14 de junho de 2013

variável outro adeus



Tu já não me tomas a sério, não segues em mim, não vens para me resgatar dos lugares a que não pertenço. Perdi o teu sorriso e o colo do teu olhar em qualquer aresta da chuva que ainda há dias se fez sentir, garantidos que julgáramos estar do verão. Talvez por divagar demasiado ou não ter em conta todos os teus enfados enquanto me distendia em dúvidas. E hoje, passando por ti, sinto-me como que uma aragem que incomoda a quem ainda se previne da falibilidade climatérica, corrente de ar indesejada entre uma janela e uma porta negligentemente abertas.

É curioso falar de forma tão negativa de portas e janelas abertas, uma vez que todos os clichés sugerem o contrário, sobre as oportunidades individuais e as previdências divinas. Parece-me que isso não se passa aqui… Sabes, ouço das pessoas mais velhas que antigamente se dizia que não era de forma alguma conveniente deixar-se correntes de ar em alturas de trovoada, pois que os relâmpagos seriam atraídos nessa travessia, bastando isso para que um raio desvairado entrasse em casa e tudo destruísse. Metaforicamente, e inclinado ao lugar-comum dos escribas mais parvos e piegas, sinto-me na esperteza de referir que talvez se tenha passado assim connosco: uma artilharia pesada de raios e coriscos terão entrado pela aragem dilatada que deixei, negligente, entre nós. Implosão e explosão. Ruínas, depois.

Posto assim, se tudo desmoronado, que me importa a mim agora os dias de verão? Carregados de pólenes e fumos à mistura, de transpirações e espirros alheios, são um covil para moléstias de caixão-à-cova, essas sezões que nos entopem as vias,

(será a alma uma via que se entope?)

fazendo delirar de febrões, ou como lhe chamam – a febre dos fenos

(e com toda a razão neste contexto: então não me canso de falar do teu corpo com um prado de feno?),

e posto assim, dizia, deixo as ervas no jardim a crescer novamente daquela forma bravia entre gigantescos caules de urtiga e leituga, substantivas entre o sol e a humidade que ainda se vão revezando, apesar de meio ano se ter cumprido no calendário.

Leva o teu corpo daqui, não vás cair também de cama, ardida e ardendo destes estridentes delírios, a carpir a febre do feno que há em ti, a resfriar da aragem que, oh negligência minha!, deixei correr entre o que então éramos e o que tanto desejamos que fôssemos…

Assim, reticente: pois que é variável o nosso adeus…

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