26 de janeiro de 2013

tu

Doirado, por Paulo Vieira em 1000 imagens


De serenos olhos a tua ternura veio afagar-me de rosas a língua e, descendo as pálpebras numa lentidão de prazer sussurrado, deixaste que aportasse o corpo ao teu estuário, ou foi o mar de ti que fez de mim península.

Encarnamos de veludo e seda, na textura do vinho, na liquidez dos morangos, com os lábios tacteando a sede e a fome pelo interior. São folhas de trevo bravo a polpa dos teus dedos desabrochando pela encosta do meu dorso até aos ombros onde te precipitas numa falésia de falsos desmaios e acidentais gemidos.

Vieste e ainda era a sombra. Desenhaste luz em volta num intenso crepúsculo como se o verão fosse para além do efémero das estações, temperadamente quente, permanentemente animador. Trouxe-te ao acaso e, volvidos os anos, não encontrei nunca outra terra senão o pasto de feno dos teus seios.

Pois que sou cavalo selvagem em ti, perdido, assanhado, faminto desse feno. E em ti estou sempre como que de regresso de longa jornada, sem precisão para calcular nova partida.

Agora as palavras calam-se, o feno cresce. 

Tu.

Eu deixarei de importar se tu não existires.

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