31 de dezembro de 2011

a moral, segundo o marido da Adelaide


Adelaide? Já cheguei. Está um frio que não se pode andar na rua. Toma, aqui estão os comprimidos. Agora ouve isto que se passou há pouco comigo: quando entrei na farmácia estava uma senhora, talvez com a tua idade, não sei, hoje olhamos para os rostos das pessoas, pensamos tem idade tal, mas afinal vem a saber-se e são pessoas bem mais jovens que nós; essa senhora na farmácia estava num pranto sibilante, não se lhe ouvia a voz, apenas o ar entre dentes a escapar-se numa convulsão que a pobre não podia mais conter. Queria aviar uma receita e não tinha dinheiro suficiente para pagar os medicamentos de que precisava. O senhor da farmácia dizia não poder fazer nada. E a senhora ali, a soprar as lágrimas, de porta-moedas aberto, com a mão agarrada ao saquinho dos medicamentos, enquanto o homem da farmácia, sem modos, tentava arrancá-lo da mulher. Não posso fiar, minha senhora, dizia o homem, eu apenas trabalho aqui, se lhe deixo levar os medicamentos sem os pagar habilito-me eu a ficar sem o trabalho e tenho filhos a sustentar; vá, quando tiver dinheiro regressa cá.

Sabes como é o meu feito… Se não rosnei ao farmacêutico é porque não nasci com vocação para cão, nem fero sou, como me parecera que ele estava a ser. Nem um pingo de simpatia, percebes? Vai daí que eu perguntei, Olhe lá, e ele olhou, com ar de despeitado, como se já soubesse que o ia afrontar, Então se a senhora precisa dos medicamentos e não tem dinheiro para os levar, não há qualquer forma de resolver isso, e se você diz que só trabalha aqui, chame lá alguém com responsabilidades, o dono da farmácia, o gerente, alguém que possa atravessar-se.

E nisto, um ronco de automóvel vindo da rua fez-me calar e olhar para fora. Era uma mulher que estacionava em frente um destes automóveis topo de gama, todo metalizado e estofos xpto. Outro senhor que estava já de saída tanto se admirou com aquilo que até disse Foda-se que o caralho da velha quase que se estampava contra o carro da frente. Voltei-me para o balcão e insisti, Vá homem, chame lá alguém, e entretanto é a minha vez de ser atendido, por uma rapariga bonita e simpática, e eu sempre na minha, Menina não está aí alguém que possa ajudar esta senhora?

Pois simpática como era, e perante o olhar de reprovação do colega, disse A senhora não pode pagar, não tem dinheiro nenhum?, perguntou, e a senhora não saia daquele silvo, sem largar a saquinha dos remédios de que entretanto o trombudo desistira de tentar reaver. A pobre com o porta-moedas aberto e vazio a doer-lhe na alma, com uma nota de cinco e mais uns trocos sobre o balcão. Queria falar, mas sempre que tentava, era só o silvo, talvez um nada de murmúrio, de quem chora mesmo muito baixinho. Oh menina, disse eu, veja lá o estado da senhora, só tem esse dinheiro que tirou, não está cá o responsável pela farmácia? Está mas não pode atender, se a senhora não tem dinheiro não pode levar os medicamentos, isto aqui não é uma mercearia, comentou o sujeito. Esse sim, deve ter nascido com vocação de fera, uma besta, de tal maneira que se ouvia o ranger dos dentes, como se lhe estivessem a roubar, ou algo assim.

Entra nessa altura na farmácia uma senhora ainda mais velha que eu ou tu, mas muito bem composta de roupa, cabelo arroxeado, a cheirar a pó de arroz antigo, deixando escorregar da dentadura um boa tarde altivo e arrastado. Tinha-se colocado ao lado da mulher que chorava, e quando disso se apercebeu afastou-se muito ligeira para o canto do balcão como se tivesse visto um bicho. Era a tal velha do ronco do carro. O cretino do funcionário foi logo atendê-la, todo servil, devia ser cliente habitual pois sabia-lhe o nome e perguntava Como está os netinhos, e a senhora tem passado bem?, e em que posso ajudar-lhe, dona-não-sei-quantos, não fixei o nome da criatura.

Entretanto, a menina que viera para me atender foi lá dentro chamar uma tal doutora, dona da farmácia, ou lá o que é. Regressou anunciando que a Sôtora vinha já, para esperar um pouco. A senhora que chorava acalmou, tirou um lenço da carteira e assoou-se. Eu pedi os teus comprimidos e a menina voltou novamente para dentro. O outro estava a mostrar uma gama de produtos de beleza, uns cremes quaisquer, para a velha do carro escolher. Ouvia-a a dizer, no mesmo tom arrastado, parecia que não sabia abrir a boca para falar, Ai este não, que horror, tem um cheiro péssimo, veja-me aquele ali, quanto custa? É mais caro, dona não-sei-quantos, setenta de dois euros, Olhe, respondeu a velha, mais vale dar mais do que andar a colocar porcarias na pele, andei a comer bombons no natal e veja a desgraça, tenho o rosto todo cheio de borbulhas.

Ó Adelaide, então uma velha daquelas, lá porque comeu bombons enche-se-lhe a cara de borbulhas, como se fosse uma rapariga com as hormonas a saltarem-lhe no sangue? Está bem que pode ter alguma alergia, mas não é com cremes para a cara que se cura… Demais não se lhe via nada no focinho que não fossem rugas e pó de arroz ou lá o que ela trazia na cara, os lábios sumidos com um risco de baton e os olhos todos sujos dessa coisa do rímel. Haja paciência.

A senhora sem dinheiro suficiente, tendo secado as lágrimas, estava agora inquieta e murmurava, Ai meu Deus se não me dão os remédios do meu menino, ai meu Deus se não me dão os remédios do meu menino. O outro, registando a compra dos cremes da velha, ia olhando de soslaio para a que murmurava, com um ar vigilante, talvez pensasse que a pobre da mulher corresse a fugir sem pagar e ele, coitadinho, ficasse sem emprego. A menina regressa com os teus comprimidos, enfia-os numa saquinha, faz a factura e eu pago. Ao mesmo tempo ia a pagar a velha de cabelo armado e roxo, e nisto ouve-se-lhe um gritinho. Afinal sempre abria a boca. Ficou aflita porque não tinha dinheiro com ela quando o jeitoso lhe informou que não podia pagar com o cartão porque o multibanco estava com avaria. Não se preocupe, dona não-sei-quantos, amanhã ou depois quando cá passar paga, disse ele à velha. Eu então cruzo os braços de protesto e ia a falar quando a menina que me tinha atendido voltava do interior da farmácia

(foi lá dentro a meu rogo, depois de lhe ter pago a minha conta, Veja lá se a senhora doutora vem atender esta senhora, coitada. Esta continuava impaciente e a murmurar a mesma ladainha Ai meus Deus se não me dão os remédios do meu menino).

Estava a dizer o quê, Adelaide? Ah, sim, ia eu a protestar pelo facto da velha poder pagar depois os cremezinhos da cara para as borbulhas, enquanto que a senhora não podia levar os medicamentos que soube depois era para o filho, de onze anitos, vê lá, não te disse que a gente vê caras e julga tens esta idade e afinal são mais novas do que parece? Que triste que isto é… Então a menina tinha voltado com o recado da doutora da merda, a dizer que infelizmente não se podia fiar, que voltasse quando tivesse o dinheiro certo, talvez se levasse apenas um dos medicamentos, isto já era a simpatia da rapariga a falar, mas a senhora desata a chorar desta vez convulsivamente e quase gritando Mas o meu menino tem de ter os dois, um sem o outro não faz nada, oh meu Deus, oh meu Deus, eu recebo pouco, acabei de pagar a conta da luz e só me resta isto, oh meu Deus, oh meu Deus.

Então que vem a ser isto, caramba, exaltei-me eu, se aquele museu pode levar os cremes sem pagar porque não podem fazer o mesmo com esta senhora, então não se está a ver que ela precisa dos medicamentos para o miúdo? O senhor acalme-se, disse o empregado furioso, aquela senhora não pagou mas vai pagar, já é nossa cliente há anos, faz favor de ter respeito. Oh homem, atalhei eu, meta a cliente por um sítio que eu cá sei, e não me fale em respeito que tenho idade para ser seu pai, seu badameco, falta de respeito pelo próximo é que o você tem, então não vê que esta pobre senhora tem mais necessidade do que o mamarracho que você atendeu antes? Minha senhora, virei-me para a mulher que chorava, tenha calma que vai levar os remédios, ó menina, veja-me lá quanto é que isto é. Se o senhor quer pagar isso é consigo, mas advirto-o que não fala assim nesta farmácia, disse o tipo. Cale-se homem, ordenei eu, ou nem sei que faça, e nisto agarrei num boião de batons para o cieiro que ali estava à mão de semear para lhe atirar à tola. A rapariga é que acalmou os ânimos, Vá não é preciso nada disso, Ó António vai para dentro que eu trato do assunto, o senhor quer então pagar? Sim, respondi convicto, esta senhora não sai daqui sem os medicamentos. Muito bem, são sete euros e dez cêntimos.

Olha, fiquei para a minha vida. Afinal a diferença era pouco mais de um euro, com o dinheiro que a senhora tinha, era o que faltava pagar. E o badameco mais a doutorzeca de chacha não podiam fiar um euro à pobre, mas a outra, toda pintada como um palhaço, lá porque conduz uma bomba, já podia pagar setenta euros depois, vê lá tu. Abanei a cabeça em reprovação, e paguei os medicamentos da senhora, sete euros e dez cêntimos. Vá com Deus, minha senhora, e as melhoras do seu menino. Ela ainda quis dar-me o dinheiro que tinha, quase seis euros somando os troquitos, mas não aceitei. A mulher lá saiu da farmácia, entre um choradinho e obrigados constantes, sempre agarrada à saquinha com os medicamentos do filho

(contou-me por alto a história do miúdo, entre soluços, quando eu efectuava o pagamento).

Antes de sair da farmácia, que não tinha mais clientes, virei-me para a rapariga que tão amavelmente me atendeu e disse-lhe Olhe que não é por si, que sei que a menina é gentil, mas pelo seu colega e pela sua patroa, lamento muito, mas já cá não venho mais. Não é caso para tanto, ainda defendeu ela, e eu rematei, É menina, isto não se faz, desculpe o incómodo e por me ter exaltado há pouco, mas vou e não volto, sou um homem de princípios, não gosto de ver as pessoas maltratadas como vi hoje aqui, muito boa tarde e felicidades para si. E saí. Não volto lá, não.

Mas não acaba aqui. E agora não vais acreditar, Adelaide. Dez metros adiante da farmácia tem a paragem do autocarro, antes de virar aqui para a nossa rua, não é? Pois. Vou a passar, ainda remoído de indignação pelo que tinha sucedido, e vejo a senhora dos remédios para o filho. Encostada ao vidro da paragem a fumar. A fumar, repara. Enfim. Ainda olhei para ela, bem nos olhos, ela olhou para mim, e baixou o olhar, continuando a fumar.

Olha, fiquei mais uma vez para a minha vida.
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