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29 de setembro de 2013

de ti ou de um qualquer outono como este final de setembro


O outono terá começado e as chuvas primeiras que caíram terão acariciado os milheirais e fustigado as pedras

(as florestas ardidas com o hálito criminoso de agosto).

O crepúsculo tem o som assobiado do melro colorido de nostalgia, as palavras correm a menor velocidade, e os tapetes de folhas estalam sob os pés dos mendigos.

O descanso de uma gaivota no pilar da ponte é uma estátua de brisa espelhada nas águas do rio. As sombras quando anoitece são esses gatos pardos que se perdem vagabundos no colo do pensamento.

Finda setembro e não dei pelos dias que correram. Tudo é matinal em mim quando vindo de ti; e se gosto desta chuva é porque apenas me lavam do rosto as fadigas que teimariam em ficar.

Porém, partir do verão sem ti é negar todo o ano. Não quero que setembro se esgoste sem um beijo meu sobre a manhã de ti. 

De ti, que resolves os humores com o cardinal da primavera como se não houvesse ano para celebrar e passar.

Não é minha vontade contrariar-te.

15 de setembro de 2012

reencontro

fotografia de Rogier Houwen

Hoje é dia da boca do povo, Emília, ou do seu silêncio a contestar com o olhar posto no futuro incerto. Queremos que se mude o rumo deste país, defendem. Tu sabes, já que vês, ao contrário de mim, os noticiários na televisão e as gordas dos jornais. Descemos a avenida, ainda deserta, sob o sol de Setembro que aprendeu nos últimos anos em teimar com o verão, uma vez que é o seu último reduto. De tal forma que nem em Julho ou Agosto consegui manchar a camisola que trago do suor que transpiro agora, abafado, com a fadiga colada ao corpo,

(há quanto tempo não desço esta avenida com uma temperatura assim? Faz-me lembrar os tempos de adolescente em que…),

pesando ainda que o vinho que tomamos durante o almoço em nada ajuda para que o corpo consiga arrefecer minimamente. Dizes:

- Não tenho pachorra para manifestações, Eduardo, já foi o tempo disso, chavões e palavras de ordem, os mais patéticos cartazes, insultos aos políticos, punhos erguidos, cantorias fora de moda, gritos e histerias, diz-me lá

(e eu a notar do quanto esta avenida, aquela praça, estão despidas de árvores; vinte ou vinte e cinco anos atrás havia tanta sombra. Descíamos a avenida, entroncávamos na estação e descíamos uma das ruas para ir saciar a sede junto ao rio, onde procurávamos tremoços, azeitonas e cerveja fresca, lembras?)

- Diz-me por que, se querem tanto mudar, não pegam em armas e fazem um golpe, mas que santo ainda acha que isto vai lá com manifestações? Alguma resultou, Eduardo, consegues dar-me exemplos, ou sou eu que já estou ché-ché?

Sei lá responder-te, Emília, a mim tanto me faz desde que me encontres uma sombra para me aliviar do suor a inundar-me as costas, a sudação das tuas mãos já me repugna, não te agarres, afasta-te por favor, leva-me para um chuveiro e uma penumbra; havia dias, sabes, em que em vez de passear pela cidade

(e como podes saber se isto não era contigo?)

decidíamos ficar em minha casa, quando os meus pais e irmãos lá não estavam, abençoando-nos com a sua ausência. As persianas mal corridas, os lençóis frescos da minha cama, o silêncio da casa acolhendo lentamente a música que colocávamos no aparelho de som, bebidas frescas, tantos sorrisos cúmplices, os nossos corpos

(adorava os domingos contigo, fosse verão ou inverno, promessas de dias inteiros na primavera ou de melancólicas tardes coloridas do outono que vingava o crepúsculo mais cedo)

Calma, estamos a chegar, dizes-me, para aliviar-me do incómodo do sol. Pescas da carteira um molho tilintante de chaves, olho a frontaria  velha e granítica do prédio para onde me levas, as pombas recolhidas na cornija com esperança que o calor não lhes apanhe a tranquilidade, vejo em baixo uma esplanada de plásticos desbotados com cerveja a servir a sede de alguns aventureiros, e continuas com o teu julgamento: Pouquíssima gente, não está por aqui quase ninguém, achas que isto vai encher?, pois sim, foram é todos para a praia, com um sol destes, que é o que o povo gosta, estão todos a borrifar-se nas manifestações!

(A casa onde vivia com os meus pais, Fernanda, sem a família lá dentro, ou seja, a casa dos meus pais vazia como se fosse só nossa, como sempre havíamos de sonhar com uma casa assim, habitada pelo silêncio e por nós; lembro-me de nos despirmos do calor e saboreávamos cada sombra da casa nus, partilhando-nos como se o mundo fosse apenas nós e nosso)

Estás bem?, perguntas-me ao ver-me desesperado com o calor, Olha para o que havia de nos reservar o setembro, ahn?, e eu com o olhar distante no passado. Abres uma porta pesada, um hall de entrada cheirando a coisa velha, uma porta interior à direita, uma outra à esquerda, e em frente uma escadaria em madeira: Vamos, é lá em cima, encorajas-me,

(e como eu adorava o perfume dos teus cabelos loiros, cheiro do feno e da maçã, a maciez dos teus ombros, o rubor dos teus seios, a ternura da carne do corpo tão apelativa como um forno no inverno, tu toda beijos mordiscando-me os sentidos a acenar com gemidos o quanto o amor te dava de felicidade, e tudo aquilo me parecia tão perfeito),

subimos a escadaria rangendo em cada degrau e no primeiro patamar, rodando à esquerda, a porta com a placa em latão anunciando “Emília Prado, Psicóloga”. É aqui, confirmaste, abrindo a porta com outra chave. Há água naquele frigorífico, vai beber antes que caias para o lado,

(nós divertíamo-nos com cocktails inventados, gelo, copos de várias formas, mas a sede saciávamo-la com a pressa das nossas línguas, jovens éramos, e eu questiono-me)

- Porque diabo não paramos nos vinte anos, Emília?

(e não é para a Emília, é para ti que falo, Fernanda, porque diabo não fomos capazes de matar o tempo com os nossos corpos em êxtase, onde foi que tudo se perdeu e para onde, e porquê, afinal?)

Estás doido, o sol fez-te mal à moleirinha!, dizes-me, a abraçar-me pelo pescoço, eu tão peganhento do suor, incomodado, de regresso à tona da realidade, porque não era para ti que falava há pouco, Emília. Insinuo em silêncio para que me tires os braços de cima de mim, estou ainda cheio de calor, Abres-me uma janela por favor?, peço-te. Claro, concedes, e mal abres a janela surge uma brisa leve a arrefecer-me os braços. Chego-me ao parapeito, subo o estore, olho para baixo. Olha!, exclamo, está aqui tanta gente em silêncio!... 

Vens espreitar e ficamos aqui os dois, nesta janela alta, juntando-nos sem surpresa à manifestação a que não querias dar importância. Vejo-te sorrindo, mas hoje não é a ti que vejo, nem a ti te sentirei quando mais tarde me deres o corpo faminto,

(abro parêntesis e digo que és tu, Fernanda, com quem eu hoje quero sonhar, e fazer testemunho de que o nosso amor, apesar de tão imaturo, terá sido o mais belo que alguma vez partilhei),

porque, de vez em quando, tenho necessidade de reencontrar-me com o meu passado, Emília. E devolver-lhe a paz.


25 de setembro de 2010

acentuado arrefecimento nocturno

Im Nebel der Nacht, por Michael Sturm em PhotoFrontal
Irrita-me ter a consciência de que o tempo se vai esgotando, num compasso que a princípio parecia tão lento que julgara que a era que hoje vivo quase nunca seria vindoura, para depois o ritmo acelerar tanto ao ponto de eu não ter a certeza de ter dado conta das estações e dos meses, e de me admirar se já é noite quando ainda há pouco despertava bocejando o sono da madrugada anterior. É verdade que me concedeu atingir um certo grau de maturidade e com isso um maior conhecimento de mim mesmo, dos outros e das coisas de que são feitas o mundo, mas aborrece-me que tenha o tempo essa liberdade tirana de ir passando sem me dizer onde foi, onde está e para onde vai, principalmente porque me leva arrastado consigo.

Não lhe dou confiança e vou esquecendo-me da idade que tenho. É um falso pressuposto para continuar emocionalmente equilibrado, mas sinto que devo lutar minimamente contra os abusos e feridas que as crises existenciais provocam, ainda que esteja a enganar-me e tenha o subconsciente alerta nesse sentido. Na verdade, atingir o ponto exacto da metade da esperança média de vida que as estatísticas oficiais nos oferecem, e reflectir sobre tal é como acordar a meio de uma ponte sem saber para qual dos lados seguir. Em frente é o caminho, apontam-me, e vão alertando-me que recuar até seria aprazível mas as leis físicas tanto quanto as conhecemos não nos possibilitam tal aventura. E recuar ainda podia ser fatal, já que ao longo da vida nunca percorremos rectas sem desvios, bem pelo contrário, e tantas foram já as barreiras e os obstáculos que duvido se não se tornariam ainda mais difíceis de transpor num caminho feito ao revés. Porém, atingir a metade do nosso tempo e seguir em frente é tomar uma tal dose de angústia e expectativa que podemos até continuar o caminho com ânimo e força, se a saúde não faltar, mas o certo é que seguimos tão intoxicados e tão nefastos de dúvidas que o melhor é enganar as ideias e fazer de conta que não sabemos nada disso do tempo que flui.

Cruel mesmo é quando não nos deixamos enganar por nós próprios, ou seja, não nos concedermos essa boutade de ser-se humano: esquecer simplesmente o tempo, e fingir sermos, nesse campo, irracionais. Contra esse tirano do tempo ainda temos uma arma poderosa que é a tragicomédia do suicídio existencial. Tão simples: barramos o tempo na precisa altura em que queremos cristalizar a imagem do que somos, passando para o lado dos que foram. Continuará o tempo a rir-se de nós, apontando-nos infelizes, condenando-nos ao passado, mas segue já de tal modo cheio de raiva que semeia o esquecimento nas mentes dos que ficam como os únicos que nos podem preservar essa eternidade a partir do momento em que decidimos ser apenas até onde chegamos. O tempo é como uma geada, queima tudo. E esquecendo ou acabando aqueles que nos conheceram em vida, morremos então definitivamente.

Não vou pois por aí. É preferível dar o braço a torcer e ver o que lá vem, sem cuidar muito de me preocupar. O tempo tem também alguns rasgos de misericórdia e concede-nos um pouco mais do seu espaço por vezes, nós é que nunca conseguimos prevê-lo. O malvado ainda se diverte:

- Vês como valeu a pena não me teres deixado?

Por isso vou continuar, esmorecendo a irritação e, sim, sem dar muita importância a esse delírio do universo. Já basta ter entrado numa fase de declínio após ter alcançado o pico mais alto da minha existência. Na descida também há frutos para recolher. Batalhas por vencer, louros a receber. E quem sabe uma apoteótica recepção na meta. O arrefecimento vai tornar-se acentuado, vou notá-lo, como quando caminhamos nas primeiras noites de outono, mas convém não esquecer que sou eu, somos nós. Ainda que levados pelo tempo somos sempre nós, os donos de nós mesmos.

22 de setembro de 2009

malabarista



Observa como me sustenho de braços abertos feito gaivota com cuidados de malabarista de circo sobre o fino rebordo do copo do uísque onde não me importa nada cair, perdido o equilíbrio e as estribeiras. Um passo em frente, braços continuamente abertos, dois passinhos mais, e num soluço ansioso o pé direito resvala e cá estou eu a afogar-me num mar de malte. Que interessa andar na corda bamba entre a incerteza de viver e resvalar no abismo? A esperança? Esse lamaçal esverdeado que te obriga todos os dias a levantar da cama com um sorriso nos lábios fazendo-te ignorar os compromissos que te asfixiam, a vida que levas e que julgaras sempre rejeitar?

Repara como os espelhos não te veneram, estão sempre aquém (ou além) do que pensas quem e como és. Guardamos na memória um restolho de vida que nos apetecia, mas vê lá tu, os dias minguaram sem que déssemos por tal, aliás, como em muitos outros momentos, constatar que as coisas mudam lentamente é um processo da nossa natureza de tempo interior que rejeitamos constantemente: não só as estações alteram, os filhos também crescem quando nos parecia que ainda há dias eram crianças ingénuas

(perdão? quem é ingénuo?)

agarradas ao biberão, choramingando os instintos da fome e da defecação.

Quando sentimos que nos falta alguma coisa (ou que algo se perdeu numa mudança irreversível) é que realmente percebemos que o tempo corre. Que até, afinal, tem qualquer coisa de ser vivo: um útero cósmico que nos resguarda distraídos até à morte, e que então nos poderá mostrar, findas as amarras umbilicais, o que nunca acreditáramos que nos mostravam os espelhos.

Pena é que no interior desse umbigo não sejamos resguardados dos nossos próprios actos e, por isso, quero lá saber se me afogo em sucessivos uísques ou que o mundo não poderá acabar nunca enquanto sobre tempo

- Ainda vais a tempo, pá!

para fazermos qualquer coisa pela nossa vida. Observa: sou uma ave com ares de malabarista desengonçando os braços no rebordo do copo. Quem se interessa uma peva por mim?

13 de setembro de 2009

papoilas




Lembro-me sim do dia em que choraste por me veres ao colo da mãe, aliás

o dia em que meu filho me perguntou se eu ainda gostava dele, pobre menino, de olhar desesperado

não me lembro, a mãe é que o conta vezes sem fim e a minha memória são das palavras dela, do sorriso distante com que as diz, por isso posso também dizer que me lembro muito bem de ti, não só pelas fotografias, mas pelo que és dentro da casa que habitei estes anos todos, uma casa

quis o pai porque pensou que eu o havia abandonado, e dou às vezes por mim a divagar como uma criança de apenas três anos tinha a sensibilidade de chegar a tanto, se bem que as crianças percebem tudo, pelo menos é o que dizem e eu

uma casa isolada num campo verde onde o sol sobe e desce como se só àquele lugar viesse a trazer a sua infinita luz, afinal era o que é hoje o meu mundo, tudo o que sou, tudo o que devo, a bela casa de pedra com janelas brancas e jardins repletos das cores das flores, o perfume dos dias quentes e o frio dos ventos quando fazia inverno e chovia

eu tão nervosa que nem cheguei a perceber bem porquê, afinal trazia-te a tua irmã ao colo, sei que

essa casa onde habitam as tuas brincadeiras, quando mais crescidos levavas-me a ver o pequeno regato que em Abril se enchia de pequenas colherezinhas que me ensinaste serem os girinos das rãs que faziam a sinfonia dos fins de tarde em que nos entretínhamos a escutar no silêncio e no guinchar do velho baloiço onde que me empurravas para não me sentir triste

eu não sabia bem ao certo se teria sido a melhor decisão, mas longe de mim imaginar que o meu filho se sentisse ameaçado

de modo que as minhas recordações giram em volta da tua pessoa, e por isso posso dizer que me lembro, lembro-me pois, o dia em que eu cheguei no colo da mãe e te escondeste porque me achavas um intruso, alguém que te invadia o espaço, e eu tão inocente quanto as papoilas que cresciam selvagens e belas pelo campo fora e que tu adoravas, tão serena e apaziguadora como os pássaros que voavam sobre nós e se recolhiam num chilreio orquestral no grande choupal que tu tanto gostavas de assistir, agarrada à mãe com medo e com vertigens, com medo dos quartos escuros

mas tudo passou, a maneira como depois acolheste a tua irmã recém chegada com abraços e beijos

tu nunca antes estiveste num quarto escuro, num espaço opaco sem afecto, sim também me lembro, também me lembro, garanto-te que me lembro bem de todas as luzes apagadas e eu sozinha.

o meu filho tinha um bonito coração e uma maneira tão dele de ver e sentir as coisas, um jeito tão dele de amar

Perdoa-me. É injusto dizer-te isto. Tu melhor que eu sabes o que é isso do vazio, da escuridão. Perdoa-me.

amavas a tua irmã mesmo vindo a saber mais tarde que ela não tinha nascido de mim como tu nasceste, que o pai e a mãe a fomos buscar a um orfanato onde era infeliz, onde partilhava a infelicidade parda e solitária com outros meninos como tu, mais velhos, mais novos

Do que me não lembro foi como partiste. Levaram-me para uma pequena casa entre outras pequenas casas, junto de uma ponte que atravessava um rio barrento e recordo-me, agora como se de uma fotografia, de olhar a rua íngreme esperando te ver pela mão da mãe e do pai, enquanto uma senhora de uma certa idade conversava com uma vizinha segredando eu ser sua sobrinha emprestada e eu sem entender nada, apenas esperava

onde isso lá vai, nem sei como tive coragem de dizer à minha filha o segredo da sua existência, segredo mantido durante anos com a cumplicidade do pai e do irmão, para garantir a sua felicidade... como somos ingénuos a lidar com as crianças...

e esperando passaram-se alguns dias até que

até que um dia tive de lhe contar

olhei a rua íngreme onde uma gaivota pegava num pedaço de pão seco com o seu bico amarelo e sorri quando vi o pai a acenar, e logo atrás, muito abatida, a mãe, vestida de um negro que não era vulgar

só não sei qual foi a parte mais dolorosa, desde aí a minha filha não falava tanto, deixava-se ficar sentada agarrada no baloiço tão parado quanto o seu olhar fitando o nada

um negro que me repudiava, que me levava ao quarto escuro e à solidão fria das camas corridas entre quatro paredes onde numa delas repousava uma cruz

eu nunca mais fui a mesma, talvez não tenha sido uma boa mãe, talvez nada do que ela esperasse que eu fosse, ou fizesse. Apenas deixei de ser

sim, eu sei, só me lembrei dessa fila de camas quando quis saber de onde vim há pouco tempo, mas sabes, é como se tudo o que se passou comigo, desde o nascer de um ventre que nunca vi até à tua partida, fosse em mim tão claro como se tivesse consciência e memória de todas as coisas que me revelaram.

deixei de ser quando o meu filho partiu

A mãe vive numa angústia de não ter sido uma boa mãe, mas ela não sabe, ou tenta querer não saber, esquecer-se que sabe, que foi e é a melhor mãe do mundo, não só porque me quis para ela, mas porque te tinha a ti já, e contigo pude conhecer um mundo

quando partiste, meu filho, eu deixei de ser

um mundo que embora à tua medida de criança que nunca deixaste de ser, foi o melhor de todos o mundos. Sim eu lembro-me de que choraste quando eu apareci na tua vida e agora sou eu que choro porque desapareceste tu da minha

com algumas papoilas enfeito a tua morada

e agora só me ouves de um quarto escuro que ainda não entendo e tenho pavor.

diz-me, meu filho, se gostas muito da tua querida mãe...

8 de setembro de 2008

pós laboral sem tragédia, em fragmentos de um acto


(daqui - se é que é realmente importante)


Algum rumor, um burburinho de fundo como quando

- João, fazes os bifes enquanto ponho a mesa?

subimos ao topo de um prédio e espreitamos a cidade viva, lá em baixo, numa palete miniaturizada.

- Agacha-te

Não. Não é bem assim, é um som abafado. Aqui deitado na banheira com a água cobrindo-me os ouvidos e o rosto, deixando apenas o nariz de fora a respirar devagar e o prédio vibrando por baixo à esquerda e à direita

- Sarinha o jantar está pronto!

e nisto uma mosca entra na casa de banho, atraída pela luz. Sigo-a com o olhar imaginando fuzilá-la, tal o meu ódio e nojo misturados por estas criaturas voadoras que tanto me irritam

- Ah puta!

(O vizinho do lado esquerdo começa cedo a festarola com a namorada, chama-lhe bastantes nomes feios

ou será que a chama pelo nome?

e ela geme e grita com um prazer desmedido, como se…)

- Sarinha não volto a chamar, desliga a televisão e vem sentar-te à mesa!

E a mosca zunindo, zunindo, até vir pousar-se no topo do meu joelho direito, esfregando as patas dianteiras

- Anda puta!

e eu, transformando o meu braço num camaleão guloso à cautela, espalmo a mão sobre o joelho e rebento-lhe o corpo numa investida forte, estridente. A água move-se, rugindo no interior aos meus ouvidos, este rumor abafado a dar conta da casa vazia e silenciosa em contraste com as dos vizinhos

- Os bifes já estão!

(… como se cada injúria fossem flores, nardos ou orquídeas, jóias, enfim, chocolates, bombons)

Olho o corpo da mosca esmagada flutuando na água, dá-me nojo

- Não gosto de bife!

os meus dedos em pinça, o prédio irremediavelmente deixado na condução da água, suspenso, pesco a mosca morta

- Ahhh, já está puta!

e atiro-a pela sanita, descarregando a água com vertigens de vómitos do nojo imenso que me dão estas criaturas voadoras.

Não regressarei, obviamente, à água conspurcada pelas entranhas minúsculas do bicho. Retiro a tampa do ralo da banheira, abro o chuveiro, ensaboando as mãos e o joelho freneticamente

- Não comeces Sarinha, é para comer tudo o que tens no prato

e deixo que a água renovada e quente me embrulhe numa concha reconfortante.

Ora eu que estava para contar não sei o quê… Esqueci-me. Detesto mesmo as moscas. Enxaguo-me. Que farei de jantar? Bife, talvez, sem quaisquer apontamentos óbvios e previsíveis.

Gostava de ter uma puta assim. Ah, isso é que era…

25 de setembro de 2007

não digas


fotografia de André Boto (daqui)


Não digas que vais embora assim, a despedires-te à porta, abrindo uma ferida sobre a luz da tarde. Não saberei render-te, o crepúsculo virá indiferente e a porta uma dor negra habitada por fantasmas mesquinhos, comigo numa espera imbecil de chinelo nos pés e pijama vestido, afundado no sofá, enquanto a lua subindo, pouco interessada sobre se foste se ficaste, e se eu.

Vai haver vestígios de qualquer coisa com algo de ti na televisão, e eu acobardado fugindo à tempestade emocional gerando remoinhos sob o meu peito, eu todo teso a dizer aguenta-te!, olhando para as pessoas desfilando no ecrã. Vai haver vestígios de qualquer coisa com algo de ti também na rádio, quando cansado estiver do sofá e for abrir a cama fria da tua ausência, ronronando música e vozes que não saberei escutar, eu num esforço todo tremeliques, a convencer-me: isto não é nada, vais ver que ela ainda volta, está aí não tarda, já se ouvem os passos dela, sossega.

E nada mesmo, não são os teus passos que se escutam pela porta escancarada de medo, ferida que dói, dói, dói e dói e a qual não saberei tratar, por mais ansiolíticos que tome para afugentar o pânico. Vou acordar numa manhã estéril de sentido. Ligar-me-ão os colegas lá do escritório preocupados, então não vieste trabalhar estás doente, e eu apenas: é a porta que permanece aberta, e eles coitados sem entender patavina, desligando o telefone e comentado em sussurros passou-se este, agora que temos aí os japoneses a chegar para fecharmos o negócio.

Não digas que vais embora, fecha a porta e abraça-me. Não foi nada, vais ver. Tudo continua como antes, podemos assistir aos concursos da televisão divertidos com os disparates das pessoas todas nervosas a responder, e depois, quando o sofá se cansar de nós, abrimos a cama e aquecemo-la com os nossos braços as nossas pernas, as bocas e os hálitos, e adormecemos com a música ronronando baladas noite fora na rádio. Amanhã fecho os negócios com os japoneses, vais ver, tudo na mesma, e nem vou sequer precisar dos ansiolíticos, não há pânico nem nada dói se fechares essa porta depressa, depressa, depressa, agora, por favor.

Não quero acordar amanhã com a vida a doer-me em cima, saber-me sozinho e que dali em diante correrei mundo a mendigar rostos, ombros e colos para cá virem a casa, com ciência de peritos a verificar o que diabo terá a porta para me magoar assim tanto.

18 de setembro de 2007

levaste a morrer o dia


Anne Ferran


E onde deixaste correr as lágrimas, a fadiga veio sobranceira ao teu corpo para te tragar adormecida num abandono imerecido. Inquietam-te os sonhos abortados em pesadelos, mas não é isso que te desocupará agora do sono que ferraste.

Levaste a morrer o dia, estrebuchado no sofá a que te rendeste, com o lenço enrodilhado nos nós dos dedos de tanto morderes a dor. Uma nesga de sol procura-te no espaço entre os móveis, sacudida por uma cortina ténue de pó. Foi recolhendo devagarinho à paciência da janela numa descida de sombras disformes, acabando num silêncio de relógio de parede, acrescentando tempo a nadas, abstracções da tua ausência.

O teu corpo aí adormecido no colo do sofá, indefeso e em posição fetal. O rosto sulcado pelo sal das lágrimas evaporadas. Órfã de beijos, ombros e abraços. O mundo prossegue grotesco com a infidelidade de não saber reconhecer este teu sofrimento. Protege-te apenas a sombra, engolindo os ângulos das paredes, velando-te com um sussurro de preces.

Esperam-te os escombros quando pressentires o rendilhar espantoso da manhã. Então vais morder as aparências, ainda que enlutada pelo esquecimento.

16 de setembro de 2007

por medo


foto de Francis Leonardo Cirino (encontrada aqui)


Se tudo continua por dizer e palavra alguma se acrescenta. E no entanto a suspensão dos lábios, as reticências no olhar sobre a lisura da parede. Esboçam-se gestos no vazio, as mãos gaguejando exclamações moribundas, os dedos apontando interrogações desarticuladas como se tornadas blasfémias, a conspurcar a moral enquanto se vão colocando dúvidas acossadas na última página de um livro pobre a que se acaba o papel, sem espaço para o “e depois?”, e as palavras descarriladas, vertiginosas, sem vocação para o abismo. Fica-se de boca aberta soletrando o silêncio, num caos de disfóricas onomatopeias para o medo.

O medo! E tão tarde é agora para recear, para temer. Sacode-se a comoção com um suspiro lento, os braços levitados desmaiam-se sob a gravidade do peso, e o corpo é um hábito cansado, uma masmorra ofegante, insidiosa e diluta ruína.

Por dizer palavra alguma se acrescenta. Porém o horizonte chora, murmurando a distância. Como se – e com pouco ou nada: a boca treme nos seus últimos espasmos, vindo a morrer fragmentada quando tudo enfim se quer e se transforma em objecto dispensável.

8 de setembro de 2007

monotonias


autor desconhecido


Madrugam os espaços obliquamente transpirados pela tua presença. Segue em espiral o fumo dos cigarros numa subida estéril a confundir-se contra a luz pendurada do tecto. As cinzas amontoam quartas-feiras despojadas da carne e da gula.

São monotonias inscritas a vinho. A uni-ball repousa alarde junto ao bloco de papel branco a imitar mestrias sábias de naturezas mortas. Afago a textura da minha barba e sobra-me preguiça para a noite inteira. Os olhos movem-se de descarada indiferença.

Observas-me bebida por uma sombra de arestas de parede. Ondula a música lacónica. E depois um silêncio invocando mosquitos e o pó das estantes. Vem de novo a música simulando novo acorde para ir morrendo ruidosa, inconsistente.

Seduzo com os dedos o meu baixo-ventre em volúpias desnecessárias como se te ignorasse ou não houvesse o sexo em ti. Encostas o ombro à imobilidade da mesa, sorvida no mesmo canto entre arestas, imprecisa. Monótona. Sem te preocupar dares conta de mim.

Inspiro o cheiro virgem do bloco de papel branco incinerando-o com o bafo das minhas narinas, de cabeça largada sobre o tampo da mesa, enquanto a preguiça se contém no meu polegar a acariciar-me a glande, desleixada a mão sob os boxers.

Deixo madrugar assim o ambiente até ao cambalear do sono. As pálpebras a inquietarem-se ridículas como moscas em fim de estação. O bocejo transpira tranquilamente perante a tua presença. Gases intestinais, alarves. Escorrega-te já o fino fio de saliva abaixo do queixo.

Vou apagar a luz, numa desordem de gestos pueris, e bebo, conspurcado, o resto do vinho.

13 de setembro de 2006

agulhas

Vieram trepidando com as agulhas da chuva algumas sombras sobre o parque em frente. Os automóveis como canteiros escuros e estéreis. A água espelhando o céu em completa indiferença. Espelhos turvos, como que mortos. A água escorrendo pelas vértebras do chão, apanhando o pó das árvores precipitadas com as suas folhas esperando o momento certo de colorir as bermas. As latitudes do sol mudam, os luzeiros da noite tremelicam como se frio. E as janelas cerradas, acariciadas de conforto pelo lado de dentro. Fico de pé escutando o recolher dos melros. A tarde hoje quase não se distingue da noite. Quando me voltar para dentro as sombras cobrirão já todo o parque aqui em frente. E só se ouvirão agulhas fustigando o chão e os telhados.

1 de setembro de 2006

daphne


No azul dos teus olhos..., de Filipe Vieira em 1000 imagens


Só em sonhos posso recordar a maciez dos teus cabelos da cor do feno. Cansaram-se os anos dentro de nós, afastaram-se os olhares, as vontades, os interesses em comum. Podia dizer-te morta e a mim viúvo, mas nem isso restou. Apenas os sonhos onde posso dar largas ao desejo de te ter com os cabelos abertos sobre a minha almofada. O sabor de amoras na tua língua. O perfume de rosas no peito. E a pele muito jovem, sedosa, como as pétalas da manhã. Amei-te, foste minha. Foste como um membro que perdi numa qualquer guerra de amores

(não sei, já não me recordo bem).

Como seria um reencontro? Rosário de rugas e maleitas? Saber que outras mãos nos afagam os corpos? Verificar o tempo ignorado ao exclamar "como estás diferente!"?

Prefiro o sonho, onde retornas a plantar o verão fecundo na minha cama. Murmurando, viril, num andamento eterno,

(porque eu acredito que os sonhos podem eternizar-se),

o teu nome: Daphne.

29 de setembro de 2005

verdade


autor desconhcido


Se pudesses estar agora aqui comigo, esquecendo as consequências, devolveria o espaço e o tempo à abreviatura das gotas da chuva e da respiração suave da tarde cinzenta. Queria apenas tocar-te, maculado pelas improbabilidades e impossibilidades que a vida me impõe. Correria esse risco para ter um afecto teu. Velando as tuas mãos como único tesouro do mundo.

Perceberia a cor dos teus lábios sangrando desejos proibidos. Esta coisa do outono rompe-me o espírito, desarma-me aflito e menino, como se órfão de ternura. Imagino a tua voz quebrada na terra, de musgo e folhas cadentes que afugentam os resquícios do verão. Uma tristeza bela, quase divina.

E procuraria pelo teu hálito frutado, de ameixa seca ou uvas novas. Engoliria a maciez da tua língua, saciando-me na tua saliva, seiva última do milho envelhecido, esperando mãos virgens para a desfolhada.

- Diz-me que me amas.
- Não sei dizer-te isso.
- Porquê?
- Tenho medo.

As lágrimas contra a janela, a madeira humedecendo.

- Dá-me as tuas mãos.
- Perdoa-me se te magoo.
- As tuas mãos não me magoam.

Não sei exactamente o que isto quer dizer. Não quero dividir-me, não quero partir nem ficar. Ficam-me embargadas as palavras num sufoco de ternura, os pátios espelham pocinhas onde o olhar se estende no mesmo sonho, eu para aqui parvo a dizer-te coisas como estas, sem conseguir manter a voz, sem saber afugentar os soluços. E tudo o que digo, porém, tem tanto de verdade que pesa de tal maneira que parece tudo ferver derramando irreversivelmente sentimentos que eu não sei dizer, catalogar, explicar.

- Diz-me que me amas.
- Tenho medo!
- Não temas, abre-me a porta.
- Qual porta?
- Aqui.

E os dedos, e a língua, e o corpo dentro. O toque, um afecto, o beijo aproximando tempestivos arrependimentos, afugentando em debanda chilreios de pardais que vieram molhados à procura do mais escasso alimento.

Se pudesses estar agora aqui comigo, esta canção talvez fizesse sentido para ambos, sem que isso signifique realmente alguma coisa. A cadência a estontear-nos, a perdemos a cabeça, bulharmos, não quero, não quero, não quero, condenados pelos beijos sôfregos, pelos movimentos bruscos da roupa, o frenesim histérico dos corpos pecando. E a canção avançando, repetindo a fórmula, magoando-nos ambos com a verdade. A voz trocando o nosso silêncio e chorando o que não entendemos e não queremos acreditar.

Não te queria longe, a sério que não. Diz-me que me amas.

28 de setembro de 2005

omega... alfa

Prefiro começar pelo ómega, e ir derretendo a história à velocidade estóica da luz. Circundar a existência, ir buscar o último ponto ao princípio de tudo, regredir para me encontrar, dar uma cambalhota cósmica e saber do útero onde deus ouviu o pulsar do primeiro coração. No cabo do ponto alfa avistar-se-à a finisterra, e todo o mar entretanto – amniótico para a gestação de deus – terá a fértil verdade de tudo nas feições do simétrico anjo que conclui o bem e o mal.

27 de setembro de 2005

ciclo


A Despedida, por Lucemar de Souza


Nunca assumi a despedida, nas minhas partidas. Nunca esbocei o adeus, tão pouco o até breve. Na verdade, nunca gostei de partir e que partissem de mim. Estico as veias até se diluírem na distância. Por isso sofro cada saudade: é um ciclo de paixão que se inicia, em que os lugares doem, as pessoas doem, o medo de esquecer rói na voz tremida ao chamar o nome, os nomes, que partem de mim. Escrevo na ansiedade de abolir o significado de um embarque e a distância de uma carta. Partir para mim será um eterno retorno, e por isso um ciclo aberto. Nem perante a morte sei dizer adeus. A memória é a verdadeira viagem, o porto de embarque e desembarque para as despedidas que a vida não dispensa. E assim vou encurtando a lonjura do que parte e regressa, cá dentro de mim.

23 de setembro de 2005

corpos frios

Sabias que a morte transpira madrugadas como quando tens pesadelos? O suor frio das convulsões. A dolorosa contenção dos espasmos.

Tudo tem o toque da pedra depois de parida e abandonada na sua agreste natureza. Tudo primeiro é um pó, que vai ardendo aos poucos enquanto os relógios do cosmos compõem o seu mecanismo. Vem depois fervilhando como o sangue, como a paixão que te coloca uma cruz nos ombros. Ao nascer, vindo do mito da ressurreição, solidifica com os beijos do vento e as crinas das chuvadas. Nasce para morrer, é cristo fidedigno. E duro que só a água mole.

De modo que… Se o que pretendes é conhecer-me o hábito e trocar prazeres menos mundanos, prefiro que me não toques, pele com pele, carne com carne. Lê-me, antes. Apalpa-me com o teu sexto sentido e adivinha-me o medo que tenho dos corpos frios.

14 de setembro de 2005

estender a mão

Estendi a mão apenas para saber o que poderia acontecer. Não esperava grandes manifestações afectuosas e alegrias inusitadas. Era apenas um estender da mão, como outra coisa qualquer que se estendesse ao ar, e perante os olhares.

Um ambiente apreensivo. E a resvalar para a incompreensão. O que queres de mão estendida, perguntaram-me, na margem entre o medo e a repulsa.

Nada, foi a minha resposta.

Da fúria, as pedras então atiradas fizeram com que recolhesse novamente a mão à algibeira, e a noite deslocou-se dentro de mim.

6 de setembro de 2005

peste

A questão não era ter que levantar-se. Era, isso sim, levantar-se para o mundo, de olhos cegos pela fadiga e lábios ressequidos pela febre.

Para quê então ter que despedir-se do leito que lhe embalava a raiva do sangue?

Mas tanto insistiram que se levantou. Levantou-se e caiu, porque o mundo segregava prurido pelas entranhas e fedia como animal morto sob o sol.

Parece-lhe que, afinal, o inferno sempre morou aqui ao lado...