30 de dezembro de 2017

ver morrer

Kültür Tava

Serve-me no rosto a gota de sal e esquece a taciturna nuvem enovelando a tarde. Cada segundo um tambor do tempo em meu peito como um cavalo galopando pradaria fora. A chuva serve de mortalha ao ano que se finda e nós sem um gesto comiserativo, ou qualquer ansiedade para lhe velar o corpo, preocupados com a ignomínia dos pagãos.

Ver morrer não é signo de passagem. Ficamos quedos no passado, a indagar as razões dos nossos fracassos, ofendidos com esta pressa que o tempo tem de se ultrapassar, sem hesitar sobre os actos, sobre as cruzes, sobre as lágrimas de quem está aquém e não sabe o norte do futuro.

Eu e tu não provaremos deste ou de outro amanhã. Temos vindo a tactear o mundo com os olhos muito abertos na alfena escuridão e não sabemos onde estão os nossos corpos para repousar. Temos as mãos unidas para mais rápido nos afastarmos com medo. Temos os lábios em comunhão para céleres se ferirem de sangue. Ouvimos o murmúrio de uma canção mais longe mas é o silêncio que entre nós cresce. Temos a voz rouca de tanto gritar no vazio.

Serve-me o sal numa gota do teu abraço. Entro profundamente no céu dos teus olhos e são as brisas de maio, o trigo de julho na cama dos teus cabelos, o humor da terra de outubro no teu baixo ventre. Motes de uma fábula por inventar que já não sei escrever. Nada se inaugura. Levamos os livros velhos, a tinta desbotada, toda a vida já contada e sem outros planos que o caminho sobre a argila vermelha de um sul estéril.

Vai descer a noite e o novelo da chuva não se precipitou. Está nos céus em anseios de virgem. E o tempo é um touro marrando com cio. Vai preparar-te. O esquisso do que quisemos que fôssemos será diluído quando a chuva chorar de espanto ao sentir-se possuída pela virilidade do tempo que lhe semeará no ventre o alicerce do ano que já não vamos poder ver nascer.

Serve-me dessa morte no sal de uma gota que deixaste por mim.
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