1 de dezembro de 2009

isto de escrever



Sabes, é um desespero isto de escrever, uma dor que remói, a cárie de um dente a extinguir-se na boca,

(falo na boca porque a boca instrumento para entabular conversas que tenho, umas fiadas, outras existenciais, algumas polémicas

não haver deus é um deus também)

e por isso não escrever como se fosse um abcesso, uma ferida aberta, ou aquela dor que nos fatiga a cabeça quando queremos ver televisão ou ler um livro, e o pensamento longe, nada entendemos do programa, não sabemos o que lemos, o pensamento desviado e queixando-se

- Dói-me a cabeça

ou não uma dor de cabeça, uma dor de velhos

- Dói-me os ossos

de modo que podes acreditar, não só como Alberto Caeiro dizia pensar incomoda como andar à chuva, escrever é não saber o destino que o comboio onde entramos nos vai levar; aquela velocidade a que passam as árvores, os postes de iluminação, as casas, os automóveis parados na barulheira da campainha à passagem da composição – assim se me apresentam as palavras compostas, escritas que não querem obedecer, o cigarro

- Dá-me um cigarro, Rosa

aceso porque o papel morto na sua brancura. Há quem defenda que a brancura é sinal de pureza, mas a pureza do papel é a morte das palavras abortadas na cancela esconsa do meu pensamento, e a cancela fechada, o comboio passando, levando na velocidade as árvores, os postes de iluminação, as casas, os automóveis parados na barulheira da campainha, rugindo, como rugem animais feros, acutilados pela dor que um caçador lhes inflige com a sua certeira e letal arma de trazer ao tiracolo, embrulhada em panos que se querem limpos; eu para a Rosa,

- Dá-me um cigarro

e o cigarro não afugenta as feras, o cigarro não embrulhado em panos que se querem limpos, apenas composto na boca de onde a dor

- Dói-me um dente

não

- Dói-me a cabeça

não

a dor dos velhos, dor de reumatismo, dor senil, é isso, dor senil, senil como a senilidade com que as palavras se me apresentam na cancela esconsa do meu pensamento.

Não é poesia, tão pouco um conto, de longe será romance que um dia escreverei e entalado na garganta como a espinha de peixe que se espeta na laringe e já depois de engolida ainda a sensação

- Tenho uma espinha atravessada na garganta

e não há espinha alguma, apenas a sensação, a sensação de que as palavras ficam entaladas, espetadas como espinhos de um cato torto abandonado nos confins de uma varanda só visitada nos dias de verão; olho para baixo e vejo a linha escura, os carris cansados, o comboio ao longe, apitando, assomando, rugindo como animal acutilado pela dor que o caçador lhe inflige, e o cigarro que me dás apenas uma mortalha de folhas secas dentro que não exorciza de modo algum esta dor de cabeça

de dentes

de velhos

- Dói-me os ossos

o cigarro não exorciza, o cigarro não é a arma que traria ao tiracolo para acutilar as palavras teimosas,

ou melhor,

as palavras já mortas, abortadas na cancela esconsa do pensamento, e por isso para quê uma arma, para quê um cigarro, porquê

- Dói-me a cabeça

se já não é a cabeça que me dói?,

nem os dentes

apenas

- Dói-me os ossos

um saco de água quente nos pés ao deitar porque a velhice

(senilidade das palavras)

assim obriga, queremo-nos quentes e confortáveis, assistindo à televisão ou lendo um livro de que nada entendemos porque longe o pensamento, à espera que o comboio abrande a velocidade das árvores, dos postes de iluminação, das casas, dos automóveis rugindo à espera para assaltar o outro lado da estrada, convulsos

- Deixai-me passar

quando no mesmo momento atravessa convicta e distraída essa pessoa idosa, por sinal, a palavra que precisava para começar aquela poesia,

não, o conto,

não, não, o romance

que não consigo escrever, e o rugido de um automóvel onde viaja um caçador que acutila as feras com a sua arma letal, embrulhada em panos que se querem limpos, leva em reviravoltas dignas de estrela de circo esta velha, esta dor de cabeça,

perdão,

esta dor de ossos, ou para ser mais simples, esta dor de dentes, esta cárie de um dente destruído que é querer escrever algo conciso não me ser possível, e por isso

- Dá-me um cigarro, Rosa

mas o cigarro não exorciza, muito menos ressuscitará o corpo que jaz sob uma poça de sangue, o automóvel sem rugir, amolgado como se

- Dói-me os ossos

nada poderá remediar o facto de ter perdido atropelada a palavra que me iniciaria num discurso mais longo, de modo que, sabes, escrever dói. Dói, mais do que pensar incomoda como andar à chuva, como diria O Guardador de Rebanhos.

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