primaveras permanentes, que os teus dedos o tecelão de todas as civilizações vindouras, que o teu olhar o vento, a brisa, o orvalho das madrugadas cristalinas, meu corpo de pinhal à ventania.

És o ventre do meu fruto, és toda eu num mundo novo, e levar-me-ás para o eterno se a morte vier disfarçada. Minha sonata da juventude, minha sinfonia da vida, meu requiem do adeus. Concebes outra realidade, Ofélia? Enlaça a tua mão na minha, e vamos preparar o futuro para a metamorfose dos corpos, meu cedro à lua minha acácia em flor.

Mesmo que o fado me tenha traído e sejas tu hoje ausência irreversível sobrando apenas num sonho que miseravelmente deseje muito, serás ainda assim o meu farol de guia, minha torre de menagem, minha laranja a arder na noite fria.

24 de novembro de 2009

o motivo


foto por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens


Deixo a esferográfica deslizar sob a minha mão direita para te escrever algumas palavras. E acendo um cigarro porque as palavras, etéreas, não se materializam, e por cada fumaça que puxo do cigarro é como se quisesse arrancar a palavra certa, a frase mais coerente, o parágrafo perfeito, para te dizer qualquer coisa como

- Gosto de ti

e no entanto este

- Gosto de ti

é tão pouco para o que há para dizer, e talvez seja por isso que em vez de discorrer no papel ou dizer-to no olhos, bloqueada, fico sem nada dito. Nada feito. Nada escrito. Talvez.

Queimou-se o cigarro morto entre o indicador e o médio da mão esquerda, esmago a ponta no cinzeiro, e é então que sinto que os meus lábios tremem. Escondem um soluço, tremendo, e é nos lábios que nasce a torrente de espasmo que forçadamente quer percorrer todo o meu corpo, sacudindo-o. Num pranto envergonhado. Tremendo os lábios, porque não sabem se dizer

- Gosto de ti

será suficiente para que tu e eu própria entendamos o que há realmente entre nós, para lá do teu olhar de esguelha, por cima do jornal, e os gestos do meu embaraço pairando no silêncio da distância que nos desune.

Nada fazes. Perdes-te revolvendo o jornal nas páginas desportivas e deixaste em cima da pequena mesa da sala de estar a revista de domingo, como se a revista, de algum modo, fosse para ti, e à tua maneira, um

- Gosto de ti

imaginando-me perdida nos artigos sobre a saúde do corpo, a beleza, as receitas de culinária e os passatempos, mas, sabes, por mais que me esforce, não são essas as palavras que ouço no mais íntimo de mim. Acentua-se, na maneira como viras as páginas do jornal e no silêncio dos teus lábios herméticos, a distância que nos separa.

Sirvo-me de mais uma chávena de café, bebo-o sofregamente como se fosse um elixir qualquer que volvesse o tempo, os objectos, para que nada disto fosse assim. Acto contínuo, acendo um novo cigarro, mas o fumo repetido a esta hora da manhã pesa-me demasiado nos pulmões, pelo que duas ou três fumaças depois já o estou a esmagar no cinzeiro de vidro.

Olho para ti e quero que olhes para mim. Mas é o jornal que tu queres olhar. Estás num espaço onde me tens barrada a entrada. Se vou ter contigo,

(como se tocar-te fosse uma espécie de murmúrio ao teus ouvidos

- Gosto de ti),

já sei que me dizes que queres que te deixe em paz, que estás a ler o jornal e detestas ser interrompido, que vá passear o cão, ver se o periquito tem água e sementes, se há alguma roupa para dobrar, se o almoço já está adiantado, se o lixo está no contentor.

Assim tem sido há vinte anos. Sem filhos que os recusaste porque não és capaz, sem amigas ou amigos que me venham visitar por gosto e propósito, não aqueles que trazes de vez em quando para jantar, mas amigos meus verdadeiros, que me façam distrair daquilo que eu sou, daquilo em que me conformei ser – a tua mulher – como se o facto de ser a tua mulher,

(tua de papel e aliança abençoada pelo deus em que acreditas e pensas ajudar o teu clube nas noites de jogo com outro clube a partida do futebol que assistes refugiado com os teus amigos e comparsas pela televisão no café mais adiante),

significasse ter de servir-te, existir para servir-te.

Maquilho-me, componho a roupa, uso os perfumes que me ofereces em todos os meus aniversários que celebrei a teu lado na mesma atitude

- Gosto de ti

para que me olhes, apesar de saber que muitas das vezes te interrogas, desconfiado, porque me maquilho e visto assim, e que sintas que a minha presença não é uma tua necessidade pontual, mas a mulher que escolheste para viver contigo e com quem devias partilhar todos os momentos.

Tudo em vão. As folhas do jornal ocupam com o seu ruído amarrotado o silêncio que afinal não preenche a casa. No sofá estás tu e o teu mundo. Eu sou mais uma peça de bibelot arrumada no pó do esquecimento.

Porque será que não estou bem, passados estes vinte anos em que afinal outro homem não revelaste ser senão este mesmo, tu mesmo, que estás enterrado desde que nos casamos nesse sofá lendo as páginas desportivas do jornal, e que me olha de soslaio como se ordenasses Não incomodes!, dobrando as folhas impressas num revoar de pássaros espantados nos teus braços? Porque será?

Infelizmente já sei o porquê, e nem o deves imaginar. É pelo mesmo motivo que voltei a fumar, deixando-te surpreso quando me viste há dias, novamente com o vício a soprar pelos meus lábios, sempre impecavelmente pintados para ti. E tu pouco te importaste, disseste que a saúde era minha, ao passo que tu fumas mais do que eu, e daí fazes pretexto para voltares a inundar a sala, o quarto, a casa de banho com o cheiro pestilento do fumo excessivo que carregas.

O motivo. Das minhas mais recentes insónias e das minhas mais recentes fingidas dores de cabeça que te irritam e desiludem, nas parcas vezes que me procuras para outro fim que não seja dar-te de comer, dar-te de vestir, dar-te o conforto de uma casa composta. O motivo dos meus olhos borratados do rímel, o motivo de, ao fim destes anos todos, esperar-te na sala de estar, embrulhada numa manta, até altas horas da madrugada, quando dizes que é o trabalho, são os clientes, é o patrão.

O motivo encontrei-o com a mesma dedicação que sempre tive ao tratar da tua roupa suja, como de costume espalhada no chão do quarto ou da casa de banho, após uma noite em que estiveste longe, porque o trabalho, dizias tu, porque os clientes, porque o patrão. Terá sido um dos teus clientes, o teu patrão quiçá, ou outro alguém do teu tão cansativo trabalho que terá deixado dentro de um dos teus bolsos um pedaço de um guardanapo de papel, entre muitos gatafunhos que não soube entender, mas onde se via nitidamente a viva flor da tinta que exibia um

- Gosto de ti

?


18 de novembro de 2009

era novembro e chovia



Era Novembro e chovia. Na pequena aldeia, as principais ruas eram iluminadas por um brilho amarelo e tímido das lâmpadas plantadas de longe a longe. Como se as tivesses tirado do sótão e pendurado nos postes magros

(lembras-te do sótão com certeza, vinham as noites quentes de verão, levavas-me lá acima para ver o céu estrelado e dizias


- Um dia compro-te um telescópio e ficamos os dois aqui a ver as estrelas de perto

mas nunca isso aconteceu, sabias lá o quanto te custaria um telescópico… tinhas sonhos a mais para um homem da tua condição e isso matava-te, matava-te tu saberes tanto e poderes tão pouco).


Uma dessas luzes amarelas e fracas brilhava uns metros depois da casa, conseguíamos vê-la da janela húmida que a mãe corria a fechar-nos ao mundo, com as suas portadas desengonçadas e velhas, quando chovia

- Não quero que ninguém se constipe, não há dinheiro para comer quanto mais para remédios e xaropes

e ainda assim, apesar de todos os seus cuidados, eu acabava por adoecer mal o frio chegasse à aldeia, com febres e delírios, a mobília crescia e diminuía, transformava-se, as vozes falavam-me estrondosas como trovões, mas se me esforçasse um pouco mais a concentrar-me, eras afinal tu que recolhias a casa, deixavas os três porcos que nos restavam no aido, roncos de suíno, chicotadas,

- Eh porco!

ralhando e praguejando com os animais, mas no fundo eras bem capaz de te deitar com eles, no chiqueiro, eras capaz de os confundir com os camaradas que jogavam contigo o dominó ou a sueca, na adega do senhor Manel. Lembro-me da mãe muitas vezes me dizer

- Fica aqui quieta, não abras a porta

e quando julgava eu que me tinham abandonado para sempre, a porta abria-se em soluços, e entravas tu, empurrada pela mãe, o teu cotovelo a desarmá-la, fazias aquele teatro de tentares ficar sóbrio para que eu não reparasse e murmuravas

- Não deixes que a miúda saiba

e a mãe, sem baixar a voz

- Não tivesses bebido

e tu, ainda murmurando

- Fui na maré

e a mãe, elevando cada vez mais a voz

- Um dia afogas-te.

Vinhas cambaleando sobre mim, eu por vezes receava, não que me batesses, a mim nunca o fizeste, mas porque parecias um desses móveis transformado em monstro que aumentava e diminuía consoante as febres e eu fugia-te

(e como te magoava o meu medo, o porquê de te fugir, a tua filha que te fugia).

Só então é que erguias o punho, como se a mãe tivesse culpa do meu medo, do teu delírio e, ainda que desses apenas uma vez, a mãe no outro dia havia de se desculpar às vizinhas com uma queda, um tacho que caíra do armário, para justificar aquela nódoa, aquele olho inchado. Por vezes choravas, dizias que tinhas matado, esventrado, e eu imaginando-te lá por África matando e esventrando porcos, como sempre fizeste desde que me lembro cá em casa. Nunca compreendi que turras eram esses, nunca compreendi os comunistas que nos comiam ao pequeno-almoço, se calhar os comunistas móveis transformados numa febre, nunca compreendi as tuas lágrimas, assim como nunca compreendi que numa dessas noites de Novembro, em que chovia lá fora, e não se viam estrelas, o sótão estava fechado até que fosse verão novamente, e ouvi a mãe gritar

- Ai Meu Deus, Ai Meu Deus

fazendo alarido àquela hora tardíssimo, ela que detestava que falasses alto quando fazia noite, a mãe que te fora buscar porque fazia horas que não saías da soturna adega do senhor Manel, boteco escuro que apesar dos rebuçados coloridos que o dono me oferecia constantemente, me dava arrepios lá entrar. Não fosse ele ser teu companheiro lá em África e me comprar com doces para eu entrar naquele cubículo a tresandar a vinho e a aguardente, fugia dali a sete pernas, porque sabia que mais tarde ou mais cedo tu sairias de lá e quererias ficar a dormir com os porcos

- Eh porco!

E foi numa dessas noites: a mãe encontrou-te estendido na lama dos animais, de bruços, e quando te virou o corpo, viu-te os olhos baços, tão baços quanto a lâmpada amarela que iluminava a rua, e a tua boca aberta

(eu não sei, não vi, ela é que dizia)

lamentando as desgraças que por África dizias ter semeado.

14 de novembro de 2008

partículas


Leituras, por Pedro Moreira em 1000 imagens


Não volto por te achar ausente, ou porque esse cliché gasto da saudade me tenha batido à porta. Não tenho portas na minha morada há muito tempo – se a foste bater erraste no endereço.

As coisas sempre vão mudando, sabes disso, não sabes? Se os ponteiros de um relógio pararam não quer dizer que tenha o tempo suspendido por uma ilógica razão cósmica à mercê das nossas vontades mais mesquinhas. Apenas porque aconteceu ter-se esgotado a energia de uma pilha, ou uma corda que desandou.

Os relojoeiros encontram também pó nas engrenagens desses aparelhos. Pequenas partículas que impedem as rodas dentadas de prosseguirem a sua função coronária. E pode ser uma boa razão; talvez a melhor razão. A mais razoável, passo o pleonasmo. Pó na engrenagem. Partículas minúsculas que nunca vemos mas suficientes para que tudo pareça continuar igual, inalterável. Que nada tenha evoluído, nenhum passo dado, nenhuma atitude tomada.

Porém, tudo continua funcionando, os vazios cobrem-se de espaços, os silêncios inundados de ouvidos; e depois já não somos nada do que tencionáramos ser, ou pelo menos nunca iguais ao que já fomos. Tudo transfigurado: olhamos o relógio, os ponteiros exactamente na mesma posição

(dias, semanas, meses, anos?)

sorrisos eternos, lágrimas cristalizadas, e não existiriam razões para dúvidas, não haveria argumentos para recear as mudanças que as estações do ano nos obrigam. E quando enfim nos damos conta dessa falácia, entendemos de garfo suspendido a meio de uma refeição que afinal o sol se deitou para a noite o fertilizar com novos amanhãs, e num instante os dias foram completando ciclos repetidos embora sentidos em movimentos de moribundo.

Pó na engrenagem. Volto cá para o sacudir, como quem renova a vida de um livro com um sopro dos lábios, ou restaura a cor com a palma da mão a um quadro escondido no sótão. Não vim pela ausência sentida, nem por essa saudade trauteada. Apenas para que te desses conta que os ponteiros podem agitar-se novamente, qual músculo cardíaco reanimado por pequenas mãos frágeis. Aliás, que a fragilidade é um equívoco, os ponteiros sempre prosseguiram o seu caminho, a sua sombra é que fugiu na escuridão. Ficas então a saber a partir de agora. Como tudo o resto já sabe.

É a sabedoria que nos regela de arrepios e receios.

30 de novembro de 2006

intermezzo

Tudo foi ontem, tudo passou, e contamos apenas com o presente, se o futuro é indescritível e muito insolente, de feitio difícil, carregado de promessas e porém alimentado de contradições. Portanto, que ainda não existe, e não merecerá a pena avaliar ou prever. Talvez porque seja feito de efémeros presentes de todos os minutos, de todas as horas, manhãs, tardes, dias, semanas, meses, anos. Talvez porque o futuro seja afinal tão só a inalcançável eternidade. Então o que seguramos nas mãos, o peso que trazemos ao ombro, a matéria de que é feita a nossa cruz, venham a ser em vão. Nascemos para chegar ao fim, sem promessas e em consecutivas esperanças contraditórias. Somos o hoje sobrando do que fomos ontem. O futuro é ontem, alimento dos sonhos e de todos os nossos delírios. O pouco que poderia ser muito, o nada que viesse a ser o todo. Partimos sem rumo para a meta, e sabendo que ela lá estará, que é, enfim, a única certeza. E perante isto apenas nos resta, e restará, a dúvida: que farei quando tudo arde? -, equação para a véspera do todo ou do nada.

19 de novembro de 2006

tardes pardas


autor desconhecido


Abro as mãos sob a chuva a tentar compreender o teu pranto saciando as tardes pardas. São chuvadas fortes, magoam-me as polpas dos dedos e sulcam nas palmas outras linhas que não me era permitido observar. Esgueiro-me dentro do carro, acudindo o meu corpo encharcado e sigo numa marcha lenta

a mesma lentidão das tardes pardas

engolindo aos poucos o brilho da luz falecida nas poças de chuva subindo na estrada. Vejo outros carros circulando mas é a cidade deserta, ainda que sob um guarda-chuva passe ligeira uma ou outra pessoa, vão de cara fechada, vão anónimos, e por isso as ruas desertas

enquanto nas polpas dos meus dedos a chuva do teu rosto

carpindo

e o meu medo de tocar no teu fundo, no fundo de tudo

as insónias da madrugada anterior.

Quando houve a manhã com promessas de sol pensei que um sonho, um pesadelo, mas eras tu que crescias dentro do dia acinzentando-se. Houve o almoço e o apetite em luxos de cerimónia

- Não quero mais, estou bem servido.

e nada disso. Apenas a vontade de fugir

eu com medo do fundo para onde me arrastavas, eu basta e tu sempre insistindo

com a água cercando-me o equilíbrio das emoções. Não compreendo a tua chuva, apesar da mesma lentidão e das mesmas sombras pardas. Quiseste-me em ti, dentro de ti

sustive-me nas esquinas dos teus lábios, mas arrependido sacudi-te, porque o sal

como quem avança no mar e se esquece do fundo

o sal um amargo de vida a que não queria retornar; liberta-me, esquece-me.

Para quê o mar violento e salgado como a morte, se esta chuva, se estas tardes pardas? Sabes, perdi a vocação para a tortura. E para os abismos.

30 de novembro de 2005

nem sempre são as palavras


Julie, de Filipe Oliveira em 1000 imagens

- Nem sempre são as palavras que dizem.
- Que dizem o quê?
- Tudo. Nem sempre são as palavras.
- Queres dizer também o olhar?
- E o rosto, principalmente o rosto.

Lágrima
O Rosto é Lágrima.
Frio Orvalho.
Sentimento, Criação.
Espírito.
Tarde
O Rosto é a Tarde
Desejo que Arde.


É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto o fogo ateado no meu peito que vem consumindo as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. É um bocejo, um quadro sobre a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida, a questão de saber o que queremos. Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já, tanto quanto eu, que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos...

26 de novembro de 2005

pela humidade dos lábios


Anjo, de Paulo Almeida em 1000 imagens

para a Marta Nogueira


Fumo sobre um copo de whisky que tem a humidade dos meus lábios. Tinha a quase certeza que aceitarias o meu convite, mas a cidade era um aglomerado deserto de gente sem a tua presença. Não sei se pelo sol tímido, se pelas nuvens plúmbeas que ameaçavam o encanto breve da praça, se pelo frio que obrigava os passos das pessoas naquele ritmo ligeiro sem olhar o rosto dos outros – era uma cidade sem carne, sem sangue. As tuas mãos não estavam lá, para me proteger, para me encaminhar.

E desencaminhado retrocedi toda a marcha da tarde, acabando neste cubículo onde enfim me incenso. O whisky convidou-me numa solenidade aristocrática para que, de resto, não apagasse a luz da tarde só. O tampo da mesa teria poesia para te recitar, talvez dois ou três versos me saíssem das mãos a agradecer-te a presença. E o meu rosto teria uma ternura de criança, emocionada com o tom da tua voz, como se essa criança quisesse o embalo do teu colo.

Não estiveste, não vieste. Voaram os pássaros, recolhidos numa pluma de sono quando a tarde caiu. Fiquei com a memória vaga de ti, e numa atitude digna

(porque o whisky quis que me rendesse à sua condição aristocrática)

acendi o cigarro sem convulsões, sem qualquer lágrima, apenas a postura lamechas de ir fumando sobre o copo que tem a humidade dos meus lábios. Sem os teus, sem os teus... Uma humidade salgada, pois que talvez os lábios também chorem. Quando te encontrar, nada te direi – estarei enrolado numa pluma de pássaro para que sejas tu a tomar a iniciativa de entrar no meu sono. Se vieres então

(sem whiskies, sem cigarros, sem poesia – e sem qualquer inclinação lamechas)

tomarei o teu corpo debaixo do meu para respirar brisas de uma primavera ainda longe dos calendários.

21 de novembro de 2005

diferente sempre


(autor desconhecido)

É diferente sempre o que pensas de mim. Arrumo-te a um canto da boca a soletrar patetices como quem desfolha o malmequer na esperança que a conta lhe abra portas esotéricas para um amor de todo impossível. A música rompe num lamurio de lágrimas contidas, como se a raiva fosse possível neste espaço. Olha que não é… Rasgas o papel numa incontinência de frustrações e nada te devolve o sossego. E assim se conhece um pateta: o olhar esbugalha-se perante o que não conheces, o que pensavas não ser possível. Estás na exacta posição de rato de cobaia, serves-me na experiência de que o ser humano é um bicho amedrontado pela solidão. E a solidão nada mais é que uma simples sombra. E debitadas a frustrações, não te lembras que onde há uma sombra há uma luz por onde poderias sempre fugir. Porém nunca saberias como fugir de ti mesmo, não é verdade? Como seria? Um grito? Uma carta de suicídio? Penso que talvez a cobardia, como qualquer ser humano…

15 de novembro de 2005

de pé

Aguenta-te como as árvores. Dizem que morrem de pé, escancarando a boca dos ramos num esgar de perene agonia. E sem mudar de figura secam até ao esqueleto, depois de levadas a enterrar no húmus do tempo. Se as esquecem, serão ingratos. Por isso deves aguentar-te firme, assim como uma árvore. Ignorando intempéries, catástrofes de maior calibre. Cada dedo teu o ramo que deixará, ano após ano, de ver nascer as folhas dos teus gestos. Secarás até ao esqueleto, e se o tempo também te recolherá, terás ainda o perfume da terra que te plantará na língua toda a eternidade.

Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.

Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca.

2 de novembro de 2005

passarão os dias


foto de Jorge Marçoa em 1000 imagens


E passarão os dias e a voz quieta. O sono será talvez mais profundo, e a memória não quererá guardar o resquício dos sonhos desbaratinados. Virão outros dias, e de braços mais vigorosos, com a voz limpa e cristalina a debitar os mesmos delírios que me ouvias ontem divagar prostrada na tua paciência inclinada para a efemeridade.

Como se dissesses Cala-te!, e o meu ar amedrontado te desse a força que precisas para impor a tua presença neste meu mundo que te ignora constantemente.

Passarão os dias e verás que o que fizeres será em vão. Este é apenas um estado de crisálida que inventei, uma série de nuvens negras que deixo abater-se sobre o meu corpo, e que por sua vez procura o abrigo do teu – tão calmo, tão tenro, materno até.

Quando acordar não será necessário que me faças calar, a minha voz tomará as asas a que um dia lhe tiraste o vigor do voo, e nessa altura, estarei pois de voz limpa e cristalina para calar definitivamente, dentro de ti, os fantasmas e as sombras com que me sacodes diariamente.