1 de agosto de 2010

silenciosite crónica



Sofre-se muito nesta luta abstracta com o papel em branco que se porta como uma virgem hesitante em concretizar o casamento. Podem ser dias, semanas, meses, ou um tempo indefinido sem que o nubente perceba que, ao fim ao cabo, cometeu um erro ao enganar-se com o seu puritanismo ou que ser ovelha tresmalhada pode dar em má sentença. Os obstáculos são em tudo irreais e, ainda assim, quase intransponíveis. Só refiro o advérbio quase porque afinal sempre se pode escrever qualquer patetice sem interesse que muitos não hesitarão em julgar com o seu cliché moda do «isto é bastante profundo!».

Quem sofre do mal da silenciosite crónica não deixa sinais como os que padecem de males gástricos: a estes dá-se-lhes pela presença devido aos seus estertores sulfurosos, pelos queixumes de um abdómen dilatado que os produtos bífidus de L. Casei activos não podem remediar. A brancura febril e obstinada do papel pode, no máximo, fazer o paciente deitar as tardes a dormir invariavelmente, predispô-lo à penumbra e dar ares de ser socialmente um chato do caraças. De dissolver em total indiferença os gestos e os movimentos intestinais de um mundo que o apela. E assim que acorda, insiste, insiste, insiste, e volta a insistir para depois desistir como se apenas uma vontade de urinar o despertasse e, aliviada a pressão da bexiga, o sono lhe dissesse que ainda não é o momento oportuno de se erguer para o dia.

O pior, porém, são as verborreias, atacando a meio da noite, antecedidas de febris delírios após leituras sonâmbulas desarticuladas, insuflando de flatulência o pensamento. Apesar da alegria desmedida de tantas ideias em ebulição e que poderiam resultar, o paciente apenas se transforma num objecto sentado penitente numa sanita metafórica, indiferente ao sono de terceiros que o não ouvem, não lhe dão atenção. De suores frios ao vómito sob dois dedos enfiados até meio da garganta desintegram-se facilmente os projectos mais ou menos ambiciosos de um livro fora de série com a promessa de uma ressaca pastosa ao despertar com os pardais chilreando sobre a janela onde o sol penosamente bate para poder entrar.

Às vezes apetece-me uma entrevista terapêutica como se valesse a pena saber o que vai passando na infeliz cabeça do aprendiz a escritor. Dar conta das dificuldades, do porquê de tanta mediocridade, dos desânimos constantes, das euforias repentinas de génio, e por que se desiste no preciso momento em que tudo e todos barafustam para contrariar-nos a preguiçosa e fácil atitude de estarmos calados.

No que refere a mim podem ser mil e uma maleitas. Se não vou bem cá dentro, cago uma boa dose de mil palavras sem que alguma pareça ser coerente e diga realmente qualquer coisa em concreto. Devia haver hospitais que internassem escritores ou escrevinhadores doentes de silenciosite crónica: ministravam-se umas potentes gramas de literatura clássica para resolver dúvidas, intercalando com injecções periódicas de textos contemporâneos e, à noite, uns supositórios de poesia épica para, no mínimo, reduzir os efeitos nauseabundos dos ataques verborreicos da madrugada. Com uns bons dois meses (ou o tempo que fosse necessário) de tratamento intenso, mesmo residindo a dúvida se o doente sairia como um escritor novo, concerteza muita boa gente – como eu – daria alvíssaras por ficar finalmente curado deste mal do papel em branco.

Enviar um comentário