20 de janeiro de 2010

verborreia


foto de Raphaële Colombi (daqui)


Não consigo escrever: tudo se amontoa à boca do pensamento, cheio de ruído, congestionado por preocupações e más vontades contra mim. Não encontro outra posição senão a cabeça amparada sobre a palma da mão, numa atitude de

(foda-se lá isto)

de indiferença, com a boca posta torta de cansaço. Os olhos deixam-se levar pelo peso das pálpebras e vou quase chegando aos sonhos da vigília onde a realidade se transforma em algo confuso e cada vez mais distante. Desperto com o roncar furioso de um carro para lá da janela, e não mudando de atitude, fico a observá-lo: bicho preguiçoso de focos espetados a assomar na curva, a rua sobe e o bicho barafusta com as suas ventas de pistões e escape com o declive que lhe faz perder a velocidade, o condutor reduz para segunda e o carro vai esforçado, lentamente, a subir o quanto lhe custa, até desaparecer da minha vista.

Retornando a paisagem à noite deserta e fria,

(todas a casas de estores corridos como se por dentro nunca tivessem sido habitadas)

volto a encarar a alvura do papel, o deserto vasto branco do papel que me magoa, intriga e frustra. Os cigarros são a derradeira tentação, a mão segurando uma esferográfica suspensa das palavras que teimam em não decifrar o pensamento atrapalhado por sentimentos que não sei agora exprimir.

Creio que o que digo – ou o que disser – é sobre o quanto já não sei o que foi, tudo o que é transforma-se vagaroso num ontem antecipado e descomprometido, e sigo cego de mim mesmo, com a cabeça pousada na palma da mão, a boca torta do cansaço que também se transforma, lentamente, numa irremediável irritação contra mim, contra todos. E por isso

(foda-se lá isto)

não lembro o passado, nem descodifico o presente e muito menos posso pensar qualquer nada de um futuro que honestamente nem sei que significado tem.

Crês em mim? Estou como o carro, bicho preguiçoso a subir o declive de uma rua. Se engatasse a segunda talvez viesse a produzir alguma coisa, mas temo que no fim da subida, arfando das ventas

(de pistões e escape)

me venha a faltar o combustível. Então era o papel amarrotado, o caixote do lixo boca esfomeada da minha mediocridade. Será melhor procurar outro repouso para a cabeça que não as falanges da mão, uma almofada talvez, aguardando o sono que venha a retemperar a energia para um despertar sem amuos nem resmungos. Procurando não o hoje, já transformado num ontem, mas tentar revigorar um amanhã mais promissor.

Pelos menos que escreva puro, sem esta verborreia que nada acrescenta, e apenas me ilude.

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