Mostrar mensagens com a etiqueta 04 abril. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 04 abril. Mostrar todas as mensagens

11 de abril de 2005

de vidro

Foste capaz de dobrar o espelho, e ficaste do lado de lá

(pensando que para sempre),

longe de tudo o quanto te assusta na vida aquém espelho.

Tornei a ver-te, já doente, numa esquina de luz onde dormias a imagem rachada do vidro.

Nunca te lembraste que, por ser de vidro, a tua vida ali também se quebraria.

10 de abril de 2005

a cadeira


A cadeira de Gauguin, por Van Gogh


A cadeira ficou vazia para que estimulasses a tua imaginação. Trouxeste a parda solidão para que nela se sentasse, e nenhum outro objecto traçaste na tua imaginação senão essa dor a que teimosamente fazes culto. Então eram as descrições pormenorizadas acerca das sombras atravessadas sobre as tuas falanges, o silêncio gotejando na aridez dos teus lábios, ventos e fomes e bocas de gritos escancarados.

Pediste-me

(sempre me pediste isto)

que cantasse árias perdidas no imaginário e no folclore, apenas para te dar alimento a uma nostalgia cega e esclerosada.

Sai!, gritei.

Custou-te mexer as pernas. Nelas trazias raízes de um lixo abominável.

9 de abril de 2005

secos de tão velhos

Eu vi que colocaste os cravos no lixo, de tão velhos, como disseste. As tuas mãos comungam agora com o sol e a luz do verde das plantas no jardim. Com a tesoura inclinas-te para colheres aquele botão de rosa.

Perguntei se não achavas a rosa um lugar-comum tão batido, porque não voltar aos mesmos cravos, insisti.

Estão velhos, secos de tão velhos, respondeste.

E se a hora era então do lugar-comum, o jardim levou-te como uma memória, e em teus dedos floriram lágrimas vermelhas pela sorte de um espinho.

8 de abril de 2005

vieram e partiram

Vieram com um cadáver a implorar que não tivéssemos medo, e o santo tossiu. Era véspera de todas as exéquias, e as carpideiras não ouviam outros soluços que não os da terra que lhes doía. Os cães farejaram a morte e vieram beber a sede aos pés do defunto embrulhado em madeiras perfumadas. Vieram e partiram quando as flores viçosas perderam o brilho.

chinfrania

A humanidade, gritavam. Eu sabia que era um grito incolor, por isso não dei muita importância ao facto e segui em frente sem nunca ter olhado para trás. As vozes desfilaram durante ainda algum tempo seguindo os meus passos

(os meus, os teus, os de toda a gente, não estou a ser pretensioso),

apelando a humanidade numa chinfrania que metia dó. Até que se precipitaram para o rio, chamadas que foram pelo ondear prateado das águas. Fiquei a resolver o tempo observando o gesto das pontes enquanto as sombras se faziam tarde.

Quando virei costas e enfiei as mãos nas algibeiras, o crepúsculo era de silêncio.

7 de abril de 2005

véspera

Não estive cá a semana passada.

Passeavam pela berma os cães num desfile de urinas, ladravam os cães palavras que não se entendiam, e as trelas eram puxadas, tensas, perto

(sempre)

de uma crise qualquer que as distendesse, para além dos buracos das ruas, e nada podiam fazer, apenas esperar

(no meio dos latidos)

que a tarde, acabada, viesse a ocultar os rostos que gritavam silêncios.

Era a véspera: que farei quando tudo arde?