20 de outubro de 2018

poema matinal

Eddie O'Bryen, via Alternatif Fotoğraf Topluluğu.

Deixei que caísse vagaroso no sono que não queria ter, sôfrego, feito de ombros resignados à completa falta de esperança que o cansaço consegue impor-me, amotinado com as tempestades mentais, a luta interior entre querer e não saber o quê. A vigília abrindo brechas para que o subconsciente se derrame, desfazendo-se como papel encharcado onde escrevi a frustração de mais não ser nem haver, amontoando todo o pensamento encurralado numa deriva que se torna lixo a entupir a alma. Fui como por uma ravina abaixo, sem galhos ou pedras que me detivessem, a entrar magoado no sono mais profundo, como abismo insondável. 

Madrugada cumprida, fui regressando deste lado de cá interior, a deslumbrar-me, já desperto, com a singular quietude do mundo na orla matutina, ainda de luz impoluta e o espreguiçar lento e demorado do ar no seu hálito líquido de caruma. Dos teus olhos colhi uma gota do orvalho purificador, signo do repouso revigorante, o pulsar da água em nascente, conduzida pelos teus lábios que começa a abrir o veio por onde há-de subir a maré dos meus beijos. Serei completo quando despertares a encarnar o dia, erguendo-se como plumas, fecundo de brisa e azul, revelando-me a ilha que desejo habitar no teu colo, a semear o amor entre o que há-de ser de mim. 

Diz-se que a esperança não morre, ou será a última a deixar-nos. E eu acrescento: regenera-se, matinal.
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