25 de setembro de 2010

acentuado arrefecimento nocturno

Im Nebel der Nacht, por Michael Sturm em PhotoFrontal
Irrita-me ter a consciência de que o tempo se vai esgotando, num compasso que a princípio parecia tão lento que julgara que a era que hoje vivo quase nunca seria vindoura, para depois o ritmo acelerar tanto ao ponto de eu não ter a certeza de ter dado conta das estações e dos meses, e de me admirar se já é noite quando ainda há pouco despertava bocejando o sono da madrugada anterior. É verdade que me concedeu atingir um certo grau de maturidade e com isso um maior conhecimento de mim mesmo, dos outros e das coisas de que são feitas o mundo, mas aborrece-me que tenha o tempo essa liberdade tirana de ir passando sem me dizer onde foi, onde está e para onde vai, principalmente porque me leva arrastado consigo.

Não lhe dou confiança e vou esquecendo-me da idade que tenho. É um falso pressuposto para continuar emocionalmente equilibrado, mas sinto que devo lutar minimamente contra os abusos e feridas que as crises existenciais provocam, ainda que esteja a enganar-me e tenha o subconsciente alerta nesse sentido. Na verdade, atingir o ponto exacto da metade da esperança média de vida que as estatísticas oficiais nos oferecem, e reflectir sobre tal é como acordar a meio de uma ponte sem saber para qual dos lados seguir. Em frente é o caminho, apontam-me, e vão alertando-me que recuar até seria aprazível mas as leis físicas tanto quanto as conhecemos não nos possibilitam tal aventura. E recuar ainda podia ser fatal, já que ao longo da vida nunca percorremos rectas sem desvios, bem pelo contrário, e tantas foram já as barreiras e os obstáculos que duvido se não se tornariam ainda mais difíceis de transpor num caminho feito ao revés. Porém, atingir a metade do nosso tempo e seguir em frente é tomar uma tal dose de angústia e expectativa que podemos até continuar o caminho com ânimo e força, se a saúde não faltar, mas o certo é que seguimos tão intoxicados e tão nefastos de dúvidas que o melhor é enganar as ideias e fazer de conta que não sabemos nada disso do tempo que flui.

Cruel mesmo é quando não nos deixamos enganar por nós próprios, ou seja, não nos concedermos essa boutade de ser-se humano: esquecer simplesmente o tempo, e fingir sermos, nesse campo, irracionais. Contra esse tirano do tempo ainda temos uma arma poderosa que é a tragicomédia do suicídio existencial. Tão simples: barramos o tempo na precisa altura em que queremos cristalizar a imagem do que somos, passando para o lado dos que foram. Continuará o tempo a rir-se de nós, apontando-nos infelizes, condenando-nos ao passado, mas segue já de tal modo cheio de raiva que semeia o esquecimento nas mentes dos que ficam como os únicos que nos podem preservar essa eternidade a partir do momento em que decidimos ser apenas até onde chegamos. O tempo é como uma geada, queima tudo. E esquecendo ou acabando aqueles que nos conheceram em vida, morremos então definitivamente.

Não vou pois por aí. É preferível dar o braço a torcer e ver o que lá vem, sem cuidar muito de me preocupar. O tempo tem também alguns rasgos de misericórdia e concede-nos um pouco mais do seu espaço por vezes, nós é que nunca conseguimos prevê-lo. O malvado ainda se diverte:

- Vês como valeu a pena não me teres deixado?

Por isso vou continuar, esmorecendo a irritação e, sim, sem dar muita importância a esse delírio do universo. Já basta ter entrado numa fase de declínio após ter alcançado o pico mais alto da minha existência. Na descida também há frutos para recolher. Batalhas por vencer, louros a receber. E quem sabe uma apoteótica recepção na meta. O arrefecimento vai tornar-se acentuado, vou notá-lo, como quando caminhamos nas primeiras noites de outono, mas convém não esquecer que sou eu, somos nós. Ainda que levados pelo tempo somos sempre nós, os donos de nós mesmos.

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