a nodosa e ácida crosta dos dejectos

foto de Estela Canaveira via Newer Photo Art

A esperança é morta como um velho muro de granito. Faz-lhe de mortalha o sedoso verdete da humidade. 

Sabeis lá vós do medo e dos ferros e do pó antes da argila, aquela crispação matutina que vos desperta inquietos a incitar a raiva, o sol vagabundo entre as frinchas, a lassa abertura das gavetas exibindo bolores. Sabeis lá o que é o desconforto angular do colchão puído, molas soltas sob um castelo de ácaros e a companhia militar de um batalhão de percevejos. Que sabeis vós das camadas de cotão acumuladas sob a ironia do tempo e o desleixe concentrado em espiral de um pretérito do qual perdestes a noção da sua origem? Isso do musgo a subir as paredes – que sabeis vós? – dos tapetes de lama sobre cimento estourado e ervas daninhas, dentes-de-leão exuberando como reis soberanos destes jardins de excrementos deixados à passagem por pequenas bestas atreladas ao vosso afago e amor aos bichos, signo do ternurento laço entre homem e animal.

Temei as ondas espumando e o salitre acumulado nas barras, a densa ferrugem dos portos, a articulação soberana da estiva, os porões e as pestes seculares, a nodosa e ácida crosta dos dejectos das gaivotas, as frinchas entre o granito calcetado deixadas pelos passos ruidosos das botas. O cheiro do peixe morto, cadáveres da nossa culpada gula, bem como desse carrocel mórbido de gordura e sangue em maquinaria fria dos matadouros de gado. Temei, ó gentes operando a cidade enlatadas num gigantesco réptil encrustado de pedras luminosas bufando a comiserativa frustração em buzinas, gestos indelicados e teólogas imprecações ao código vigente da estrada.

Segui desorientados da cegueira do chão e vislumbrai-vos no tropeço dos vossos minúsculos ecrãs em busca pueril e infértil da vossa condição de condenados ao absoluto absurdo. Ignorai todos os outros umbigos como deuses que cada qual se auto-proclama para vos manifestardes em graçolas, patranhas políticas, verdades néscias como que absolutas, lamechices de cortar os pulsos, e olhai regalados os que se penduram com cordas nos tectos, nos alpendres, em figueiras figurativas, estrebuchando pela vossa falta de atenção e misericórdia. Atentai, ó poetas que tresandais a sensibilidade bacoca, à piada dos fantoches a debitar o que se segura por baixo dos panos, das mesas de negociação, à órbita da vossa projecção como que entidades intocáveis, níveis novos como novos-ricos da demanda cultural louvando, de estúrdio, o mais belo porque mais ridículo e mundano.

E fugi – de todo, fugi! – da carcaça de emoções que vos incomoda como sarna em gestação. Proclamai em gritaria de plenos pulmões que vos cagais no vosso próximo, explicando que afinal é a distância, porque não podemos estar para todos. Não prescindais do horror ao toque, da apocalíptica presença dos desafortunados e marginais da vossa imaculada sacristia, defendei-vos da ignomínia da solidariedade. Pois, quem é que afinal é solidário convosco, alguém poderá dizer-vos? Que outra face podereis dar vós se vos recusam esses outros a mão levantada, o pé em pontaria? Fazei ver que só há olho por olho e dente por dente quando se oferece o rosto à rendição e haja cordeiros para o sacrifício, que só se salva quem realmente puder, e esse poder é só vosso! Que sabeis do que não temeis? Às armas, às armas contra a maldição da bondade e a sedução ao simples, contra o olhar terno das mulheres e a sua maternidade, contra a ingenuidade das crianças e a sua forma irrequieta de destruir o vosso mundo. Ah, fugi, que esta terra que quereis destruída ainda poderá ser salva!

Latrinas, exultai! Expiações do ódio, levantai! Hino à procrastinação, urrai! Eis o vosso mundo.

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