7 de dezembro de 2010

pessoas do mundo




«All the souls He to touch
All the millions of souls He to touch» *


Somos todos pessoas. Por humanidade nos definimos, colocando no substantivo os mais nobres valores de uma verdadeira comunhão social. Desse ideal fabricamos os deuses que a história conhece. Da ideia de nós num mui avançado estado de moral e mentalidade apenas vocacionadas para o bem.

Negamos, em teoria, a nossa imperfeição biológica porque, sendo nós capazes de chamar a razão, temos o dever de estarmos aptos para alcançar o estado mais perfeito da evolução. De tal maneira que possamos ser o exemplo entre toda a natureza como prova da matéria divina. Para isso fomos criando, ao longo da nossa existência, comunidades, leis, estados, religiões. Apoiamo-nos (bem ou mal) dos recursos do nosso ambiente de forma a prolongar a nossa sobrevivência, contribuindo para um melhor bem-estar individual e comum. Queremos erradicar a forma pura do mal, para que da sua raiz não medre frutos maus e azedos.

Em milhares de anos, não conseguimos ainda, porém, concretizar na prática tão nobre objectivo. Matamos para comer, defecamos e exalamos odores, exploramos cegamente, e fodemos como qualquer outra besta. Aplicamos no nosso dia-a-dia, na condução das nossas sociedades, a mesma lei que rege os seres não racionais: vence sempre o mais forte. Somos seres contraditórios, mas continuamos a ser as mesmas pessoas do mundo, imberbemente evoluindo. Imperfeitos.

É defeito? Sim. Mas também não, se considerarmos e aceitarmos a nossa condição. Somos assim. No entanto, se acreditamos na evolução, é nosso dever, direito e responsabilidade comum querer avançar na nossa maturação como seres espirituais, que tanto temos projectado nas noções que temos de essência divina, que pouco mais é que fruto da nossa razão. Seguir mais longe, redefinindo a moral, enaltecendo a liberdade e praticando o que de melhor possa sair de nós, seria um lema.

Assim concordaria com as religiões: sermos cada vez mais próximos dos deuses que propusemos ao longo do nosso percurso na história, senão tomando a consciência que a referida essência divina nasce em nós e não está em nenhuma entidade projectada. Que deus, na realidade, faz parte de nós, do nosso estado puro, racional e espiritual comum.

Então, acontecendo esse tão desejado encontro com deus, seremos de pleno direito a Humanidade.


«Our true kingdom come, higher than higher than higher than higher» *


* Jon & Vangelis – He is Sailing
(Private Collection, 1983)

Enviar um comentário