6 de outubro de 2012

és como o tempo

[... Cláudia Sofia...] por Cláudio Pinto em 1000 imagens

Não me venhas agora com falinhas mansas, Benilde, que nada já consegues mudar. A decisão está tomada, não consegues compreender isso? Não, não implores, que não volto atrás, vou de tal maneira zangado que se torna tudo irreversível, sem remédio ou emenda.

Ouves a chuva? Como a manhã nasceu tão prenha de sol, até parecia que um dia estival se havia erguido do horizonte a prometer enxotar os corpos para as sombras mais frescas. Eis que, porém, se levantou repentinamente um vento zangado, vindo de leste, 

(ou seria uma voz, o mau feitio numa voz irritada, frustrada e desesperadamente rouca de raiva?)

trazendo estas nuvens, esta chuva carregada, deitando por terra planos de passeios à beira mar, ternuras de casais nos jardins, esplanadas nos parques e nas praças, ou de churrascadas no alpendre.

És como o tempo, não é o que se diz? Aprende, pois, que todos nós, sem excepção, sofremos dos mesmos humores climatéricos.

E reflecte, Benilde: ele há tempestades e tormentas, tufões e furacões. Uns mansos, outros furiosos. São tantos e tão diferentes que desconhecemos o quanto uns e outros poderão destruir o que julgáramos seguro, sem dar espaço a reclamações ou lamentos: toda uma vida, planos, concepções do mundo e da forma de estarmos nele.

Que adianta, Benilde? Segue outra via, abriga-te quando tiveres a certeza que o telhado não te deixará defraudada.

Já falinhas mansas não me convencem.

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