15 de setembro de 2012

reencontro

fotografia de Rogier Houwen

Hoje é dia da boca do povo, Emília, ou do seu silêncio a contestar com o olhar posto no futuro incerto. Queremos que se mude o rumo deste país, defendem. Tu sabes, já que vês, ao contrário de mim, os noticiários na televisão e as gordas dos jornais. Descemos a avenida, ainda deserta, sob o sol de Setembro que aprendeu nos últimos anos em teimar com o verão, uma vez que é o seu último reduto. De tal forma que nem em Julho ou Agosto consegui manchar a camisola que trago do suor que transpiro agora, abafado, com a fadiga colada ao corpo,

(há quanto tempo não desço esta avenida com uma temperatura assim? Faz-me lembrar os tempos de adolescente em que…),

pesando ainda que o vinho que tomamos durante o almoço em nada ajuda para que o corpo consiga arrefecer minimamente. Dizes:

- Não tenho pachorra para manifestações, Eduardo, já foi o tempo disso, chavões e palavras de ordem, os mais patéticos cartazes, insultos aos políticos, punhos erguidos, cantorias fora de moda, gritos e histerias, diz-me lá

(e eu a notar do quanto esta avenida, aquela praça, estão despidas de árvores; vinte ou vinte e cinco anos atrás havia tanta sombra. Descíamos a avenida, entroncávamos na estação e descíamos uma das ruas para ir saciar a sede junto ao rio, onde procurávamos tremoços, azeitonas e cerveja fresca, lembras?)

- Diz-me por que, se querem tanto mudar, não pegam em armas e fazem um golpe, mas que santo ainda acha que isto vai lá com manifestações? Alguma resultou, Eduardo, consegues dar-me exemplos, ou sou eu que já estou ché-ché?

Sei lá responder-te, Emília, a mim tanto me faz desde que me encontres uma sombra para me aliviar do suor a inundar-me as costas, a sudação das tuas mãos já me repugna, não te agarres, afasta-te por favor, leva-me para um chuveiro e uma penumbra; havia dias, sabes, em que em vez de passear pela cidade

(e como podes saber se isto não era contigo?)

decidíamos ficar em minha casa, quando os meus pais e irmãos lá não estavam, abençoando-nos com a sua ausência. As persianas mal corridas, os lençóis frescos da minha cama, o silêncio da casa acolhendo lentamente a música que colocávamos no aparelho de som, bebidas frescas, tantos sorrisos cúmplices, os nossos corpos

(adorava os domingos contigo, fosse verão ou inverno, promessas de dias inteiros na primavera ou de melancólicas tardes coloridas do outono que vingava o crepúsculo mais cedo)

Calma, estamos a chegar, dizes-me, para aliviar-me do incómodo do sol. Pescas da carteira um molho tilintante de chaves, olho a frontaria  velha e granítica do prédio para onde me levas, as pombas recolhidas na cornija com esperança que o calor não lhes apanhe a tranquilidade, vejo em baixo uma esplanada de plásticos desbotados com cerveja a servir a sede de alguns aventureiros, e continuas com o teu julgamento: Pouquíssima gente, não está por aqui quase ninguém, achas que isto vai encher?, pois sim, foram é todos para a praia, com um sol destes, que é o que o povo gosta, estão todos a borrifar-se nas manifestações!

(A casa onde vivia com os meus pais, Fernanda, sem a família lá dentro, ou seja, a casa dos meus pais vazia como se fosse só nossa, como sempre havíamos de sonhar com uma casa assim, habitada pelo silêncio e por nós; lembro-me de nos despirmos do calor e saboreávamos cada sombra da casa nus, partilhando-nos como se o mundo fosse apenas nós e nosso)

Estás bem?, perguntas-me ao ver-me desesperado com o calor, Olha para o que havia de nos reservar o setembro, ahn?, e eu com o olhar distante no passado. Abres uma porta pesada, um hall de entrada cheirando a coisa velha, uma porta interior à direita, uma outra à esquerda, e em frente uma escadaria em madeira: Vamos, é lá em cima, encorajas-me,

(e como eu adorava o perfume dos teus cabelos loiros, cheiro do feno e da maçã, a maciez dos teus ombros, o rubor dos teus seios, a ternura da carne do corpo tão apelativa como um forno no inverno, tu toda beijos mordiscando-me os sentidos a acenar com gemidos o quanto o amor te dava de felicidade, e tudo aquilo me parecia tão perfeito),

subimos a escadaria rangendo em cada degrau e no primeiro patamar, rodando à esquerda, a porta com a placa em latão anunciando “Emília Prado, Psicóloga”. É aqui, confirmaste, abrindo a porta com outra chave. Há água naquele frigorífico, vai beber antes que caias para o lado,

(nós divertíamo-nos com cocktails inventados, gelo, copos de várias formas, mas a sede saciávamo-la com a pressa das nossas línguas, jovens éramos, e eu questiono-me)

- Porque diabo não paramos nos vinte anos, Emília?

(e não é para a Emília, é para ti que falo, Fernanda, porque diabo não fomos capazes de matar o tempo com os nossos corpos em êxtase, onde foi que tudo se perdeu e para onde, e porquê, afinal?)

Estás doido, o sol fez-te mal à moleirinha!, dizes-me, a abraçar-me pelo pescoço, eu tão peganhento do suor, incomodado, de regresso à tona da realidade, porque não era para ti que falava há pouco, Emília. Insinuo em silêncio para que me tires os braços de cima de mim, estou ainda cheio de calor, Abres-me uma janela por favor?, peço-te. Claro, concedes, e mal abres a janela surge uma brisa leve a arrefecer-me os braços. Chego-me ao parapeito, subo o estore, olho para baixo. Olha!, exclamo, está aqui tanta gente em silêncio!... 

Vens espreitar e ficamos aqui os dois, nesta janela alta, juntando-nos sem surpresa à manifestação a que não querias dar importância. Vejo-te sorrindo, mas hoje não é a ti que vejo, nem a ti te sentirei quando mais tarde me deres o corpo faminto,

(abro parêntesis e digo que és tu, Fernanda, com quem eu hoje quero sonhar, e fazer testemunho de que o nosso amor, apesar de tão imaturo, terá sido o mais belo que alguma vez partilhei),

porque, de vez em quando, tenho necessidade de reencontrar-me com o meu passado, Emília. E devolver-lhe a paz.


Enviar um comentário