9 de fevereiro de 2010

o funil


(Botticelli)

Imaginas um funil? Agora enche-o de areia até cima, e enquanto os primeiros grãos começam a correr pelo fundo, coloca-me miniaturizado no topo, sobre a areia

(não sou muito pequeno para desaparecer dentro da areia, nem grande suficiente para me segurar).

O funil vai esvaziando e eu descendo desequilibrado no chão instável sob os meus pés

(eu serei uma miniatura ou uma caricatura?)

e apesar de ver o fosso aumentar em meu redor, e apesar de atiçar as unhas contra a parede lisa do funil, não almejo salvação

(é curioso observares o fenómeno: bastariam os teus dedos como pinça para me salvar da aflição, mas tens os olhos ávidos de saberes o que vai acontecer concretamente).

Já a areia desceu praticamente toda pelo tubo final do funil, e ainda que por momentos conseguisse segurar-me numa aresta mal polida do objecto,

(até no abismo encontramos os erros alheios)

as minhas forças rendem-se e eis o meu corpo resignado a deslizar até ao afunilamento do relevo.

(Não sou miniatura nem caricatura: sou uma marioneta. Um fantoche de braços, pernas e cabeça aflitos e desesperadamente agitados pela tua curiosidade.)

Nem magro nem muito gordo, mas uma massa corporal suficiente para que, ao afunilar, não conseguir finalizar a viagem pelo tubo onde termina o objecto: sou eu, metade afunilado, metade ainda a respirar a superfície, mas sem qualquer esperança de salvação. Se me puxas para cima, separarás o tronco das pernas

(queres-me inteiro?);

se me empurras para baixo esmagas-me a cabeça para dentro do tronco. A estupidez está em que por mais riscos eu corra contigo, vou sempre para onde me queres levar. E um dia vai ser assim: deixo na parede o desassossego volatilizado pela penumbra que se insinua consoante a vontade das nuvens, e estarei acossado pelo humor da tua curiosidade.

Livra-te deus.

(sobrou-me aqui uma vírgula?)
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