2 de abril de 2010

agnus dei

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Dois mil

(menos trinta e três, a conta que deus fez, ou seja)

mil novecentos e sessenta e sete anos tem a madeira que quis que apodrecesses antes dela. O teu nome perdurou na história dos homens, a madeira transformou-se em cinzas. Chamaram-lhe a cruz por que eram dois troncos toscos colocados transversalmente: um na vertical e o outro alinhado ao centro no topo do primeiro horizontalmente. Ou simplesmente por que os dois troncos se cruzavam em T, não um perfeito cruzamento mas antes uma bifurcação perversa

(o que bifurca? o teu destino? o destino dos homens? dois caminhos de deus?).

Por cima uma inscrição muito irónica, à semelhança do que se faz ainda hoje quando se quer humilhar alguém. Era assim que na lei imperial romana se castigavam os prevaricadores. A cruz em ti passou a ser sinal perverso de salvação, mas significa apenas a tua morte. Cegos os que não percebem coisa tão simples.

Foste o primeiro mártir sem pátria: aquele que combatia com a palavra e actos de bondade como dádivas os vícios instituídos em vez do gume das espadas e dos punhais sedentos de sangue. Um mártir para expiar a inveja e a mesquinhez de um povo alienado pela influência de um poder corrupto de fariseus subalternos do outro poder dominador de roma. Morreste sofrendo de uma tortura medonha, alicerce enfim de todas as vergonhosas torturas vindas depois em teu nome e do pai deus e de toda a civilização acreditando que foste o santo dos santos. Ofereceste a face ao cuspo e ao escarninho da vileza humana, raça naquela altura já tão sem vergonha dos seus actos que nunca mais viria a mudar. Depois de ti os que te seguiram na mesma pureza foram também carne oferecida a martírio para a salvação dos pecados, e depois destes aqueles que os seguiram sentindo que era a ti que seguiam, somando mártires e santos antes e depois da igreja que veio com o teu nome erguida como paródia, mártires cuja quantidade esse deus não soube nunca contabilizar. E ainda os que, mesmo renegando yahweh ou outro deus menor, da mesma sorte foram partindo deste mundo em dois mil anos depois de ti, à assimetria de outros mais ainda antes da tua anunciação.

Esta humanidade, que protegeste na tua dor

(como a leoa protege as suas inocentes crias da predação das hienas e dos chacais loucos de sangue e carne fresca – mas será que não sabias que a humanidade em vez de inocente era, como foi e será, um covil de hienas e chacais, esses animais feros e escarninhos, covardes desde o princípio do mundo, a rasgar sem remorso a carne do teu colo acolhedor?)

esta humanidade, de tanto obscena, não soube nunca compreender-te. Aceitar-te como um homem em tudo semelhante aos que habitavam a terra, mas semeando um evangelho promissor de frutos novos e esperanças. A humanidade temia que os espelhos quebrassem, não se sentia confortável que a tua imagem se lhe fosse semelhante, não era possível uma metáfora viva de carne e osso. Mesmo sabendo e apalpando a solidez da tua carne, a energia da tua voz e a ternura do teu toque. Não havia por que duvidarem, mas os homens não te aceitaram como um seu igual.

Amedrontados com o desconhecido, imitaram ancestrais: ergueram-te como o mais divino, o primeiro dos santos pregado nessa cruz que é afinal uma bifurcação

(o que bifurca? o teu destino? o destino dos homens? dois caminhos de yahweh?),

um cordeiro desse deus malvado que inventaram para justificar os seus actos. O cordeiro de deus que derramaria o seu sangue para a redenção dos pecados e da malvadez humana. É mais fácil uma hipócrita bandeira branca do que a perseverança em nos tornarmos melhores do que fomos, do que são os animais feros e escarninhos de onde viemos. E chamaram-te cristo, isto é, o ungido de deus: aquele que tudo supera, por amor aos homens fracos de carne e espírito. E se ungido de deus, símbolo da humanidade para sua aspiração ao bem.

Porém, nunca te seguiram verdadeiramente: nem com as palavras que semeaste em vez do gume das espadas e dos punhais sedentos de sangue, nem pelo que em ti projectaram, o cordeiro ungido e salvador. Continua a humanidade numa senda obscena e hipócrita, expiada por ti durante séculos até ao fim. A carregar a sua verdadeira cruz, não de madeira, não de pedra, mas de chumbo: vem carregando nos ombros o mundo por castigo, à beira da catástrofe, vítima da sua tão grande culpa e cobiça.

E assim errará pelos séculos, numa grita silenciosa de sofrimento maior que todos os infernos delirados. Até que desapareça do espaço e do tempo esmagada pela sua própria mão.

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