21 de junho de 2011

violência doméstica


Estendeu-se na cama, completamente nua sobre os lençóis, com a cara fechada e as palmas das mãos abertas como que oferecida a um sacrifício:

- Se me queres aqui me tens,

assim, taxativamente, toda à minha mercê, como se eu fosse um bicho de grunhir e me plantasse nela apenas para satisfazer a necessidade animal. Fechou os olhos esperando, enquanto eu desenvolvia silêncios de espanto e sofria o punhal espetado no peito; afinal era isso o que ela queria, enfiar-me um punhal no peito. Uma provocação como todas as outras anteriores.

- Não é assim que te quero, se fosse para isso pagava.

E como uma provocação leva a outra, depois das minhas palavras, lembrei-me de lhe retribuir o mesmo punhal, abrindo a carteira que estava na cómoda. Soltei três notas pequenas e atirei-as sobre o corpo exposto e oferecido.

- Toma, deve ser isso que esperas. Pago-te o serviço sem me servir. Hoje não me apetece.

E abandonei o quarto. Ao fechar a porta ainda a ouvi vociferar. A noite passou com uma insónia sobre mim, despojado no sofá, mas a porta do quarto não se abriu. Pela manhã, quando lá entrei novamente, ferindo o joelho no escuro contra o camiseiro, encontrei os olhos verdes dela, boca a vociferar violando o silêncio que podia ainda ser conciliador.

Tudo acontecera dias antes. Acontecer é uma maneira de dizer, na realidade apenas descobri o que vinha acontecendo há uns dois meses. Tinha tudo para desconfiar: as chegadas do trabalho a horas menos habituais, os atrasos cada vez mais constantes no infantário onde se esquecia que tinha o filho, encontros com amigas cujos nomes nunca tinha ouvido falar; enfim – todos os indícios imagináveis que toda a gente se habituou a reconhecer nas situações em que alguém anda a enganar alguém e, como sempre, o corno é sempre o último a saber, o coitadinho de olhos vendados. E eu tinha-os, bem vendados por um amor sincero, e uma criança de um ano que justificaria, julgava eu, um laço inviolável.

Essa venda tinha um dia que cair. As incongruências sucediam-se. As desculpas já não eram esfarrapadas, eram como que obscenas, para uma vida dedicada à família, com trabalho árduo, à construção do lar, à economia pequena que me tirava os mundanos prazeres. Decidi segui-la.
Afinal saia à hora normal. Ao contrário do que ela dizia, a confeitaria não prolongara o seu horário. Fora fácil enganar-me quanto a isso, nunca lá tinha ido, era bastante afastada da zona onde morávamos e muito longe dos meus trajectos trabalho-casa. Era verdade no entanto o que ela dizia quanto à falta do pessoal. Quando ela saiu, na motoreta que tinha conseguido oferecer-lhe para lhe poupar aos atrasos do transporte público, e logo após uma outra motoreta ter partido do mesmo local, a confeitaria ficara apenas com uma pessoa lá dentro, atendendo os últimos clientes, e ostentava um cartaz na vitrina, pedindo duas novas empregadas de balcão. Teria sido aquele dia uma excepção, teria conseguido sair no horário normal? Estava com um carro emprestado e ela nunca suspeitaria, pelo que continuei na minha perseguição, que me soava a absurdo, um marido perseguindo sorrateiro a sua mulher.

Pude verificar logo nos primeiros metros da estrada que as duas motoretas seguiam no mesmo ritmo, viravam nas mesmas direcções em cada cruzamento, alinhavam-se nos sinais fechados. Os capacetes moviam-se ao encontro um do outro. Na outra motoreta seguia um homem, uma silhueta masculina. Mais adiante os dois motociclos dobraram uma esquina apertada, que verifiquei depois tratar-se de um atalho que o carro nunca conseguiria atravessar. Fim do meu percurso?, indaguei. Estacionei e aventurei-me a pé pelo trilho de terra batida. Logo ali, num fundo escuro que a sombra cobria à medida que a tarde ia findando, vi as motoretas no descanso. Ela estava por ali com alguém. Ela estava por ali com um homem. Era a resposta para os atrasos e para as desculpas. Ela, a mulher que me dera um filho, a que partilhava comigo o mesmo tecto, a mesma cama, estava por ali, escondida na sombra a fazer sabe-se lá o quê com alguém que eu não conhecia. Ansioso, avancei, com dificuldade em imaginar o que ia encontrar, e o que iria fazer e dizer se todas as suspeitas se confirmassem.

Cautelosamente fui chegando perto do local onde descansavam as motorizadas. Agachado. Com um medo absurdo de ser apanhado na minha intenção sorrateira, quando as circunstâncias apontavam para o contrário. Não era eu que prevaricava, eu era apenas o parvo que confiava nela. Mas se queria provar alguma coisa teria de avançar assim, convencido que só um flagrante me faria acreditar o que pudesse ser dito por outros. Havia um declive no terreno, que dava para um edifício em obras. Aliás, uma obra embargada, o esqueleto de um edifício embargado, estereótipo do covil urbano da delinquência, dos enjeitados, dos marginais, dos drogados. Vi-os por fim. Fumavam ambos. Ela que nunca fumara, e me obrigara a deixar o vício porque era um desperdício de dinheiro e saúde. Ouviam-se as gargalhadas dela. Enfureci-me. O puto no infantário à espera que o fosse buscar, e ela ali a fumar e a rir-se com um estranho. Resolvi acabar com aquilo e avançar para eles, quando os vejo a envolverem-se num longo abraço. Parei. Paralisado pelo desgosto. E fiquei ali, especado, feito estúpido a observar os avanços das mãos dele no corpo dela que era também o meu. E os avanços das duas bocas que se esmagaram sofregamente. Assim, ali à minha frente, alheios a tudo, num lugar onde tudo podia acontecer. Fui avançando devagar com as pernas tremendo como varas, tão fracas, como se um medo tivesse possuído o meu corpo. Sentia latejar-me a cabeça e o peito convulsionado por um coração enfurecido. E fui avançando sem tirar o olhos daquela cena que me enojava, e sem que eles parassem de se esfregar um no outro. Avancei até bem perto, mas ambos estavam tão excitados que não deram conta da minha presença. Chamei-a pelo nome e só tive a certeza de que a minha voz conseguiu realmente articular som quando ela, num gesto brusco, se solta dele e fica a olhar para mim estupefacta.

Não sei contar o que aconteceu depois, tal foi a cegueira da raiva e do ciúme. Lembro-me de uma azeda troca de palavras, inicialmente, depois o meu punho direito fechado contra o maxilar dele, um punhado do cabelo dela na minha mão esquerda, gritos, no meu estômago um dor súbita provocada por um pontapé, humidade na minha cara, cuspida por ela. Ele fugiu, montou a sua motoreta e desapareceu. Arrastei-a por um braço para fora da vereda. À resistência dela em entrar no automóvel, esmaguei a minha mão sobre o seu rosto, abrindo-lhe um lábio.

Então todos na família ficaram a saber, ou fingindo só agora saber o que já sabiam. Ela não queria voltar comigo. Disse que refaria sua vida de novo, que iria buscar o menino e ia viver em casa da mãe, enquanto não encontrasse uma para ela. Eu, desfeito pelo desgosto mas acreditando que o meu amor pudesse vencer, ainda implorei que voltasse, confessando-lhe o mesmo amor cego, que a queria, que a queria muito. Dois dias depois, convencida pela mãe que esgotou todos os conselhos e argumentos para que um lar não devia ser desfeito assim, que não menosprezasse o meu amor, que afinal ela até era uma grande sortuda por eu ainda a querer, voltou para casa, ao fim do dia. Perdera o trabalho, ou deixou-o. Conversámos. Quis saber por que eu ainda a amava, depois do que se passou. Dei-lhe as minhas razões, calmamente, olhando para o nosso filho como a apontar a maior razão de todas. Ela sempre de cara fechada, como que contrariada.

- Queres-me para ti, é isso?
- Quero-te para nós, quero-te sim.

Não disse mais nada. Tratou do menino, arrumou algumas coisas, enquanto eu esperava angustiado por uma palavra de ternura. Disse então que me esperava no quarto. Suspirei, mas ainda não aliviado. Quando enfim entrei no quarto, lá estava ela, deitada, nua, de pernas abertas, a carapinha do púbis molhada depois do banho, ainda se sentia o cheiro adocicado do sabonete e a ténue névoa do vapor da água quente.

- Se me queres aqui me tens.

Foi as palavras que me disse. As últimas antes da noite de insónia, as tais do punhal espetado no peito, e do dinheiro que joguei sobre o corpo dela brincando às putas. E quando de manhã entrei novamente no quarto, os seus olhos verdes faiscando-me, dou uma joelhada no escuro de encontro ao camiseiro, e sem sequer me deixar recuperar da dor, vociferou

- Seu grande corno, palerma, porque não me deixas viver a minha vida?

Depois disso nada mais disse. Cego de raiva por ela, por mim, pelo mundo, avancei sobre a cama e os socos que lhe dei calaram-na para sempre.

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