9 de dezembro de 2016

não!



Quem és tu, que me assombras as noites e me inventas os sonhos

(por piedade, deixa que seja eu a comandar os sonhos que tenho)

tu que me atordoas o despertar e me fazes viver o dia como se já não existisse amanhã e quaisquer esperanças de mudar, e de tudo o que vivo me pareça sombras de parede, de muros intransponíveis? Esses muros que, ciclicamente, destruo e construo, consoante o humor do sol?

Porque me fazes isto? Ou que te fiz eu, quais foram os muros que te ergui, se declamavas a tua felicidade reinventada? Diz-me que muros foram esses onde te encurralei para que me persigas tanto como se os meus dias e as minhas noites fossem

(ou sejam)

diacrónicos labirintos onde não sei quando

(ou em que lugar)

colocar o verbo ser? Ser eu: porque não sei já ser eu?

Porque não te arrancas de mim, tubérculo que sugas de mim o húmus para cumprires a tua seiva? Por quantos demónios teimas em ser uma doença?

Porquê eu, ou porquê tu e eu? Se nem sequer para o engenho da escrita me serves, e me enjeitas os rios e as ninfas, o luar e a música? Porque me queres só para ti, para esse sofrimento cardíaco e míope, para uma fatal síncope?

Quero-te longe, como Abril deseja a distância inequívoca de Dezembro; como os morangos e os amores-perfeitos receiam as geadas fora de estação; como o nardo da giesta se insurge contra a intempérie das chuvas de Maio!

Da mesma autoridade com que os cabeções dos sacerdotes cristãos impugnam as culpas do mundo ao impuro Satanás e sua fétida legião de demónios, assim eu te esconjuro para longe, 

(ao mar coalhado!)

para que me salve e possa lavar corpo e alma de tamanha imundície…

Forçarei, ainda que com as já parcas e fracas vontades das minhas carnes

(ó condição humana!),

contra o teu agrilhoamento. És apenas uma noite de Inverno, adjectiva, de era uma vez. Sai-te, desconsolo, e deixa que abra o meu caminho.

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