3 de novembro de 2012

imagem depois de ti



A seguir caminho no intermédio da luz taciturna da tarde chuvosa e a noite vindo a descer vagarosa sobre os telhados adiantando a hora do crepúsculo. Abri o cigarro no hálito frio e a tarde encolheu-se fugidia. Soletro a calçada, pedras em granito tão velho, com destino a ti.

Volvidos foram tantos anos, Manuela, que regressar assemelha-se ao aroma de uma velha reserva de vinho bebida em balões que nos enchem as mãos. Tento imaginar se o tempo te foi cruel, cavando rugas sobre o teu rosto, pregueando a pele no pescoço, nas axilas… Se te deu sofrimento de enegrecer a alma, ou caducando a maciez que os teus olhos continham.

(abano a cabeça numa flexão para me desvanecer de tais pensamentos, a cidade pulsa, vibra, vive…)

Se o tempo te deu em esgotada da paciência de filhos, viúva do amargo da rotina.

(… resplandece a cidade: há tantos anos que aqui não vinha, a verificar a harmonia das gaivotas, os prédios grisalhos sob o céu inconstante de chuva e neblinas, o humor acre das vielas e dos becos guardados no mofo das traseiras).

Sinto que ir a ti é como descer no passado com medo de cair no presente. Vou a pestanejar memórias nossas, de sobrolho arregaçado, memórias tão íntimas, flagrantes do que eu e tu somos (ou fomos) feitos. Por cada rosto que se cruza comigo na rua é um vulto pressagiador de ti, a acelerar-me o ritmo cardíaco, alterando a maré da minha saliva, a ansiedade dos dedos. Continuarás com o mesmo semblante de triunfo sobre tudo, o mesmo olhar curioso e atrevido, com o dom de me incendiar os sentidos?

Tudo isto, Manuela, são rastilhos de incertezas, pudor sobre a desfiguração, fragmentos do medo de nada ser como era. A teimar que o tempo não é senhor de fazer estragos, de deixar permanecer o que a memória não quer atraiçoar. E isto é tudo o que tenho quando chego ao prédio tombado na frontaria de uma velhice que não reconheço, tão despegado do futuro, como se nada tivesse havido antes para que pudesse estragar o presente de inesperadas fatalidades. O hálito do varandim com o cheiro a detergente da roupa pendurada sob o plúmbeo do céu parece acertar nisso: não reconheço qualquer peça, o tempo veio aqui desmanchar memórias, que raiva. E porque não recolheste ainda a roupa, Manuela, se a noite entrou de supetão mesmo que a tarde ainda exija o consentimento do burburinho diurno, dos carros, dos rostos que passam, das lojas entranhadas de luz tosca?

É então que carrego no botão oxidado da campainha. Tento lembrar-me do teu rosto sem artifícios do tempo, como se nenhum relógio tivesse funcionado entre a última vez que nos vimos e esta agora que nada me diz particularmente, pelo menos quanto ao que veio depois disso. Qual será, ó receio meu!, a imagem depois de ti? O que te sobrou. O que sobrou de ti em mim e de mim em ti. Tudo o que não pude aproveitar e agarrar, perpetuar. O que de nós vamos enfim conseguir aproveitar, Manuela? Saberei reciclar em mim a imagem depois de ti?

A campainha soou rouca, abriu-se instantes depois a porta que vai ou vem para ou da rua. Subo, sem precipitações, também sem hesitar, porém. Serão apenas alguns degraus, que me lembre. Amparada ao corrimão gasto onde pela primeira vez soubemos beijar-nos, vens a acenar-me, entre a penumbra. Subo ainda mais, renitente

(reticente agora?)

e quando te abeiraste do meu abraço cercando com as mão o meu rosto a indagar o que foi feito de mim, não esperava que te viessem lágrimas aos olhos

(nunca te vi lágrimas, Manuela, agora reparo que não te conheci as lágrimas)

e exclamasses num preconceito de cansaço: meu deus, o que o tempo fez de ti!

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