22 de janeiro de 2013

crónica anoitecida

Olhares.com


Chove, o que não seria novidade se não estivéssemos propensos a uns dias de sol – ainda que frios, ao rigor de janeiro – depois do que foi o fim-de-semana devastador. A mim, o temporal levou-me as caleiras da casa, encorrilhou umas telhas, e manchou as janelas de ar pardacento como se não houvesse lugar a auroras

(é estranho escrever auroras por que sempre me lembram o levantar dos dias estivais)

e a madrugada se prolongasse carrancuda pelas horas do dia.

Não vou demorar-me no frio e na humidade que têm sido estes dias. Até a legislação, o governo da nação e o estado dos cidadãos me parecem crespos como o mar em dias de temporal. E talvez, segundo previsões em nada meteorológicas, seja coisa a aguentar o ano inteiro… Mas que fazer, senão ir para a rua gritar?

Também não vou gritar. Apetece-me o sono e o conforto da cama

(é estranho escrever cama e conforto quando tanta gente por aí sem uma coisa nem outra)

ainda que venha a luz da manhã despertar para a corrida do trabalho.

Desta vez (só desta. Só desta?) não vou querer saber. Enrolo-me numa espiral térmica, e o mundo fora de mim irá precipitar-se como filme em avanço rápido, tarda nada entardece e a noite outra vez (outra vez um pleonasmo?) a assinalar que tenho de correr os estores da janela.

Será um dia que não se conta. A não ter existido.

A que vem isto, José? A que vem isto e a quem interessa? Repara como desperdiças papel: encarreiras a esferográfica numa espécie de beco sem saída e surgem rabiscos, arabescos, flores infantis, um qualquer desenho pseudo-qualquer-coisa-a-calhar-surrealista-parvo e não sais daí.

É noite. Não percas o tempo. Não o deixes que te engane. Desliga a internet, o facebook. Não te parece que lá esteja alguém e, no entanto, milhares, não é? Ninguém contigo. Tu com ninguém. Parece estúpido, e é. Desliga. Desliga o computador. Assim.

Surge o silêncio. Lê. Anoitece. Deixa que te anoiteça o sono. Talvez amanhã. Alguém. Por um bom dia

(e é estranho escrever bom dia quando não há ninguém que responda).

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