11 de dezembro de 2010

nobre besta




- Bom dia senhor Alcino, vamos a acordar? São horas da medicação…
- Acorde senhor, então? Ainda temos de mudar a fralda.
- Senhor Alcino, está a ouvir-me?
- Chiu! Já me acordaste! Olha uma parada de bestas.
- Quais bestas, senhor Alcino, olhe que não somos bestas!
- Não és tu, as que estão ali na parede.

Primeiro vem uma tontura a atrapalhar o andar, a forma de levantar da cama ou quando se sai do banho. Como se fosse uma quebra de tensão, e instantes depois a cabeça a latejar. Mas só a partir do primeiro momento em que a corrente de uma sinapse se quebra

- Alguém tem uma pilha ou uma vela?
- Foste ver o quadro?
- Acho que é geral.
- Preciso de um fósforo ou isqueiro aqui.
- Há luz na rua…
- Não te esqueceste de pagar a conta da electricidade, pois não?
- Se eu me esqueci?!
- Vá, esqueceste-te ou não?
- Não me lembro…

é que acontece que um rosto pode mudar de feições ou então feição alguma, uma silhueta negra, anónima, como quem cometeu um crime de que se envergonha e vem falar aos programas da manhã da televisão sem coragem para mostrar a cara.

Troco uma e outra vez o nome de algumas ruas, entro na padaria quando afinal queria aviar uma receita do médico

- Isso da memória é normal da idade, o senhor não vai para novo, tome estes comprimidos e vai sentir-se melhor.

As pessoas dizem-me olá e bom dia e boa noite e eu vou respondendo cheio de simpatias, mas com dó delas que, coitadas, andam a confundir-me com sei lá quem, deve ser a barba comprida, a mesma roupa, talvez seja o cabelo. Esqueço pontualmente onde deixo a chave do carro, e a conduzir mexo constantemente na caixa das velocidades, reduzo de quinta para segunda convencido que é a terceira que devo introduzir, e o carro lamentando em roncos constantes e solavancos de que vou queixar-me ao mecânico

- Parece-me tudo bem, senhor Alcino, não vejo nada de mal no carro.

Então depois de ter esquecido a hora do almoço ou que afinal hoje é sexta-feira e não sábado, atrapalhado e irritado por estar já três horas atrasado para o trabalho, surgem os bichos caminhando meticulosamente pela parede, nos cantos escuros, atravessando o chão na calçada, e no entanto a parede vazia, nos cantos só o pó, e a calçada apenas manchada pela chuva

- Preciso de usar óculos, doutor?
- Que letras vê na primeira linha?
- Aquilo ali são letras, doutor?

Perde-se a noção do tempo: sei lá que dia é hoje, em que mês estamos,

- Com esta chuva, deixa ver… abril? março?
- Dezembro, pai, estamos em dezembro.
- Como dezembro, nem está sequer frio!

e os anos então,

- Claro que sei o ano, é mil… mil novecentos… e noventa… Não é? Quê? Noventa e quatro, não?

sem dar conta que afinal o João não é o meu irmão, mas o meu filho mais novo, se tenho um irmão chamado João não sei, nunca fomos apresentados. Os meus pais há que anos morando entalhados no cemitério e eu convencido que a minha mãe sentada numa cadeira à minha frente, mentindo-me com os dentes todos:

- Sou a tua irmã Irene, lembras-te de mim, Alcino?

Isto é nada mais que bichos, insectos dia e noite, formigas, escaravelhos, aranhas, centopeias, gafanhotos, baratas,

(minto: são mais escaravelhos, são carapaças duras dentro da minha cabeça, que diabo faz um escaravelho no meu sonho?),

e os bichos atravessam-me as emoções, roem-me a alma de tão tenra e mimosa, suspendem os sons e as imagens nas minúsculas patas, e sinto que me levam arrastado com eles nas suas couraças de quitina, até que

até que

acho que deixo de despertar, ou então de adormecer

- Que tenho eu afinal?
- Sofres de Alzheimer.
- Alzheimer? Que é isso?

Penso que será nome de um insecto qualquer muito exótico a movimentar as pinças e as antenas, num bailado perfeito de paciência. Têm uma paciência enorme, estes bichos. Conseguem apodrecer-me a alma e aguentam com valentia e grande dignidade as misérias do meu corpo. Na volta nem preciso de morrer, os bichos fazem a morte por mim. Que altruísmo, para um bicho tão pequeno.

- Nobre besta, esse Alzheimer.

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