18 de novembro de 2018
ponto final
11 de novembro de 2018
entropia
10 de novembro de 2018
transtorno
5 de novembro de 2018
pouco ou tanto
4 de novembro de 2018
côdeas
3 de novembro de 2012
imagem depois de ti
11 de novembro de 2011
palíndromo
Me incido e desdobro-me em ti, palavra sem certeza e rápida que passa como nuvem empurrada por um vento que nos desfaz assim, nessa palavra polida pela imagem rasgada de uma tela. Na minha voz és cor, mas sem sabor porque a língua não te produz, apenas emite o que o pensamento julgou ser e luz. São aguarelas os poemas, trazes o título dessa canção que os meus ouvidos ouvem como quem mexe na estéril areia.
7 de novembro de 2010
exaltação a ofélia (glosando antónio lobo antunes)
24 de novembro de 2009
o motivo

18 de novembro de 2009
era novembro e chovia

14 de novembro de 2008
partículas

Leituras, por Pedro Moreira em 1000 imagens
Não volto por te achar ausente, ou porque esse cliché gasto da saudade me tenha batido à porta. Não tenho portas na minha morada há muito tempo – se a foste bater erraste no endereço.
As coisas sempre vão mudando, sabes disso, não sabes? Se os ponteiros de um relógio pararam não quer dizer que tenha o tempo suspendido por uma ilógica razão cósmica à mercê das nossas vontades mais mesquinhas. Apenas porque aconteceu ter-se esgotado a energia de uma pilha, ou uma corda que desandou.
Os relojoeiros encontram também pó nas engrenagens desses aparelhos. Pequenas partículas que impedem as rodas dentadas de prosseguirem a sua função coronária. E pode ser uma boa razão; talvez a melhor razão. A mais razoável, passo o pleonasmo. Pó na engrenagem. Partículas minúsculas que nunca vemos mas suficientes para que tudo pareça continuar igual, inalterável. Que nada tenha evoluído, nenhum passo dado, nenhuma atitude tomada.
Porém, tudo continua funcionando, os vazios cobrem-se de espaços, os silêncios inundados de ouvidos; e depois já não somos nada do que tencionáramos ser, ou pelo menos nunca iguais ao que já fomos. Tudo transfigurado: olhamos o relógio, os ponteiros exactamente na mesma posição
(dias, semanas, meses, anos?)
sorrisos eternos, lágrimas cristalizadas, e não existiriam razões para dúvidas, não haveria argumentos para recear as mudanças que as estações do ano nos obrigam. E quando enfim nos damos conta dessa falácia, entendemos de garfo suspendido a meio de uma refeição que afinal o sol se deitou para a noite o fertilizar com novos amanhãs, e num instante os dias foram completando ciclos repetidos embora sentidos em movimentos de moribundo.
Pó na engrenagem. Volto cá para o sacudir, como quem renova a vida de um livro com um sopro dos lábios, ou restaura a cor com a palma da mão a um quadro escondido no sótão. Não vim pela ausência sentida, nem por essa saudade trauteada. Apenas para que te desses conta que os ponteiros podem agitar-se novamente, qual músculo cardíaco reanimado por pequenas mãos frágeis. Aliás, que a fragilidade é um equívoco, os ponteiros sempre prosseguiram o seu caminho, a sua sombra é que fugiu na escuridão. Ficas então a saber a partir de agora. Como tudo o resto já sabe.
É a sabedoria que nos regela de arrepios e receios.
30 de novembro de 2006
intermezzo
19 de novembro de 2006
tardes pardas

a mesma lentidão das tardes pardas
engolindo aos poucos o brilho da luz falecida nas poças de chuva subindo na estrada. Vejo outros carros circulando mas é a cidade deserta, ainda que sob um guarda-chuva passe ligeira uma ou outra pessoa, vão de cara fechada, vão anónimos, e por isso as ruas desertas
enquanto nas polpas dos meus dedos a chuva do teu rosto
carpindo
e o meu medo de tocar no teu fundo, no fundo de tudo
as insónias da madrugada anterior.
Quando houve a manhã com promessas de sol pensei que um sonho, um pesadelo, mas eras tu que crescias dentro do dia acinzentando-se. Houve o almoço e o apetite em luxos de cerimónia
- Não quero mais, estou bem servido.
e nada disso. Apenas a vontade de fugir
eu com medo do fundo para onde me arrastavas, eu basta e tu sempre insistindo
com a água cercando-me o equilíbrio das emoções. Não compreendo a tua chuva, apesar da mesma lentidão e das mesmas sombras pardas. Quiseste-me em ti, dentro de ti
sustive-me nas esquinas dos teus lábios, mas arrependido sacudi-te, porque o sal
como quem avança no mar e se esquece do fundo
o sal um amargo de vida a que não queria retornar; liberta-me, esquece-me.
Para quê o mar violento e salgado como a morte, se esta chuva, se estas tardes pardas? Sabes, perdi a vocação para a tortura. E para os abismos.
30 de novembro de 2005
nem sempre são as palavras

Julie, de Filipe Oliveira em 1000 imagens
- Que dizem o quê?
- Tudo. Nem sempre são as palavras.
- Queres dizer também o olhar?
- E o rosto, principalmente o rosto.
Lágrima
O Rosto é Lágrima.
Frio Orvalho.
Sentimento, Criação.
Espírito.
Tarde
O Rosto é a Tarde
Desejo que Arde.
É a brisa que traz até mim o perfume dos teus cabelos, o perfume que nunca senti, que não conheço. É a memória do teu rosto o fogo ateado no meu peito que vem consumindo as tardes. É a noite em que te busco cego sem sair deste lugar onde escrevo sem lua sem estrelas, sabendo que não vou encontrar-te. É um bocejo, um quadro sobre a ponte, o rio, cidade onde tudo é nada, mas principalmente um beijo que dos teus olhos chega até mim como flor que perde as suas pétalas, em forma de dúvida, a questão de saber o que queremos. Sei já que sabes que mesmo no nada sabemos um do outro. Sabemos desta fresca manhã que desperta no cruzar fugaz dos olhares. Sabes já, tanto quanto eu, que a tua mão permanecerá fria. Que o calor do meu peito não te aconchegará. Que de ambos o afago não tocará nem de leve nossos corpos...
26 de novembro de 2005
pela humidade dos lábios

Fumo sobre um copo de whisky que tem a humidade dos meus lábios. Tinha a quase certeza que aceitarias o meu convite, mas a cidade era um aglomerado deserto de gente sem a tua presença. Não sei se pelo sol tímido, se pelas nuvens plúmbeas que ameaçavam o encanto breve da praça, se pelo frio que obrigava os passos das pessoas naquele ritmo ligeiro sem olhar o rosto dos outros – era uma cidade sem carne, sem sangue. As tuas mãos não estavam lá, para me proteger, para me encaminhar.
E desencaminhado retrocedi toda a marcha da tarde, acabando neste cubículo onde enfim me incenso. O whisky convidou-me numa solenidade aristocrática para que, de resto, não apagasse a luz da tarde só. O tampo da mesa teria poesia para te recitar, talvez dois ou três versos me saíssem das mãos a agradecer-te a presença. E o meu rosto teria uma ternura de criança, emocionada com o tom da tua voz, como se essa criança quisesse o embalo do teu colo.
Não estiveste, não vieste. Voaram os pássaros, recolhidos numa pluma de sono quando a tarde caiu. Fiquei com a memória vaga de ti, e numa atitude digna
(porque o whisky quis que me rendesse à sua condição aristocrática)
acendi o cigarro sem convulsões, sem qualquer lágrima, apenas a postura lamechas de ir fumando sobre o copo que tem a humidade dos meus lábios. Sem os teus, sem os teus... Uma humidade salgada, pois que talvez os lábios também chorem. Quando te encontrar, nada te direi – estarei enrolado numa pluma de pássaro para que sejas tu a tomar a iniciativa de entrar no meu sono. Se vieres então
(sem whiskies, sem cigarros, sem poesia – e sem qualquer inclinação lamechas)
tomarei o teu corpo debaixo do meu para respirar brisas de uma primavera ainda longe dos calendários.
21 de novembro de 2005
diferente sempre

(autor desconhecido)
É diferente sempre o que pensas de mim. Arrumo-te a um canto da boca a soletrar patetices como quem desfolha o malmequer na esperança que a conta lhe abra portas esotéricas para um amor de todo impossível. A música rompe num lamurio de lágrimas contidas, como se a raiva fosse possível neste espaço. Olha que não é… Rasgas o papel numa incontinência de frustrações e nada te devolve o sossego. E assim se conhece um pateta: o olhar esbugalha-se perante o que não conheces, o que pensavas não ser possível. Estás na exacta posição de rato de cobaia, serves-me na experiência de que o ser humano é um bicho amedrontado pela solidão. E a solidão nada mais é que uma simples sombra. E debitadas a frustrações, não te lembras que onde há uma sombra há uma luz por onde poderias sempre fugir. Porém nunca saberias como fugir de ti mesmo, não é verdade? Como seria? Um grito? Uma carta de suicídio? Penso que talvez a cobardia, como qualquer ser humano…
15 de novembro de 2005
de pé
Por isso, em vez de pensares em tudo o que te digo e te lembrarei consoante o embalo do vento, faz com que floresça o que és, e te amadureça no peito o melhor do fruto. Se te esquecerem, morrerão de fome, deitados como qualquer folha velha varrida na sarjeta. Porque as árvores, pois que são nobres se nos dão a sombra e o fruto, morrem de pé. Não tenhas medo da tua boca escancarando o mundo.
Latirão os cães o dobrar dos finados. Deles não se esquecerão nunca.
2 de novembro de 2005
passarão os dias

foto de Jorge Marçoa em 1000 imagens
E passarão os dias e a voz quieta. O sono será talvez mais profundo, e a memória não quererá guardar o resquício dos sonhos desbaratinados. Virão outros dias, e de braços mais vigorosos, com a voz limpa e cristalina a debitar os mesmos delírios que me ouvias ontem divagar prostrada na tua paciência inclinada para a efemeridade.
Como se dissesses Cala-te!, e o meu ar amedrontado te desse a força que precisas para impor a tua presença neste meu mundo que te ignora constantemente.
Passarão os dias e verás que o que fizeres será em vão. Este é apenas um estado de crisálida que inventei, uma série de nuvens negras que deixo abater-se sobre o meu corpo, e que por sua vez procura o abrigo do teu – tão calmo, tão tenro, materno até.
Quando acordar não será necessário que me faças calar, a minha voz tomará as asas a que um dia lhe tiraste o vigor do voo, e nessa altura, estarei pois de voz limpa e cristalina para calar definitivamente, dentro de ti, os fantasmas e as sombras com que me sacodes diariamente.


