16 de agosto de 2010

«a saudade é o revés de um parto»


un coup d'oeil, por Emanuel Priolli em 1000 imagens


Dizem as árvores altas que o vento murmura tanto que nos pode levantar alados, lembrando essas espécies místicas de homens híbridos do que quer que seja, e não estou para acreditar em tais devaneios. O ar circula umas vezes com a leveza das asas de um pardal, outras como um rugido de fera, mas sem qualquer qualidade assombrosa se não nos detivermos a observar a agitação das árvores que mexem porque gesticulam alardes dentro dos sonhos os presságios, os avisos, crentes do seu poder temeroso e de discernimento. Eu fugi dos locais onde o ar corre com medo do teu olhar tímido a procurar-me ao mesmo tempo que o espanto te ocupa a temer os assobios do vento nas frinchas das janelas e nas sombras dos ramos altos. Isto foi o sonho da primeira noite, do corpo extenuado das tremuras e do coração como um cavalo cansado de correr sem acertar o rumo, com latejos nas fontes e os olhos raiados de sono.

Pela manhã seguinte, sol alto e quente e sem sinais de que o vento e as árvores tivessem sido tão ameaçadores, os teus olhos tímidos voltam a procurar-me num sorriso enquanto as tuas mãos te ocupam de tarefas que não interessa agora referir. Corre no teu corpo essa seiva tão fresca e jovem de que a tua idade é feita que não pude resistir desde o momento que te soube presente. De tantas mulheres no mundo onde vivo e por onde passo, mais velhas ou mais novas, anónimas e conhecidas, formosas e outras menos bonitas, tu foste iluminada como bailarina, actriz ou solista destacada num espectáculo promissor. Sempre estiveste presente, mas passaste a estar em mim sem que o infinitivo do verbo se desvie para outras conjugações: foi desde que soube de ti e te vi sorrir tão espontânea que nem percebi se era um teu gesto de natural simpatia ou se havíamos, nesse instante, encarnado duas dessas personagens de comédia romântica que passam nos filmes. Descartando o cliché e o tom lamechas que tal imagem possa dar, a verdade é que o que aconteceu entre nós foi essa coisa da faísca, dessa química, de “pintar um clima” que ouvimos dizer dos brasileiros nas novelas.

Uma empatia simplesmente natural entre dois seres que se encontram e sabem que tudo será diferente a partir desse momento. E a tua alegria tudo dizia a esse respeito: não me tiraste os olhos desde que o espaço entre nós fosse o mínimo suficiente para que me pudesses seduzir com o teu gesto, o teu pescoço inclinado a mostrar-me a ligeira penugem e as tuas mãos delicadas manejando os objectos. Os teus lábios rubros da sede de um beijo furtivo, desses em que os dedos e as mãos tímidas e fervorosas poisando brisas ligeiras sobre o rosto um do outro, as bocas que mal se tocando se afastam no segundo seguinte como adão e eva descobrindo-se nus e mirando-se apaixonados mas cheios de vergonha e pecado perante o olhar intrigado do senhor do éden.

Teria preferido, porém, que tudo não tivesse sido apenas o sonho daquela primeira noite de ventania. Que as árvores tivessem continuado agitando os ramos a assombrar a simples ideia de que pudéssemos vir a apaixonar-nos assim. Eis que o teu olhar desenha uma dor em mim, primeiro como um esboço suspirado, depois um alerta qualquer de perigo, e por fim a realidade latejando o malogro da nossa atitude. Só dói a saudade e a frustração de nunca nos tocarmos como se morrêssemos nesse caminho entre a dúvida e a felicidade. A única realidade é a minha partida, mais dura e manifestamente mais imprevisível para ti do que a minha chegada que tanto te perturbou. Não é possível porque nasceste tarde para mim e chegamos um ao outro como se o tempo fosse um castigo. As circunstâncias nunca serão favoráveis para alimentarmos este fogo. Viemos um ao outro com a saudade doendo e tu nunca poderias prever que assim fosse.

Então sou eu que te vejo hoje partir depois de uma jornada, tu convencida do até já, e eu acenando-te adeus sem que percebas e sem que um gesto do meu corpo te diga a verdade. Esta tua partida, o teu até já soprado em voz trémula de virgem que se abre para o seu primeiro amante, é o mais sofrido adeus que alguma vez concretizei. Mais tarde pressentirás a minha ausência e amanhã perceberás que é definitiva, assim que o teu olhar me procurar nos mesmos espaços onde restará apenas o pó da minha imagem. O que parecia um sonho afinal não foi: o vento veio alar-me, fazendo-me desaparecer de ti como se tivesse ascendido a um céu qualquer das mitologias pagãs. Ficarás tu eva só e abandonada, crendo que o senhor do éden é bom e de uma costela tua – onde a dor te fustigar mais forte – te fará o pedaço de ti que se esvaneceu, agora híbrido de um qualquer astro que teimosamente ainda procurarás no firmamento.

Esquece. Sente o vento e escuta o que desde o primeiro momento quiseram alertar as árvores com os seus ramos agitados. Deixarás, aos poucos, de te lembrares de me procurar nos mesmos locais onde em noites quentes de agosto me namoravas. Sacudirás o pó, os fragmentos da minha imagem será um leve devaneio. Esquece, porque a dor levo-a eu: não de remorso, nem tanto de desgosto. É desta saudade que dói, e de tanta raiva por o tempo continuar fluindo sempre contra mim.

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