5 de outubro de 2012

do hálito das folhas caídas e quebradiças

foto de Georgina Noronha

Regresso à inclinação parda do ocaso sob o hálito velho das folhas quebradiças ao largo pelas bermas. Daqui a nada – um, dois meses – as árvores se assemelharão a ossadas erguidas, e nós com ar de espanto a rodopiar sobre um pensamento fugaz

Já é inverno…

sem que tenhamos dado conta das chuvas miudinhas, do nevoeiro denso, da iluminação das ruas e dos autocarros à última hora de ponta. Sem que tenhamos dado conta que ansiar tanto pela sexta-feira, ou pelo fim-de-semana, ou pelo próximo dia de folga é dar muitas voltas ao relógio e então

Já faço anos…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

e isto apenas pensamentos fugazes em momentos que parecemos despertar de algo que não percebemos muito bem o que é e de onde vem, e logo a seguir continuando a ansiar pela sexta-feira, pelo fim-de-semana ou o próximo dia de folga porque trabalhar cansa para, porque temos tão pouco tempo de, porque o patrão é, porque quero estar com, porque… enfim: porque estamos insatisfeitos. Nem todos, sabemo-lo, nem todos, pois.

Vou recolhido em longas leituras. Abstenho-me de ruídos, de luz clara, e quase diria que do próprio ar se não fosse o ar necessário para respirar. Adormeço mais cedo e acordo mais tarde. Abstenho-me de ruídos não: ouço o latir dos cães, o recolher dos melros. Então depois disso, nada mais.

Ou o ruído de: a caneta pelo papel branco é um automóvel solitário pelas ruas de uma cidade deserta, como escrevi algures, mais coisa menos coisa (que importa?). Ou nem há sequer a caneta bufando: será apenas o papel branco, que já não fala e segue bocejando sempre de inutilidade. A sujar-se da penumbra. E quando eu olhar pela janela vou perceber (sem saber o que é e de onde vem)

Vê lá que já é inverno…

ou

Parece que ainda foi ontem que…

enquanto na rua, logo ali mesmo à porta, a berma a decompor em lama o quebradiço das folhas caídas. 

Regresso? Talvez nunca de cá tivesse saído.

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