19 de fevereiro de 2010

grisalho



os teus lábios beijam-me pálidos.

lá fora o nevoeiro como se mil fumadores
filosofando tacitamente a quietude da alvorada:
é a palavra cinza de frio escrita na janela.

do leito te ergues, morrendo os lençóis à tua partida.

a tua ausência acentua a cor grisalha da janela
a consentir que espreguice o corpo dolorido sobre o leito
e os meus músculos não querem acordar prematuros.

regressas ao quarto já a fumar
como se quisesses fazer parte do ritual que além janela
o dia provoca na sua triste e cinzenta manhã.

olhas-te ao espelho, observas o teu corpo
e de súbito reparas no teu envelhecimento:
ontem não soubeste não conseguiste fazer-me amor.

perdoa-te
concede-te a desculpa da primeira vez.

talvez que o dia não se acinzente assim tanto
e eu possa sentir-te crescendo sob as tuas rugas
numa torre carmesim a ansiar o desejo.
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