21 de julho de 2012

natureza viva

vestida de luz, por Elsa Mota Gomes em 1000 imagens
para a Anabela Maria


A afogar-me emocionado na flor carmesim do teu corpo: as minhas lágrimas concentradas para o desabafo leitoso da haste que te segura as pétalas, enquanto a luz anuncia o intervalo entre o fresco hálito de uma madrugada marinha e a promessa de uma alvorada ainda por trás das colinas. Os teus dedos mexem como as folhas e a seiva deste caule, a tua língua ladrilhando de orvalho a sua textura de veludo, e num suspiro as pombas esvoaçando alvoroçadas com o brilho da manhã.

Deslumbras-me com os botões a enfeitar os cumes altos e largos do teu peito, bolhões de água viva provocando o fervor das minhas mãos e saciando-me a sede impaciente dos lábios que procuram o seu desabrochar. Tens a cor do musgo nos olhos, penetrada nos meus com brilho e sombra e paixão, e o perfume do tojo e da giesta na tempestade voluta dos teus cabelos a perpetuar a primavera em mim.

E quando as tuas pernas, acariciadas pela flor do trigo, me prometem o pão em delicados movimentos, já eu sou todo fera faminta de carne, farejando o teu sangue, uivando em sucessivos gritos de um qualquer ritual gentio de evocar o solstício, entregue ao vinho pisado, ao mosto, mordendo os figos leitosos. De tão ébrio de ti vou que, desequilibrado de espasmo, perco-me a semear-te no ventre toda a espuma de mim ao mesmo tempo que te entregas e te estilhaças em rebentações contínuas de onda insaciável.

Esvaneceu-se então o crepúsculo, com as asas das pombas desenhando sombras chinesas na janela. Fotografo-te com a memória: tu ainda te contorces numa ternura infantil e tão delicada de carne e pele e cheiro que arredo o efémero do momento e convido-te a retomarmos pela orla do dia o nosso corso de natureza viva.


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