25 de janeiro de 2011

às vezes

Luar © JVieira

Apesar de tudo, a mesma melancolia. Não evoques o sol e o verde nas árvores, porque este sol ainda nada aquece e as árvores de folha caduca só não caducaram de vez porque vão continuando de pé. Não quero desiludir-te mas não importa se o faço: eu vou enrolando os cobertores na cama onde temperaturas tropicais me fazem sonhar sobre os paraísos que ainda não conheci. Vou tão cansado do vento a cortar frio o rosto e as mãos, vendo as pessoas pobres a mendigar de farrapos sobre o corpo, e por mais que enrole os cobertores não as vejo de olhar mais feliz. Vou cansado da luz troçando de mim no soalho e se um pé de fora o corpo imediatamente todo tremeliques. Que mariconço me saíste, pensarás, a aconchegar-me com mais uma mantinha sobre a cama e os infelizes sem deixar de tremer uma esmola deixada nas mãos farripas. Nem quero que subas os estores e corras as cortinas. Deixa-me nessa penumbra amiga que conheço há tantos anos, a minha concha, o meu refúgio, ficando a iludir-me que se o mundo não me vê o mundo não é assim, poderá ser diferente quando um dia quiser enfim levantar-me e deixar o clima tropical enrolado nos cobertores. Que importa haver sorte, felicidade, amor, bem-estar, se entre isso há tudo o que é o seu contrário? E porque hei-de eu importar-me com isto? E porque hei-de importunar-te com estas coisas? Não sei que dizer-te. Podes sempre sair. Dói-me, não sei se me entendes. Dói como deixar a mão regelando com o vento seco e frio de janeiro. E quando me dói, regresso à infância dos medos, dos sustos, da ansiedade. Regresso ao centro da ferida. Regrido a um leito doente, entre as febres tropicais da cama enrolada nos cobertores com milhares e milhares de pobres de farrapos no corpo. Deliro e dói. E fico na esperança tonta de, uma vez infante novamente, uma vez mais inocente a morrer, me veja tornado anjinho do senhor com ganas de entornar o mundo e encher a taça de um novo vinho. Regenerado. Mas o senhor vem castigando-me desde tempos que nem sequer conheceste. Vou estrebuchar, ranger os dentes, gritar para dentro, lutar contra uma ressaca inventada mas saberei encontrar-te quando enfim a tal janela se voltar a abrir, e entre jardins novos reencontre o sentido de cá continuar. Sai, deixa agora a penumbra entrar e sai tu, que és do mundo. Eu só o sou às vezes.

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