7 de novembro de 2010

exaltação a ofélia (glosando antónio lobo antunes)

O mar não é tão fundo que me tire a vida
nem há tão larga rua que me leve a morte
sabe-me a boca ao sal da despedida
meu lenço de gaivota ao vento norte

meus lábios de água meu limão de amor
meu corpo de pinhal à ventania
meu cedro à lua minha acácia em flor
minha laranja a arder na noite fria.

António Lobo Antunes, fox-trot nº 3, Letrinhas de Cantigas


Não devia haver mistério entre nós, Ofélia, somente beijos trocados com a paciência adolescente da delicadeza, sem qualquer trejeito de ansiedade. Cuidei que a ternura viesse para nos enlaçar nessa convulsão desmedida dos amantes e parti do porto do mundo soltando as amarras da jangada dos teus cabelos, numa deriva sem pressas ignorando sinais de tormenta. Feras marinhas não me assustariam e adamastor um gato manso que se curvaria ao meu afago. Perdido em ti quis embarcar, mas perdido de ti me vi naufragando quando o frio do entardecer te revolveu, emancipando as lágrimas no teu rosto e devolvendo-me, aflito, à profundeza das sombras. Porém, meu amor, o mar não é tão fundo que me tire a vida.

Dias sem palavras que não me explicaram as lágrimas precipitadas. Noites divagando sobre qualquer gesto que tivesse desmoronado o que numa troca de afectos se erguera como um império seguro. Os pardais vão recolhendo as plumas numa algazarra de chilreios entre as folhas mais persistentes que o outono avançando engole no seu crepúsculo de viuvez. Sou varrido por essa língua parda entre o grito vazio do meu quarto e as buliçosas criaturas na árvore. O deserto da rua configura um cenário trágico, como se o teu silêncio me tivesse despedido do mundo, pendurado nos barrotes do alpendre. Resisto: entro na noite à boleia do vento e sigo de novo sem destino. Não te concebo ainda perdida, nem há tão larga rua que me leve a morte.

Encontro-te num acaso de becos, por essa cidade imperfeita e gulosa de almas como a tua. Vens de abraços casuais e sem vontade, com os olhos injectados de qualquer coisa que desconheço. Porque me escondes dos teus segredos, serão tão defeituosos para que me apartes das nódoas que a vida te marcou? Todos temos as fraquezas que nos envergonham, somos de carne fraca e porém delicada, à mercê de vontades, miséria, conquistas, vaidade, luxos. Quero um gesto teu, um aceno para voltar a pertencer-te. Não vou ver o caminho que percorreste, quero dar-te um prado para te soltares selvagem e sem pudor, entregar-te de mim a liberdade que procuras. Vem para poder sentir-te. Não aguento ver-te sempre fugindo, Ofélia: sinto nos pés o chão deferindo a lonjura, e sabe-me a boca ao sal da despedida.

Diz-me que não é verdade a tristeza no nosso seio. Confirma-me que afastamos de nós a efemeridade. Que teremos com certeza o nosso mato para desbravar mas definido o nosso empenho para abrir o caminho. Não existe abismo no nosso mundo se a minha na tua pele numa ambição de simbiose perfeita. Esquece o esconso, os desvios mais angulares que te fazem perder de embaraço. Deixa-me quebrar o frio com a lenta progressão de um dos meus dedos acariciando-te a fronte, descendo pela face à base do queixo, na esperança de um sorriso. Daqueles que dizem tudo, que substituem palavras. Sem o abandono da pressa. Deixa amarrar-me no teu corpo, ó meu lenço de gaivota ao vento norte.

Já não vou aceitar mais a despedida, Ofélia. Ainda que partas uma e outra e mais outra vez. Serei a tua sombra, mesmo que me inflijas com o desdém. Saberei que não virá do fundo de ti, será apenas superficial, signo da fraqueza que te opera a insegurança. Acredito que vamos nesta toada embalados. És a minha sede saciada, meus lábios de água meu limão de amor.

Contigo não definho, apartado desapareço. É como dizer que me sirvo do mesmo sangue que te corre nas veias, que também se resolve na rosa do meu peito. Que a tua saliva o mar de onde pesco o alimento fresco, que os teus cabelos o aroma da terra fertilizando primaveras permanentes, que os teus dedos o tecelão de todas as civilizações vindouras, que o teu olhar o vento, a brisa, o orvalho das madrugadas cristalinas, meu corpo de pinhal à ventania.

És o ventre do meu fruto, és toda eu num mundo novo, e levar-me-ás para o eterno se a morte vier disfarçada. Minha sonata da juventude, minha sinfonia da vida, meu requiem do adeus. Concebes outra realidade, Ofélia? Enlaça a tua mão na minha, e vamos preparar o futuro para a metamorfose dos corpos, meu cedro à lua minha acácia em flor.

Mesmo que o fado me tenha traído e sejas tu hoje ausência irreversível sobrando apenas num sonho que miseravelmente deseje muito, serás ainda assim o meu farol de guia, minha torre de menagem, minha laranja a arder na noite fria.

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