31 de agosto de 2011

é isto e aquilo


Não sei o que fale o que diga o que escreva, talvez perguntas em meu redor, eu de copo de uísque numa mão e de cigarro na outra

- É isto e aquilo

e no entanto nada, eu sozinho parado perante a brancura de um papel que teima em não ser a voz

(o papel branco a voz da minha solidão)

e sei que

- É isto e aquilo

mas não sei dizer isto e aquilo, porque as palavras não fluem, atropelam-se no pensamento, sem desnivelamento como as auto-estradas. Sou um velho automóvel

a esferográfica é como um automóvel às voltas pela cidade

que não sabe o seu caminho, que não sabe se o combustível vai chegar, eu apertando a buzina para dissipar o trânsito e os outros, à minha frente,

- Passa por cima

as palavras para mim, engarrafadas no pensamento, não conseguindo chegar ao papel

- Passa por cima

e é por cima que tento passar, com uma enorme borracha sobre todo o passado que se acumula dentro de mim, mas qualquer coisa apenas se dissipa, não consigo apagar tudo, a marca está lá, eu estou aqui, e o papel sorri-me com ar de desprezo porque não

- É isto e aquilo

é qualquer outra coisa que só o meu semblante distante insinua.

O copo de uísque num piscar de olhos vazio, o cigarro já apagado, os minutos que se esvaziam como o copo, o tempo que se apaga como o cigarro, ou seja, não se apaga, apenas queima e ao queimar deixa a sua marca, indelével, dolorosa, como se tudo que fosse ontem me saísse vomitado neste entroncamento de palavras atropeladas e engarrafando, gritando umas às outras

- Passa por cima;

tudo o que fosse ontem me fosse o presente aqui e agora, a infância, a adolescência, os primeiros dias de trabalho, eu responsável por ganhar o meu próprio dinheiro, ouvindo dos outros, atrás de computadores e papeis intensos

- É isto e aquilo;

eu aprendendo como se redige uma carta, um fax, anos mais tarde como cumprir um orçamento, ajudando ao equilíbrio financeiro, os números sem engarrafamentos, sem

- Passa por cima

os números perseguindo-me em fileiras, armados de raízes quadradas e rácios, prontos para me atacarem, cercarem as palavras mais nobres do dicionário com

- Faz um print

ou

- Calcule-me a margem

Mas qual margem, esquerda ou direita, norte ou sul, e eu preso pela primeira vez pelo papel branco, sem saber que caminho tomar com as palavras engarrafas dentro do meu pensamento, policiadas pelos números armados de raízes quadradas e rácios,

- Uma task force para acabarmos isto ainda hoje

porém não sabia como sair de certas situações, por mais prints que fizesse, por mais margens calculasse

(a oeste, a leste de que cidade, de que rio?)

Nem task force nem target para atingir, só vejo os números acirrando-me com funções lógicas e o papel transformado numa prisão de quadriculados onde as palavras sem protesto, sem

- Passa por cima

as palavras resignadas tanto quanto eu, a olhar para tudo e todos com uma raiva, balão que enche comprimido, à espera da intencional agulha no seu corpo farto: eis que explode, a raiva cavalga sobre os números, mas também sobre as palavras, passa por cima de mim, do que sou, do que quero, não me domino, e mesmo assim a insistência

- Uma task force para acabarmos isto ainda hoje.

O copo de uísque com uma nova dose, um outro cigarro derramando a sua etérea brancura no ar, como se a solidão não um papel branco, um cigarro inspirado e expirado no meio do da chuva de um Agosto findo sem verão, duas mulheres encolhem-se na berma, sobressaltadas na noite com os faróis furiosos de um automóvel assomando,

- Cuidado com o carro!

um automóvel furioso à voltas na cidade, sem combustível, ou seja, uma esferográfica, perdida nos becos e entroncamentos do meu pensamento, acabando por deixar as palavras engarrafadas, barafustando, não querendo saltar para o papel, negando

- Faz um print

negando

- Isto e aquilo.

Que outra coisa posso eu então fazer senão apagar novamente o cigarro, acabar-lhe com o ar de chaminé ao encontro de estrelas? Lá fora o agosto findando sem ter havido verão, com a chuva a cair, as duas mulheres fugindo dos faróis

- Cuidado com o carro!

e o papel sorrindo para mim cruelmente, dominante, irritante, mas apelativo. E desta forma acossado e inchado, como o balão, deixo-me picar pela agulha de um

- Merda para isto!

rebentando convulsivamente, sendo então que as minhas mãos amarrotam o papel zombeteiro de tão branco, numa raiva angustiada e comandada por uma voz que me obstina

- Passa por cima.

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