23 de fevereiro de 2011

há dias



Há dias em que escrever é um terrível sacrifício. As palavras desentendem-se, exaltadas e confusas, e por isso, em vez de escrever, enrolo-me num cobertor

(talvez fume um ou dois cigarros no intuito de fazer adormecer as palavras, mas sou eu quem boceja)

e aconchegado a uma solidão pateta, construída por paredes de sombras paridas na frieza do entardecer, ligo a televisão e afundo-me na morrinha de um programa qualquer a que não presto atenção porque as palavras

desentendidas, exaltadas,

distraem-me e levam-me por becos e travessas de pensamentos, articulados e fazendo todo o sentido ao princípio, mas fragmentando-se e distribuindo-se depois pelas sombras que me vão pesando as pálpebras enquanto a retina dos olhos parece ainda fixa na claridade do televisor, de que nada entendo, e já não ouço, entrando assim numa vigília atormentada por fragmentos de sonhos. E as palavras ainda desentendidas, exaltadas, tomam corpo dentro do sono que se adensa, se aprofunda, e quando dou por mim

(sem dar realmente por mim, sou um corpo adormecido dentro do rolo do cobertor, iluminado pela claridade do televisor e embalado pelo ronronar das vozes que dali saem)

estou entre a confusão alarmada das palavras, recusando-me a tomar partido de qualquer das partes divididas entre o escrever e o não escrever, entre o querer tudo e nada dizer; e sem perceber patavina do que estas palavras divididas pretendem

– Quem vos evocou?

sinto uma aflição a espalhar-se por mim, pois entretanto algumas das palavras embuçadas pelas sombras que o fim de tarde pariu, portanto, palavras embuçadas, transformadas em vilãs, extorsionárias, impiedosas, violentas, fazem um cerco à minha volta, eu todo aflições,

– Quem vos evocou?

querendo correr e a distância, ao invés de encurtar, cada vez maior, porque maior agora a escuridão, maior a patética solidão, maior o meu desespero enrolado num cobertor de palavras vilãs,

– Quem vos evocou?

eu chorando, convulsivamente chorando, emocionado pela morte de alguém que estas palavras por má fé quiseram desde sempre esconder,

(exaltadas, impiedosas)

o meu pranto convulso rebentando uma nascente de água salgada onde, por vingança, quero afogar todas estas palavras que me cercam, me sufocam, porque não palavras, já não palavras que se desentenderam, são sombras que a televisão não soube matar com a sua claridade, é a solidão que me violou os sentidos enquanto eu pateta, questionando às palavras rebeldes

– Quem vos evocou?

(por isso é um terrível sacrifício escrever devido à pardacenta luz do entardecer, cruelmente entorpecedora).

Quando os meus soluços enfim a cessar e eu conseguindo entreabrir os olhos molhados pela dor, por essa morte encoberta que as palavras barraram, esconderam, fazendo-se desentendidas quando

– Quem vos evocou?

foi então que revelaram

– É o meu pai, é o meu pai

como que a explodirem, elas agora agonizando

– Foi o teu pai, foi o teu pai
– Foi o pai
– O pai
– Pai
– Pai!

e acordo porque está a minha filha ao meu lado, mexendo-me, chamando-me

– Pai!

desenrolando-me lentamente do cobertor parido de sombras. Uma luz do tecto acende-se e é a minha mulher com um sorriso nas mãos, que me afaga o cabelo

– Estiveste a dormir, querido?

e é assim que regresso à presença do televisor ronronando, a minha filha, na sua voz ainda frágil,

– Pai, estiveste a dormir?

e eu, afastando já as palavras

(exaltadas, desentendidas)

liberto-me da patética solidão porque já não sombras, já não aflições e desesperos, já não lágrimas e prantos, agora tudo claro: quando me ergo a sorrir para beijar a minha filha, ela, na sua voz ainda frágil do bebé que já não é,

– Pai, estiveste a chorar?

De modo que… há dias em que escrever torna-se um terrível sacrifício.

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