12 de março de 2010

here comes the sun

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Here Comes The Sun, The Beatles, Abbey Road (1969)


O sol nasce

(para todos?

- Vais filosofar a esta hora da manhã?
- Tens razão, não vou)

e quando nasce vem prometendo que se recolherá naquela hora em que se deixa já de sentir-se o inverno

(apesar dos dias de chuva, do vento e do frio que como vagabundos sem abrigo, sem destino, sem lugar ou hora certa vão dando mostras do seu mau feitio quando já tudo menos se espera deles)

e o assobio do melro entre o verde que se reaviva inverte a melancolia em sorrisos espontâneos, as pálpebras cerradas a apreciar-lhe o canto com um prazer que se pensava esquecido e os braços espreguiçam-se como se todos os minutos do dia fossem de morna alvorada.

Bicicletas limpam-se do pó e do bolor das penumbras de garagem a cortar o ar em velocidades de pardal sem levantar do chão, e os casacos saem do corpo para seguir a tiracolo ou atirados para dentro do roupeiro

- Hoje ficas aí

e em vez da camisola farta e cinzenta, a leveza do algodão colorido.

As árvores despidas vão vestir-se lentamente não porque deixaram de se sentir quentes e tenham agora frio mas porque se vão vestindo de frescura a convocar brisas, aromas, sombras graciosas que não trazem depressões no seio. Os rebentos na terra esperançando frutos novos e quando menos se dá conta, já os prados se enchem de malmequeres brancos e amarelos enquanto não amadurece o tojo e a giesta.

Bucólico o ar sem ares de tristeza. Então, os cabelos das mulheres mais belas semeiam a primavera, renovando o ciclo das estações, sempre e cada vez mais esperada com a saudade de nos sentirmos felizes, de que talvez o tempo não seja assim tão cru e nos conceda o desejo de se deixar ficar paradinho de todas as vezes que a memória o proteste.

Vem aí o sol, é certo, mesmo que lhe custe ainda adaptar-se à inclinação deste hemisfério onde tentamos todos encontrar razões para nos livrarmos

(olha, afinal sempre se filosofa)

de tantas nuvens negras – físicas ou metafóricas – que nos têm atormentado há tantos meses e em que parece que envelhecemos sem dar vazão ao próprio tempo.

(- Pára! Não estragues tudo. Não resistes mesmo, não é?
- A natureza prossegue, meu amor, e a minha é assim mesmo... não a posso travar.)

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