11 de fevereiro de 2013

a dor assombrada de ti

foto de Georgina Noronha


Eu sofrendo por não vires e tu insistindo nesse estupor. O teu olhar a evitar-me por entre nadas, a ocupar os vazios, e estes afinal continuando sem coisa alguma se não são as tristezas que pagam dívidas ou ocupam lugares.

Eu irritado por não saber chegar-te, preocupado com a dor da rejeição. A de sempre. A que me assombra. E tu brincando a um faz de conta de que não é contigo, agilizando as mãos nos objectos a surpreender-me:

- Vês? Não me interessa nada disso

mas interessa-te, que eu bem sei. 

Estarei a um ponto de te desiludir se não for persistente, se me votar derrotado nestes jogos? A mim que me importa, não é? Se a ti não? Por que terá de ser assim? Se é jogo, ou patranha, a que vem essa tristeza no teu olhar desocupado das mãos ágeis a rematar as arestas pardas do vazio? O que levas aí dentro, que comoção te faz agir desta forma?

O vento graniza com o frio a chuva escarninha como se tudo agora zombasse de mim. O palerma!, afirmam as nuvens feias. Eu aqui prestes a cair, ou pronto a saltar. O estúpido!, assinalam os esqueletos das árvores no ar.

Vais ficar. Eu não vou mexer uma palha por isto, vou teimoso com pêlo na venta, agarrado a um orgulho qualquer, ainda que saia daqui esmagado, ferido, com nódoas no corpo porque o tombo, porque quis sentir-me livre, porque haveria de querer voar.

Ter as tuas mãos nas minhas: seria a frio um cenário banal, toda a gente dá as mãos. Em nós, porém, sortiria um alívio, um saciar de ternura. O brotar para todos os gestos que haveria de nos deixar unidos, carne com alma.

Ora teimoso, eu. Eu! Eu teimoso! Como sou parvo. Se és tu quem teima e escarnece, bruta e amorosa, a fingir que nada sou para ti. Que pertenço ao pó que a agilidade das tuas mãos tratará de limpar com afinco:

- Não podes brincar assim com coisas sérias.

Não brinco amor, não brinco. Agora não. Vou amuado com a surpresa do teu olhar despeitado na minha nuca. Até depois sem um aceno. Não me olhes que não vou acenar. Talvez volte, ou esperarei que venhas também. E me livres da dor assombrada de ti. 

Apenas sinto que tenho de sair. Torto e tonto no peito, sujeito a cambalear, ou sujeito a tudo o que possa vir depois que deixe de te ver: vou amargo, salgado de mágoa, tropeçando nas poças da chuva. A lavar o rosto num grito, apequenado pelo desapontamento.

Não sei mais o que dizer. Sim, já saio.

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