4 de março de 2010

é um palheiro


(autor da foto desconhecido)


Andamos no mundo a abafar nossos vãos e inconfidentes pecados, a tirar da vida e das pessoas tudo o que é ter, e ter sempre cada vez mais. Feitos doidos, roemos o pão duro que o tal diabo amassou

(pobre padeiro medíocre o diabo, há séculos a fazer um pão assim tão rude, e nós pior ainda, que o tragamos sem reclamar, nem sequer uma mirada por cima do ombro)

sem saber onde encostar o corpo e descansar a cabeça, sem saber em que chão firme possamos pisar ou se é no lodo que nos vamos atolando.

E dizes-me: o mundo é feito assim, vais agora tu querer mudá-lo?

Dizes-me mais: escreves essas coisas todas sofridas, conta lá, és uma pessoa triste?

E respondo: não posso sozinho mudar o mundo, claro que não, se ainda fosse eu e tu e outros mais ainda talvez, mas mesmo assim… Nada muda, e isso é que me incomoda, cada dia igual ao anterior e nada fazemos: menosprezamos o que mais significância tem e rendemo-nos às coisas fúteis, idolatrando falsas questões, ao encontro de falsas sendas. Cremos em deus tão enganados de nós mesmos. Cremos em deuses porque não sabemos como crer em nós próprios.

E respondo mais: triste eu? Que conheces de mim para me rotulares a tristeza? Não a coloques em mim, que sigo sem culpa gaguejando incertezas e amarguras de cada vez que me cresce a idade. O mundo é que é triste, nunca te preocupaste em olhar à tua volta? O mundo está triste, tão doente: se nada se acerta, como vamos acertar o passo?

- Para quê?

- Para que juntemos a vozes e façamos uma longa cadeia

(diria eu. E responderias:)

- Deixa-te de merdas, e vem mas é divertir-te.

Nada muda, vês? Alguém ainda mexe uma palhinha, mas, no fundo, quem tem coragem para encontrar essa

(senda, graal, o que lhe chames)

tão procurada agulha no palheiro?
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