29 de maio de 2011

tiques da inocência perdida na casa assombrada de mim

Analysis of Intimacy: Shadows in My House, por melonyb em RedBubble

Perscruto o céu franzindo o olhar e nada de novo: sol de pouca dura, nuvens zangadas, as mesmas

(serão afinal eternas?)

nuvens parindo sombras na parede. Os rostos que passam por mim nos dias comuns deitam-me à indiferença como se aos poucos tivesse deixado de existir para uma quantidade considerável de outros. São os olhares das mulheres, porém, que mais me magoam. As lindas jovens mulheres, raparigas, enfim, que me passam pelo olhar e o evitam como se no meu rosto existissem dois buracos de negro e assustador abismo. Sei que não é isso, antes sentimentos de pudor misturados com o asco de um velho a tentar seduzir meninas. As meninas que eram a minha paixão e agora me condenam a deixar para trás uma inocência que nunca quis perder.

São os anos que passam, e o corpo, antes de se decompor quando vier a hora certa, começa primeiro a descompor-se. Não adianta o paleio do exercício e alimentação equilibrada que esses apelos a uma vida saudável não travam nada. Não deixam que o tempo avance, pois isso queria eu parar. Pois se aos quarenta

(- Que vem a ser isto aqui?
- Onde?
- Aqui, na tua cara… oh!, são pêlos brancos da tua barba.
- Reflexo da luz?...
- Tens também nas sobrancelhas, agora vendo melhor.
- Reflex…
- Já para não falar nas do cabelo, com essa entradas.
- ... ok.)

já nos pregueia a pele onde antes lisa, e aos cinquenta as primeiras falhas de memória quando tudo era tão ontem

(- Não bebas tanto),

que é a idade dos setenta senão o princípio de um declínio que nunca devia acontecer na vida de uma pessoa? O jeito inseguro de manter uma erecção que se veja

(- Não bebas tanto)

e ejaculações frustrantes passados poucos minutos, é o que me vai restando.

Um dia doenças a que não ligava puto, outro dia cansaço e dores nas costas, o apelo constante do cigarro e as barras do alpendre bebidas de ferrugem porque deixei de reparar nelas como não reparo no gotejar de uma torneira em falência, duas ou três telhas desajustadas deixando a água dos temporais infiltrar, rachadelas nas paredes, os vasos já tão secos de nada como se os desertos também se pudessem representar como o fazemos aos prados floridos para não nos gastarmos de tanto betão e asfalto.

Ainda mais as palavras que tardam a chegar: ao pensamento, à boca (aqui tão desarticuladas que quase sempre me apetece carpir o silêncio de mim), e aos dedos, na letra trémula de um puto que começa a desenhar as primeiras letras. Adormecer sobre os livros. Evitar outonos e invernos com mais medo. Medo constante de

(- Não fumes tanto),

o medo constante de um dia os médicos

(- Não fumes tanto),

o medo perene, agora, de tudo acontecer, quando tudo se vê acontecer aos que connosco ainda chegaram até este presente

(- Sabes quem morreu? O Moreira.
- O Moreira morreu?
- Sim, vê lá. Uma saúde de ferro, um dia chega a casa de um passeio, diz que se sente mal disposto e momentos depois morre. Assim.
- Detesto que me contes essas coisas.
- Tão novo…
- Detesto, Marília.
- É a vida…)

A vida. E onde está a minha? Ou em que fase se encontra?

Nada de novo: sempre quis fugir das sombras, mas sou eu já que eclipso o sol nas paredes desta casa assombrada de mim. Desejo tanto um amor jovem. Sentir nas mãos o vigor dos seios alvos para os afagar ofegante da descoberta. O perfume da juventude. O aroma da carne rosada, quase virgem. O útero imaculado para onde pudesse regressar. E deixar o passado acontecer num futuro ainda longínquo como quando, aos dez anos, me parecia impossível que a idade dos velhos me afectasse. Os velhos sempre teriam sido velhos.

Hoje não sei o que esperar. Apenas desejos: imorais porque se foi a inocência. Guarda o jornal, Marília, não quero saber do mundo. Mais tarde ou mais cedo ele virá para me pedir contas. E engolir-me numa imortalidade de esquecimento.

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